Orgânicos sem concorrência


O que os produtores brasileiros estão fazendo para abocanhar o mercado de R$ 2,5 bilhões

O município de Picada Café, a 80 quilômetros de Porto Alegre, faz parte da Rota Romântica da Serra Gaúcha. E faz justiça ao posto: as casas em estilo enxaimel, herdadas da colonização alemã, os moinhos movidos a roda d'água, os festivais de comidas típicas e as trilhas por vales de vegetação nativa são uma ode à natureza. Mas a cidade não é apenas um cantinho bucólico do País, guardado por seus cinco mil habitantes. Picada Café é a sede de um projeto bem sucedido de agricultura orgânica no País, liderado pela Cooperativa Vida Natural (Cooper-natural), no qual a inovação está na base do negócio.

A cooperativa de pequenos agricultores familiares, que nasceu nos anos 2000 e que até dois anos atrás possuía quatro agroindústrias para processar sucos, geleias, grãos e vinho, hoje possui cinco agroindústrias. A mais recente foi construída para processar a única cerveja orgânica nacional, sob a marca Stein Haus. “Vamos apostar nesse mercado porque é um ótimo nicho em expansão”, diz Ricardo Fritsch, presidente da Coopernatural. “Além disso, no Brasil somente nós fabricamos cerveja certificada como orgânica.”

No mercado nacional, assim como ocorre com a cerveja, os consumidores de orgânicos têm poucas opções de outras bebidas, entre elas o leite. As ofertas mais comuns são sucos e chás. No Nordeste, por exemplo, há apenas uma marca de leite, a da fazenda Timbaúba, do produtor Osmando Xavier, em Cacimbinhas, no interior de Alagoas. Xavier é um dos poucos produtores reconhecidos pelo Instituto Biodinâmico (IBD), organização que certifica produtos orgânicos, e é único do País que produz o leite embalado em UHT, o popular leite de caixinha. “Os produtos orgânicos ainda estão nascendo”, diz Xavier. “As marcas estão em formação, mas estamos no caminho certo porque esse é um mercado que só cresce.”

O produtor está certo.No ano passado, o mercado de orgânicos movimentou R$ 2,5 bilhões, com expectativa de R$ 3 bilhões neste ano, de acordo com a Organics Brasil, programa para a promoção de produtos orgânicos, uma iniciativa do Instituto de Promoção e Desenvolvimento (IPD) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Hoje, o Brasil ocupa a 10ª posição em área destinada a orgânicos, com cerca de 700 mil hectares e 13 mil produtores; a Austrália é a número um, com 12 milhões de hectares. “Nosso mercado é relativamente novo no mundo, mas tem muito potencial para crescer aqui e lá fora”, afirma Ming Liu, coordenador executivo do Organics Brasil. “Já construímos um mercado, hoje crescendo e com investimentos em alta.”

No caso da Coopernatural, a cooperativa criada por 11 produtores – hoje são 30 –, investiu R$ 800 mil desde 2014 para construir a cervejaria Stein Haus. A ideia surgiu para aproveitar a cevada que era destinada apenas à alimentação animal, cultivada em parte dos 320 hectares dos cooperados, nos quais também estão frutas e grãos. “Fechamos o projeto quando conseguimos enviar a cevada à maltaria do mestre cervejeiro Rodolfo Rebelo, em Blumenau, que se comprometeu a certificá-la”, diz Fritsch. Em junho deste ano, a cerveja foi lançada comercialmente em São Paulo, durante a Biofach América Latina, a maior feira de produtos orgânicos e naturais do País. Em julho, Fritsch esteve na Saintex, em Joanesburgo, a principal feira de alimentos da África do Sul, a convite da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla do inglês).

No ano que vem, já em fevereiro, ele estará na Biofach da Alemanha, para a mesma missão: apresentar aos maiores apreciadores mundiais de cerveja a orgânica Stein Haus. “Queremos o mercado nacional, mas importa também que o mundo aprecie e compre a nossa bebida”, diz Fritsch. A cooperativa, que deve faturar R$ 1,32 milhão neste ano, espera crescer no mesmo ritmo do mercado geral de orgânicos, em cerca de 30%.

A Coopernatural processa 2,5 mil litros mensais de quatro tipos de cerveja: pielsen, ipa, german pilsen e doppel weizenbier. São 3,3 mil garrafas de 750 mililitros da bebida que custa entre R$ 20 e R$ 30 cada. Mas, a cervejaria tem capacidade para 16 mil litros por dia e pode aumentar a produção em mil litros mensais, a cada 90 dias. “Apostamos que essa capacidade será utilizada em pouco tempo, basta que a gente mostre nosso produto”, afirma ele. Além do Sul, a Stein Haus é encontrada no Rio de Janeiro, em casas como a Gaia Arte & Café, no Leme, ou no armazém Vale dos Palmares. Em São Paulo, no Instituto Chão, a cerveja é vendida há quatro meses. “Sai muito rapidamente, justamente por ser orgânica”, diz Agatha Fernandes, uma das sócias. “Vendemos outras orgânicas, mas são do Canadá, as nacionais são apenas naturais, sem a certificação.”

Já o leite da Timbaúba pode ser encontrado na rede Pão de Açúcar do Rio de Janeiro e de São Paulo, além de casas de produtos finos na capital paulista, como Eataly e Santa Luzia. Em Maceió, Xavier mantém uma loja própria. O leite é produzido por um rebanho de 650 fêmeas da raça girolando, com 220 em lactação alimentadas exclusivamente com capins e palma forrageira. Da ordenha saem três mil litros por dia, dos quais dois mil Xavier consegue colocar no mercado como orgânico. O produtor não revela seu faturamento, mas dá para ter uma ideia do negócio. O custo de produção, sem contar o processamento no laticínio, é de R$ 1,50 por litro, com a venda ao consumidor por R$ 7,50. Apesar disso, o leite é um mercado ainda mais desafiador que outras bebidas, como a cerveja, os sucos e os chás. “O desafio do leite orgânico é ser reconhecido como um produto alimentar rotineiro e não apenas como uma indicação de nutrição”, afirma Xavier.

O produtor sabe do que está falando. Formado em agronomia na década de 1990 e amante das teorias de Ana Maria Primavesi, agrônoma austríaca radicada no Brasil e reconhecida mundialmente por suas teorias sobre ciências do solo, Xavier já havia tentado se estabelecer no mercado de orgânicos em 2004, juntamente com o irmão Eriberto. “Foi um fracasso, depois de investirmos R$ 400 mil na construção de um laticínio”, diz ele. “Produzíamos 1,5 mil litros diários, para um laticínio com capacidade de oito mil litros e não vendíamos nem 100 litros por dia.” Hoje, o laticínio que processa 11 mil litros com a marca Mainha está fora do mercado de orgânicos, comprando leite de terceiros, embora na fazenda os irmãos jamais abandonaram a produção orgânica.

A reentrada no mercado aconteceu em 2012, quando Xavier fechou uma parceria com o laticínio Murici, também em Alagoas, que conta com o Serviço de Inspeção Federal (SIF), abrindo a possibilidade de comércio para todo o País. Além da inspeção, o que seduziu Xavier na parceria foi a possibilidade de esterelizar o leite, sem investir R$ 5 milhões em equipamentos. “Agora, vendo cerca de 30% fresco, pasteurizado, e o resto em garrafa pet, com durabilidade de quatro meses”, diz o produtor. “Hoje quero mais e por isso já penso em aumentar o negócio.” Os próximos passos são lançar achocolatados orgânicos e abrir mais duas lojas próprias em Maceió.

A C&A, rede holandesa de vestuário, com 1,8 mil pontos de venda em 24 países da Europa, América Latina e Ásia, decidiu promover em suas unidades o uso de roupas de algodão proveniente de lavouras orgânicas. Para isso, está mudando o foco global de atuação do Instituto C&A, seu braço para ações socias, visando organizar uma rede de fornecedores da fibra. No Brasil, a entidade que atua há 25 anos na educação de crianças e jovens, agora vai para o campo. O projeto é ousado. Paulo Correa (foto), presidente da C&A, que fatura US$ 6 bilhões por ano no País, diz que até 2020 a ideia é vender apenas vestuário dessa fibra. “Há consumidor para o algodão orgânico e vamos atrás da produção”, diz Correa. O trabalho é um avanço em relação ao que a rede já pratica desde 2014, quando lançou uma linha de roupas com o selo Better Cotton Initiative (BCI), para certificar lavouras que utilizam manejo sustentável. Em 2015 foram vendidas 138 milhões de peças desse algodão, 15% dos produtos C&A. Mas, para o algodão orgânico, o trabalho terá que começar praticamente do zero. Embora o País cultive 1,7 milhão de toneladas de algodão em pluma e figure entre os cinco maiores produtores mundiais, a produção orgânica não chega a 30 toneladas anuais.

Fonte:Dinheiro Rural - Edição 140 por Vera Ondei em Setembro de 2016


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