Como tirar o mato de plantios sem usar agrotóxicos? A Embrapa ensina

mato-plantiosUma das principais reivindicações dos agricultores orgânicos do País é a falta de pesquisas voltadas à produção agroecológica. Agora, uma pequena parcela dessa imensa carência está sendo atendida, com o livro “Controle de plantas daninhas: métodos físico, mecânico, cultural, biológico e alelopatia”, que reúne textos de 30 especialistas no assunto, entre pesquisadores da Embrapa e de universidades brasileiras, e tem como editores técnicos Maurílio Fernandes de Oliveira e Alexandre Magno Brighenti.

Este é o primeiro livro nacional a abordar o controle de plantas daninhas sem o uso de agrotóxicos, “atendendo a produtores das áreas de orgânicos, agroecológicos e a própria academia em si”, diz o editor Fernandes de Oliveira, conforme nota da Embrapa.

O bacana é que o livro pode ser baixado gratuitamente na seção “Publicações” do site da Embrapa. “Detectamos que o controle não químico (ou sem agrotóxicos) de plantas daninhas demanda esforço da comunidade científica, tanto na produção de tecnologias de controle quanto em resultados do uso dessas tecnologias”, comenta, no prefácio, o chefe-geral da Embrapa Milho e Sorgo, Antônio Álvaro Corsetti Purcino.

Assim, por que não usar, por exemplo, a luz solar para matar plantas daninhas? Basta utilizar coberturas plásticas sobre o solo que se quer cultivar, para que ele se aqueça mais do que o ambiente e extermine essas plantas. A efetividade do método, porém, depende de um clima quente, úmido e de intensa radiação solar com dias longos, advertem os pesquisadores. “É uma prática viável para pequenos cultivos ou cultivos protegidos”, ensinam.

Em vez do calor, pode-se também usar a água – no caso, inundação – para “afogar” plantas daninhas antes que elas nasçam, eliminando, assim, novamente, o uso de agrotóxicos e favorecendo a agricultura orgânica. “O controle por inundação impede que as raízes das plantas sensíveis tenham oxigênio para se desenvolver”, explicam.

Há vários outros métodos, que poderão ser aprendidos pelos produtores orgânicos nesta única e útil publicação. São 10 capítulos que ensinam a controlar as plantas daninhas – chamadas ruderais dentro do sistema agroecológico de cultivo, porque não podem sempre ser consideradas prejudiciais.

A obra traz a descrição de técnicas já testadas e disponíveis para uso e também de algumas em desenvolvimento, fundamentadas em princípios biológicos, mecânicos, de cobertura morta e de alelopatia. O uso de alelopatia, aliás, é bastante curioso: trata-se de utilizar plantas que “repelem”, com substâncias próprias secretadas no solo, outras que seriam danosas ao cultivo principal. Há, ainda, vegetais que se dão muito bem se plantados em conjunto, favorecendo um ao outro.

Não é uma cartilha: são 198 preciosas páginas que ensinam como não utilizar agrotóxicos contra o mato. Embora a Embrapa ressalte que se trata de uma publicação voltada para produtores agroecológicos, pode ser um início para grandes produtores de grãos, por exemplo, se voltarem a técnicas menos poluentes de solo e água. O glifosato, produzido pela Monsanto – agora Bayer –, por exemplo, é usado em praticamente todas as lavouras de soja do País, no sistema de rotação de culturas, para secar a palhada de milho que foi colhido na mesma área em que será semeada a soja.

Entretanto, plantas como a buva têm criado resistência ao herbicida glifosato, tornando-se um problema sério nos cultivos de soja transgênica. Outro ponto importante é a extrema dependência que a agricultura brasileira tem de um único herbicida. No ano passado, quando a Justiça brasileira tentou proibir o glifosato no País, às vésperas do plantio da safra 2018/19, foi um alvoroço entre os produtores e também provocou forte reação do então ministro da Agricultura Blairo Maggi. Ele foi enfático e pregou até desobediência civil para que os agricultores pudessem usar o glifosato.

Quem sabe o livro da Embrapa e várias outras pesquisas feitas por esta e outras instituições conduzam a agropecuária brasileira a métodos que possam eliminar o uso de agrotóxicos, também em plantios em grande escala.

Fonte:Estadão em 15-05-2019 por Tânia Rabello


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