Mucuna: do Acre para o Brasil

Experiências desenvolvidas por pequenos produtores acreanos são adotadas pelos governos do Mato Grosso e Tocantins

As experiências desenvolvidas com sucesso pelos pequenos produtores dos projetos de Assentamento da Alcoobrás e Zaqueu Machado, em Capixaba, e no projeto Peixoto, em Plácido de Castro, usando o feijão mucuna para recuperar a terra, evitar queimadas e fazer o plantio direto sem necessidade de aração, está sendo levada a outros estados da Amazônia e Centro-oeste pela agência de Cooperação Italiana (ACI).

Agência ligada aos programas de colaboração do Ministério das Relações Exteriores italiano tem recursos da ordem de 1,5 milhão de euros por ano para a execução de três projetos fundamentais no Brasil.  O Projeto Fogo, que no Acre, Mato Grosso e Pará tem a função de levar aos pequenos produtores técnicas e orientações que diminuam a necessidade de fazer queimadas para fazer suas lavouras.  Projeto Sócio-sanitário voltado ao atendimento e orientação a jovens em situação de risco.  Projeto da Biodiversidade que é desenvolvido em parceria com a Embrapa e Ibama.

Completando seis anos de execução no Acre, as experiências do Acre foram propostas ao Ministério do Meio Ambiente como sugestão aplicável aos demais estados da Amazônia e Centro-oeste.  Estados que também sofrem com a pressão das derrubadas, queimadas e conseqüente empobrecimento do solo que ao ficar degradado não presta à agricultura.  Isso incita os produtores a abrirem novas áreas derrubando a floresta gerando um ciclo de danos ambientais que precisa ser controlado.

"A idéia, é transferir as experiências acumuladas no Acre ao longo deste seis anos de trabalho, para órgãos como o Incra e Seater, a fim de que este trabalho possa ser replicada em escala muito maior em outros estados brasileiros", explicou Roberto Biancci coordenador-geral do Projeto Fogo durante visita ao Acre no fim do ano passado.

Roberto foi enfatizou que a experiência desenvolvida com a mucuna, no Acre, foi a que deu melhores resultados práticos com menor custo para a recuperação das áreas de cultivo para os pequenos produtores familiares.  Por isso não há dúvidas que também surtirá bons resultados em outros estados porque o trabalho é simples e pode ser reproduzido com muita facilidade.

"Nosso objetivo maior é ajudar conter as queimadas, mas não somente isso, pois existem famílias vivendo no campo, então se faz necessário propor alternativas que permitam aos agricultores fazer seus plantios de maneira sustentável e a baixo custo para que possam aumentar sua renda e assim melhorar sua qualidade de vida".

Colônias poliprodutivas

Além das técnicas de recuperação do solo e eliminação dos sapezais com o uso da mucuna, através do projeto fogo os produtores também receberam treinamentos especiais para a produção de mudas, o que levou à criação de viveiros tanto para o plantio de Sistemas Agro-florestais.  Também foram estimulados a tocar o gado branco de carne pelo de leite, aprendendo técnicas de manejos da pastagem e dos animais, além de inseminação artificial para melhorar a qualidade do rebanho.

"A partir da estímulo à criação desses viveiros, só na Alcoobrás e Zaqueu Machado foram produzidas ao longo do ano passado e estão sendo vendidas agora mais 50 mil mudas de frutas cítricas com variedades de laranjas, limões e tangerinas.  Também vendem leite e só o governo do Estado comprou mais de 40 toneladas de sementes de feijão mucuna para distribuir a outros produtores no Estado.  Com isso os produtores passaram a ter uma renda suplementar que não tinham antes", enfatiza Biancci.

Cada família atendida pelo projeto fogo produziu uma média de 300 a 400 quilos de sementes de mucuna, no ano passado e as vendeu a um preço médio de R$ 2,00.

Ensinando a ensinar

A chave do sucesso do Projeto Fogo está, segundo o próprio Bianchi, na criação de unidades demonstrativas, ou seja, chamar reuniões e explicar a proposta e objetivos do projeto a todos eles.  Acontece que em primeiro momento, poucos aderiam à idéia, mas o trabalho era iniciado com eles e o bom resultado conseguido levava outros produtores a aderir ao programa.  "Cada propriedade com seus plantios de mucuna, viveiros e outras ações que estimularam a piscicultura e criação de pequenos animais, funcionam como unidades demonstrativas de que a experiência pode ser reproduzida pelos demais produtores utilizando apenas os recursos que eles já tem em mãos.  Só precisam de sementes e orientação, o resto eles já sabem fazer".

Para chegar a isso, o projeto exige que os técnicos envolvidos no processo conheçam bem a realidade dos que vivem na área e também ponham a mão na massa.  "Eles precisam estar comprometidos, executar seus próprios projetos e trabalhar apoiados na realidade, pois de nada adianta propor grandes soluções que não dão resultado, não dá para produzir coisas para as quais não há mercado ou que não tenham como ser escoadas".

Como resultado dessa praticidade, as experiências do Projeto Fogo estão sendo transformadas em política públicas utilizadas tanto por Organizações Não Governamentais (ONGs) quanto pelo governo do Estado do Acre que começa a estimular o uso da mucuna para a recuperação de áreas degradadas.

"Os primeiros a aderir foram algumas prefeitura, agora os próprios governos do Tocantins e Mato Grosso já estão aplicando nossas experiências.  Como mantemos um relacionamento bastante bom com a Secretaria da Amazônia estamos trabalhando o repasse destas tecnologias aos técnicos dos demais estados da região".

Considerando que em cada lugar a experiência tem de ser adaptada às condições locais, em Alta Floresta no Mato Grosso ela está sendo usada para a recuperação de solos desgastados pela agricultura e nas áreas de pastagens.  Em Juína, no mesmo Estado, a mucuna vem sendo usado pelas equipes de educação indígena, recuperando áreas de plantio o que, além de evitar novos desmates ainda os ajuda a permanecer no campo.  Lá eles manejam parte da floresta e obtêm renda de um garimpo, além de criar galinhas e animais silvestres como o cateto e a cutia para comer e repovoar o ambiente.  Os mais de quatro mil índios Rig-Batsá que vivem ao longo do rio Jurema, ainda no MT, também recebem estão usando a mucuna para fazer roçados.

Negócio alternativo
No entorno da represa de Tucuruí, no Pará a Cooperação Italiana realiza projeto de reciclagem, onde resíduos de madeira que antes eram usado para fazer carvão, agora são transformados em pequenos objetos decorativos ou utilitários que estão à venda na Europa.  "A ministra Marina Silva ficou muito emocionada ao ver a qualidade dos objetos, num presente que entregamos a ela enquanto explicávamos que durante a feira de Bolonha, na Itália, pratos de madeira foram vendidos a 100 euros.  As peças são produzidas por garotos e garotas que antes eram explorados nas carvoarias".

Durante a realização do Floroest 2006, os governos do Mato Grosso e Tocantins fecharam acordos para replicar a experiência da recuperação do solo em alta escala, usando mucuna em seus Estados.  "Lá já estávamos realizando essa experiência, em Guarantã do Norte onde as queimadas se reduziram em 75%.  Ele era o maior desmatador da Amazônia e diminui a queimada depois da bronca dada pela ministra Marina, um exemplo de que além de leis é necessário vontade política para que as coisas sejam modificadas estimulando técnicas alternativas de alta praticidade".

A Amazônia é nossa
Roberto Biancci fez questão de destacar o fato de que, embora seja a financiadora de ações como Projeto Fogo, eles não são de caráter permanente, mas têm como objetivo desenvolver técnicas e mostrar caminhos possíveis para a sustentabilidade ambiental, econômica e social.  "Nossa ação visa deixar ações positivas, cuja qualidade e aplicabilidade vem sendo reconhecidos pelas instituições parceiras que são as ONGs, prefeituras, governos de estados e a União.  Estamos aqui de passagem, viemos colaborar para que as pessoas toquem bons projetos.  Um dos pontos fundamentais é a auto-gestão dessas ações pelas comunidades promovendo ações que não tornam as pessoas dependentes da gente, assim continuam tocando suas vidas sem atropelos quando a gente vai embora".

Fonte: Página 20 <http://www.pagina20.com.br/> em 17/01/2007 por Juracy Xangai- Rio Branco - AC

 

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