Quanto menos, melhor


O perfil das lavouras de maçã está mudando no sul do Brasil. A causa é o Programa de Produção Integrada de Frutas, do Ministério da Agricultura. Ele estabelece regras bem definidas de manejo para o agricultor, desde o plantio até a embalagem. No caso da maçã, a maior preocupação dos pesquisadores ligados ao programa era com o uso excessivo de agrotóxicos.

Onde há fumaça tem agrotóxico. Uma cena comum nos tradicionais pomares de maçã, para o controle de pragas, doenças e plantas invasoras. Todo ano, os agricultores brasileiros gastam 53 milhões de reais em pulverizações. Em média, cada planta recebe 24 aplicações entre uma e outra colheita. “Eu sempre escuto pessoas dizendo que a maçã é uma fruta envenenada”, afirma Rosa Maria Valdebenito Sanhueza, agrônoma da Embrapa.

Há sete anos, a agrônoma Rosa, da estação experimental da Embrapa em Vacaria, Rio Grande do Sul, pesquisa um novo manejo para os pomares de maçã: a Produção Integrada, um programa do Ministério da Agricultura que visa atender as exigências dos países importadores de frutas brasileiras.

No caso da maçã, o maior desafio é reduzir ao máximo a quantidade de produtos químicos na lavoura. Para isso foram instaladas sete estações meteorológicas na região de Vacaria. Um computador cruza as informações sobre umidade e temperatura e manda um alerta para o e-mail ou celular do produtor quando o clima fica favorável para o aparecimento de doenças. Só com esse aviso se faz o controle químico na lavoura, o que reduz o número de pulverizações. “Nós podemos diminuir, por ciclo, entre três e sete tratamentos”, avalia Rosa Maria.

O Globo Rural visitou uma propriedade de 900 hectares de maçã que foi uma das primeiras a adotar as normas da produção integrada. Adensou o plantio, com o uso de uma variedade de porta-enxerto que desenvolve menos folhagens nas plantas. Com isso, é possível trabalhar com cerca de 2.000 pés por hectare, o dobro do método tradicional. Mesmo assim, o pomar fica arejado, evitando doenças.

O agrônomo Celso Zancan é um dos responsáveis pelo trabalho de campo da fazenda. “O benefício que a gente vê nesse programa é assim: nós temos reduzido o gasto com produtos químicos, com os agro-químicos e temos aumentado o custo com mão-de-obra um pouco mais especializada, o que é bom socialmente.

O acompanhamento sistemático da produção é controlado por um número de série. Com ele é possível saber em que propriedade a fruta foi produzida, quais tratamentos recebeu, enfim, checar todas as informações da vida da maçã. Tudo controlado, tudo registrado no código de barras.

Rogério da Silva Lima é auditor de uma certificadora internacional, credenciada pelo Inmetro para fazer parte do programa. É ele que fiscaliza a produção da fazenda e conversa com os responsáveis pela lavoura, conversa com os trabalhadores na colheita.

As propriedades que fazem parte da produção integrada recebem duas ou três visitas dessas por ano. “Na época em que está sendo feito o raleio, a floração. É um tipo de verificação. Depois na colheita e na pós-colheita são outros itens que são verificados”, explica Rogério. Ao todo são centenas de itens certificados.

Até agora, o sistema de produção integrada foi implantado em 12 mil hectares o que representa quase 30% de toda área plantada com maçã no Brasil. Outros 5.000 hectares estão em quarentena, uma fase de transição entre o método convencional e o integrado, no qual o produtor tem que adequar o pomar às regras de certificação.

Uma outra propriedade que visitamos tinha acabado de sair da quarentena e entrar para a produção integrada. A safra que seu Valmor Brezolin está colhendo agora é a primeira com certificação. “O mercado hoje exige uma qualidade melhor. Acho que, então, o próprio produtor tem que se aperfeiçoar cada vez mais”, afirma ele.

E aperfeiçoar a lavoura na produção integrada exige o controle rotineiro das pragas. De três em três dias, Fabiano, o filho do seu Brezolin, checa todas as armadilhas espalhadas pela plantação. Elas têm cores diferentes, para insetos diferentes.

Durante o período de quarentena, seu Brezolin recebeu assistência dos profissionais da Agapomi, a Associação Gaúcha dos Produtores de Maçã. O agrônomo Márcio Bueno foi o responsável por essa orientação na fase de transição da lavoura. “Nós avaliamos a altura de roçada da vegetação na linha de plantio. Antigamente, antes da produção integrada tudo era controlado com herbicida, então hoje é obrigatório se manter uma vegetação na linha e se controlar a altura, (para sabermos) se realmente essa roçada não está expondo o solo, para não ter problema de erosão”. O que mais se avalia na planta? “Na planta também se avalia a pintura dos cortes de poda com uma tinta plástica ou até mesmo com a aplicação de um fungicida misturado à tinta para se evitar problemas de cancro - entrada de umidade, apodrecimento e perda de ramos”, completa.

O controle não pára no campo: a produção integrada também provocou mudanças no packing house, o lugar onde se embalam as maçãs para a comercialização. O código de barras colocado no campo vai para esse local, com todas as informações da produção. E logo na chegada das frutas a água que leva as maçãs para a classificação agora é apenas tratada com cloro – e não contém fungicida, como acontecia antes.

Por todo esse trabalho, seu Brezolin espera uma recompensa: “acho que vou ganhar um lucrozinho de pelo menos uns 5, 6%, eu acho que tem. Para pequenos volumes é pouco, mas em bastante volume é bom”, avalia.

Nesta safra, o Brasil está terminando de colher, serão 800 mil toneladas de maçã. Cerca de 20% vão para fora do país e adaptar a produção às regras da certificação tornou-se pré-requisito para os produtores fecharem negócios com os compradores externos. Hoje, toda maçã Brasileira voltada para exportação sai de lavouras certificadas pela produção integrada.

Diversas regiões do país estão adotando a produção integrada. E com outras frutas como a uva, o pêssego e a manga. Ao todo, 14 frutas estão incluídas no programa.

fonte: Globo Rural em 29 de Maio de 2004.


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