Cultivo de soja orgânica

Tende a crescer em Brasília

Uma cultura que não polui o solo nem os mananciais hídricos, não contamina o produtor nem altera as características do produto. Esses são alguns dos benefícios da agricultura orgânica, cultivada sem a aplicação de insumos e agrotóxicos, utilizando o controle biológico – processo pelo qual as populações dos ecossistemas são reguladas devido à ação de seus inimigos naturais – para combater as pragas, lagartas e percevejos. O método propicia frutos e vegetais mais saudáveis e, a longo prazo, tende a estabilizar o controle dos insetos sem a necessidade de incluir agentes predadores nas plantações.

Brasília espelha o aumento da atividade, ainda incipiente, que pode se tornar uma opção rentável para os pequenos produtores agrícolas. Um dos grandes entraves para a comercialização de produtos orgânicos no Brasil é o preço, que, no caso da soja, chega a ser 35% mais alto que o grão comum. Esse aumento decorre do elevado custo da produção para a obtenção de produtos de melhor qualidade. Visando a aumentar essa produtividade no Distrito Federal, a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em parceria com a Emater/DF estabeleceu uma unidade de observação numa propriedade na região do Projeto de Assentamento Dirigido do DF (Pad/DF), a cerca de 70 km a sudeste de Brasília. Os técnicos vêem acompanhando e avaliando o comportamento das populações de insetos-pragas no cultivo dessa soja, estabelecendo metodologias de controle biológico que tenham boa eficiência e baixos custos. O plantio monitorado está na Fazenda Bionego, de 70 hectares, de propriedade de Arlindo Getúlio Bolfetto. Foram plantadas faixas de crotalária, cana de açúcar, árvores, milho e feijão intercalando com a cultura, que servirão de barreiras protetoras contra insetos e resíduos de agrotóxicos vindos das culturas vizinhas.

O aumento da diversidade local de espécies deve favorecer no futuro a ocorrência de espécies benéficas, fornecendo abrigo e recursos alimentares alternativos. Hoje, uma das grandes dificuldades enfrentadas por Bolfetto é a enorme quantidade de erva daninha entre a soja. O crescimento desordenado abafa a cultura, roubando nutrientes. A não aplicação de herbicidas exige a contratação de um maior número de pessoas para o trabalho de capina. Problemas de insetos a Embrapa soluciona por meio do controle biológico. Para eliminar lagartas, pulveriza-se um pó que contém o vírus Baculovirus anticarsia que, após ser ingerido, faz com que o inseto pare de se alimentar. O controle dos percevejos é feito por meio da liberação preventiva de vespinhas parasitas de ovos. Quanto à rentabilidade da cultura, ainda está em estudo. No mês que vem, será colhida a segunda safra, que deve ser vendida a US$ 250 a tonelada. A primeira, ocorrida nesse período do ano passado, foi comercializada pelo mesmo valor da soja convencional. Após a colheita, planta-se qualquer vegetação visando a cobertura do terreno, que ficará em recuperação até setembro, a partir daí começa o terceiro ano da cultura de soja . Após os três anos, espaço conhecido como período de quarentena, destinados à limpeza do solo, o preço da soja aumenta, informa Bolfetto. A partir daí, o produto será reconhecido e a área certificada pelo Instituto Biodinâmico (IBD).

Toda a plantação atual de Bolfetto está destinada à exportação para a França e Holanda, países que direcionarão parte do grão para o consumo humano e parte para a transformação em ração a ser adquirida por produtores de carne orgânica. Na Europa, mais de 80% do frango consumido é alimentado com soja orgânica. Bolfetto mostra-se confiante no crescimento dessa cultura no DF destacando que Brasília é privilegiada pelas suas extensas planícies e pelo período de chuva regular. Na sua opinião, futuramente, o Centro-Oeste deverá se transformar no principal pólo produtor de soja orgânica do mundo. O preço da soja orgânica é elevado e o mercado brasileiro restrito.
As aparentes desvantagens são compensadas pelos interessados no produto brasileiro – a Europa, principal consumidora do que é plantado aqui, e pelo valor que o grão é vendido, até 35% superior ao convencional, ou seja, US$ 14 por saca de 60kg, em contrapartida a US$ 9. Para que essa rentabilidade se torne real, o produtor deve esperar três anos, é o chamado período de quarentena, destinado à limpeza do solo. Até que isso ocorra, as primeiras safras serão vendidas a preço equiparado ou um pouco superior ao convencional.

Na fazenda de Arlindo Getúlio Bolfetto, no entorno de Brasília, onde esse estudo é desenvolvido pela Embrapa, a primeira colheita não cobriu os custos de produção, pois o preço de venda foi o mesmo da soja convencional: R$ 20 a saca, ou R$ 392 por hectare. Já a segunda safra deverá atingir um preço mais alto, aproximadamente 20% maior. Esse elevado índice do mercado orgânico não pode ser inferior, pois se considerado um ano com distribuição normal de chuvas, as despesas por hectare da soja orgânica, que corresponde a R$ 720 é superior as demais plantações desse produto, sendo que a convencional fica em torno de R$ 560. Esses gastos se concentram na mão-de-obra, necessária para manter a lavoura livre de ervas daninhas, no controle biológico (cada inseto requer um agente diferente de combate), além dos cuidados no transporte, que precisa ser específico para que não haja contaminação com resíduos tóxicos.

Fonte: Agência Brasil/DF em 9 May 2003 13:50:18 -0300

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