Mercado de orgânicos se amplia com industrialização

Há cinco anos, os preços dos orgânicos eram 70% superiores aos convencionais. Hoje, o valor é apenas 30% maior

As tradicionais hortaliças e leguminosas não são mais as protagonistas do mercado brasileiro de orgânicos. Além de uma crescente variedade de produtos nas prateleiras, como bolachas, sucos, pães, carnes e até mesmo cosméticos, a produção orgânica está, por meio da modernização industrial e de investimentos em tecnologia e pesquisa, deixando de ser apenas um movimento para entrar de vez no mundo do agronegócio.

Embora o Brasil seja o mercado de fertilizantes que mais cresce no mundo, o cenário dos orgânicos está mudando para melhor. De acordo com a Associação Brasileira de Orgânicos (Brasilbio), há cinco anos, os preços dos orgânicos eram, em média, 70% superiores aos convencionais. Hoje, o valor é apenas 30% maior. “O mercado está com um crescimento anual que varia entre 20% e 30%, o que é bastante promissor”, informa Sandra Caires Sabóia, gerente comercial de Alimentos Orgânicos do grupo Pão de Açúcar.

Nas lojas dessa rede de supermercados, os hortifrútis estão no topo dos alimentos orgânicos mais procurados pelo consumidor, seguidos pelos setores de mercearia e carnes. Segundo dados do Pão de Açúcar, azeite, arroz, açúcar e palmito orgânicos também estão entre os produtos campeões de venda.

Para uma parcela da população, entretanto, a falta de informações e os preços ainda elevados em relação aos produtos convencionais são empecilhos para aumentar o consumo de orgânicos. A isso, pode-se somar a falta de apoio e incentivos ao produtor por parte do governo e da legislação vigente, que não estimula o crescimento da produção brasileira. Mas no exterior, principalmente na Europa, o cenário é bem diferente.

O mercado internacional está muito à frente do brasileiro tanto no quesito produção como no consumo de alimentos orgânicos. “São produtos que oferecem uma alternativa que traga benefícios não só para o nosso corpo, mas também para o meio ambiente”, afirma Angelika Avril, publicitária de 55 anos que mora em Nuremberg, sul da Alemanha. “Não penso duas vezes antes de comprar um produto bio. O preço maior se converte em mais nutrientes e sabor”.

“Diferentemente do que acontece por aqui, os governos europeus incentivam os produtores a trabalhar com orgânicos”, afirma Sandra, do Pão de Açúcar. “A produção brasileira ainda é muito pequena, e é muito caro abrir o negócio. O governo precisa investir mais nos produtores rurais, por meio de uma legislação favorável e medidas de incentivo que impulsionem a nossa produção”.

A estratégia da rede foi proporcionar alternativas para a alimentação habitual de seus clientes

A estratégia da rede de supermercados, que há 18 anos trabalha com orgânicos, foi proporcionar alternativas para a alimentação habitual de seus clientes. “Muita gente tinha vontade de consumir produtos orgânicos, mas não encontrava alimentos básicos do cotidiano, como arroz, feijão e carne”.

Mas criar uma cultura de consumo de produtos naturais e orgânicos não pode ser construída de um dia para outro. “É preciso ir com calma, até mesmo porque não temos como abastecer um grande mercado”, ressalta a gerente da rede que é a maior do setor em comercialização de produtos sem agrotóxicos. Além da marca Taeq, o Pão de Açúcar revende produtos orgânicos de outras marcas, como a Econatura, de Luiz Postinguer e Telvi Piccini, de Garibaldi, no Rio Grande do Sul.

Postinguer, cuja família sempre cultivou parreiras, já se preocupava com a relação do homem com agrotóxicos quando lecionava biologia. Na década de 1980, as terras de seu sogro e cunhado tiveram o incentivo de uma multinacional para a produção das uvas. Pouco tempo depois, a empresa foi vendida e os insumos pararam de chegar. Para não quebrar, os familiares de Luiz adotaram a redução total de gastos, tornando a produção o mais simples possível. Foram cortados agrotóxicos e fertilizantes, e até mesmo a mão de obra diminuiu. Contudo, a produção continuou firme e forte. Foi aí que Luiz percebeu que um processo agrícola natural, sem adição de produtos químicos, também era viável.

As famílias de Luiz e Telvi passaram então a produzir suco de uva para seus filhos e sobrinhos. O sabor concentrado e fresquinho foi conquistando a vizinhança, amigos e o mercado local de Garibaldi. Em 1995, os sócios começaram com um equipamento mais simples que, por meio da evaporação, conseguia extrair o sumo de 12 quilos da fruta por vez. Hoje, a Econatura dispõe de modernos equipamentos que conciliam qualidade e quantidade. Só no primeiro semestre de 2011, a empresa processou 500 toneladas de uvas.

“O consumidor de orgânico é um público bastante esclarecido, preocupado com sua saúde e com o que está ingerindo”, acredita Luiz. Além dos benefícios à saúde, o produtor enxerga outras vantagens na escolha por orgânicos, como a melhoria das condições de trabalho dos produtores rurais, que não precisam mais entrar em contato com “veneno”. Na empresa familiar de Luiz, trabalham 14 pessoas diretamente, na parte de administração e rotulagem-que é feita a mão, além de 15 safristas e mais 40 famílias de trabalhadores rurais. Todos com carteira assinada.

O suco “Uva’Só”, principal produto da marca, é embalados a vácuo, garantindo uma longa validade. Cada lote é engarrafado até um dia após a colheita da uva. Cada garrafa, que custa em média R$ 15, contém cerca de 20 cachos da fruta, que pode ser do tipo bordô, concord ou isabel.
Totalmente integral, o suco não contém adição de açúcar ou água. Além disso, não há qualquer adição de conservantes, nem mesmo daqueles permitidos para produtos orgânicos. Na 7ª Feira Internacional de Produtos Orgânicos e Agroecologia, a BioBrazil Fair, realizada em julho em São Paulo, a Econatura trouxe o primeiro vinagre orgânico do país.

Quando perguntado se o trabalho é lucrativo, o produtor gaúcho torna-se porta-voz da grande maioria dos produtores: “É um mercado de bastante investimento. Principalmente no que diz respeito à informação e esclarecimento do consumidor sobre o que é e como funciona o produto orgânico”.

Fonte: Revista Globo Rural em 9/11/2011 por Nathalia Prates

Leia Mais:

Mais notícias   Associe-se