Alimentos nem tão orgânicos!

Por Gert Roland Fischer *

Em São Paulo a Secretaria da Agricultura estadual através da CATI, há 3 ou 4 anos, havia lançado uma espécie de selo de qualidade para alguns produtos hortícolas produzidos com a assistência agronômica da extensão rural. Uma impactante ação de mídia fora lançada então, para impressionar eleitores e contribuintes quanto aos novos produtos "certificados" pela burocratia oficial. Com a chancela do CATI, esses alimentos com selos de qualidade, "garantiam" aos consumidores, produtos isentos de agrotóxicos e adubos químicos. Essa novidade que passou a existir nas feiras e nos CEASAS, atraiu muita gente ávida por esses alimentos sem contaminantes tóxicos. 

Para testar a eficiência desses novos produtos, o laboratório de análises de alimentos instalado no Instituto Biológico de São Paulo, em parceria com o GTZ - Deutsche Geselschaft für Technische Zusammenarbeit GmbH da Alemanha, através do projeto Terra Viva, passou a coletar esses alimentos em feiras e Ceasas. Passados alguns meses, foi feita a divulgação dos resultados obtidos. Comparados com os produtos produzidos normalmente com agroquímicos e não portadores dos selos de qualidade CATI, apresentaram resultados laboratoriais intrigantes. Os pesquisadores notaram não haver grandes diferenças entre os produtos ditos "orgânicos" e os convencionais. A presença anormal de resíduos tóxicos apareceram em todas as amostras analisadas. Muitas delas ultrapassando os índices estabelecidos pela OMS. Em algumas amostras portando "selo de qualidade" provenientes de culturas assistidas pela CATI, constataram-se contaminações superiores aos produtos convencionais.

Esse fracasso tem se repetido com freqüência não só em São Paulo, mas em outros países onde os produtos ditos orgânicos foram apresentados aos consumidores, sem os cuidados que esses produtos devem merecer.

Casos frustrados e mal projetados criam para os consumidores expectativas e tudo deve ser feito para que não se sentam traídos, tornando-os descrentes para com todos os produtos ditos orgânicos, mesmos os verdadeiros produzidos com muita emoção, religião e ética. Deve-se cercar os legítimos orgânicos com determinadas normas de certificação, feitas por empresas e profissionais reconhecidos amplamente como éticos e de grandes estoques de moralidade.

Acabamos de ver na Inglaterra uma feira internacional da madeira, onde os móveis e peças confeccionadas com florestas certificadas, passaram a ter a preferencia dos consumidores. Hoje só permanece no mercado, quem provar uma certificação idônea e acreditada por certificadoras competentes e honestas.

Os agricultores que desejarem realmente se firmar no mercado dos orgânicos devem procurar a certificação de seus produtos com profissionais e empresas que tem competência e tradição reconhecidas tanto por consumidores como por entidades do setor. Os supermercados devem realizar parcerias com auditores ambientais, para que atestem a qualidade e a procedência dos produtos vendidos como "LIMPOS".

Implicações jurídicas poderão advir, se consumidores alérgicos ou doentes se alimentarem com produtos que compraram como "SEM AGROTÓXICOS", e na realidade não o são. A indução de consumo de um produto com falsidade ideológica e marketing enganoso, são crimes previstos no Código do Consumidor. Sérios aborrecimentos advirão aos vendedores desses alimentos pela ingestão de um produto anunciado e quando consumido agirá no sistema intestinal da vítima ao contrário do esperado. 

Não se muda a mentalidade de profissionais da extensão rural em questão de meses. Depois de mais de 50 anos de revolução verde, com a consolidação dos espaços do poder e das benesses com ganhos paralelos, não se pode esperar radicais melhoras na produção de alimentos sem agroquímicos.

No atual estágio, também não se pode acreditar que toda rotulagem de "orgânica", "limpa", ou "sem agrotóxicos" a produção de alimentos seja honesta e ética.

Por outro lado, a desintoxicação de propriedades rurais que há 40 anos vem recebendo toda sorte de venenos e produtos altamente perigosos contaminando solos e águas, não se dá em menos de 3 ou mais anos. Nestes casos a vara de condão não funciona. Serão necessários anos para transformar um solo morto pelos agroquímicos, em um solo orgânico onde seres vivos realizam parcerias e interações associativas com os vegetais. 

A ação de duas frentes de gestão devem ser exercitadas nas propriedades que desejam se desintoxicar para viabilizar uma produção de alimentos sem venenos:

Implantar a gestão ambiental atendendo as normas internacionais ISO 14.000; e Certificar determinadas culturas através de certificadoras como o faz o Instituto Biodinâmico de Botucatú no Estado de São Paulo, cuja competência é reconhecida por inúmeros países da Comunidade Européia.

Como certificar um produto que poderá estar sendo produzido em uma propriedade que não pratica a gestão ambiental tanto horizontal, quanto verticalmente?

Organismos oficiais também não são os mais indicados para realizarem a certificação, pois com a mudança política dos "chefes" os conceitos de qualidade poderão mudar de filiado para filiado político, principalmente nos anos em que ocorrem os embates eleitorais.

A desintoxicação de propriedades onde a Revolução Verde se implantou a partir da década de sessenta, não é uma prática simples e de conhecimento dos tecnicos brasileiros do sistema oficial. Na Europa onde os agricultores são regiamente subsidiados, os governos da Dinamarca, Holanda, França, Inglaterra, Alemanha entre outros, gastam a fundo perdido, em média/ano/hectare e durante 5 anos, o equivalente a R$ 1.000,00. Esses programas de "limpeza" dos solos incorporam milhares de propriedades nos sistema e gestão ambiental, através de controles de técnicos pagos e exigidos pelos consumidores e pelas redes de supermercados.

No Brasil, onde não há qualquer tipo de subsídios para o setor rural, programas de desintoxicação de solos e de recursos hídricos ainda serão peças de ficção por algum tempo.

Há esforços dignificantes de alguns setores nacionais que estão possibilitando a formação de produtores orgânicos, como é o caso do café, algodão e do arroz, cujos bem informados compradores localizados no Japão, Alemanha, Inglaterra, entre outros, têm se deslocado para o Brasil, para comprovarem pessoalmente os sistemas produtivos sem o uso de agroquímicos. Esses produtos geralmente tem cotação superior a 20% sobre os convencionais, contaminados com venenos e tóxicos.

* Gert Roland Fischer é autor do livro MENOS VENENO DO PRATO - quinhentas técnicas de se plantar sem venenos - Projeto de implantação de produtos orgânicos com SELO VERDE nos supermercados Sta. Mônica e Angeloni em Joinville-SC. email: [email protected]


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