Orgânicos avançam de cultura de bicho-grilo a potencial exportador

Agência Estado

Orgânicos avançam de cultura de bicho-grilo a potencial exportador

Por Rejane Lima

São Paulo (AE) - No começo, nos idos de 1950, eram tratados como agricultura alternativa e tidos como coisa de bicho-grilo. De lá para cá, houve avanço em todos os sentidos. Os agora conhecidos alimentos orgânicos - que vêm ganhando preferência entre consumidores, além de se tornarem opção de celebridades - extrapolam a idéia primitiva de uma produção sem agrotóxico. A nova concepção se estende a cooperativismo e preservação do meio ambiente, mantendo a proposta de vida saudável.

De acordo com o professor Paulo César Stringheta, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, e autor do livro "Alimentos Orgânicos, Produção, Tecnologia e Certificação", os alimentos orgânicos foram uma conseqüência da chamada Revolução Verde, que a partir da década de 50 respondeu por um extraordinário aumento na produção de alimentos.

Preocupado com o crescimento populacional superior ao da produção de alimentos, o idealizador Norman E. Borlaug - que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1970 - pregava o fim da fome no mundo através da cultura em larga escala. A Revolução Verde trouxe as monoculturas dependentes de fertilizantes e pesticidas. Os insumos, entretanto, têm alto custo e potencial de poluição ambiental.

Segundo Stringheta, apesar da tecnologia, um grupo de pessoas manteve o estilo agrícola mais tarde batizado de agroecológico. "Esses primeiros agricultores eram aquelas pessoas com sandália de dedo, mãos sujas, despenteadas e, por isso, estereotipadas de bicho-grilo, mas as coisas mudaram." Atualmente, a agricultura orgânica certificada gera negócios, renda e defende sustentabilidade econômica e social. "O objetivo é melhorar a qualidade de vida das comunidades, evitar êxodo rural e cuidar da saúde de consumidores e trabalhadores rurais," destaca o agrônomo.

O professor sustenta que é alto o índice de intoxicação dos agricultores que lidam diariamente com plantações convencionais. "Essas pessoas desenvolvem problemas no fígado, resíduos tóxicos no sangue e envelhecimento precoce." Como argumento, ele cita o município de Guidoval, na zona da mata mineira e a 182 quilômetros de Belo Horizonte. Segundo ele, nessa cidade, o Ministério da Saúde constatou problemas de intoxicação em 90% dos trabalhadores do campo.

PIONEIRISMO - A associação Yamaguishi é uma das pioneiras na produção de alimentos orgânicos no Brasil, embora oficialmente tenha sido fundada em 1986, em Jaguariúna, a 113 quilômetros de São Paulo. A idéia do Movimento Yamaguishi, contudo, é mais antiga: foi lançada no Japão em 1953 e gerou suas primeiras sementes no interior paulista no final da década de 70. "Eu trabalho com agricultura orgânica desde 1978, quando ainda era chamada de alternativa", rememora o presidente da associação, Romeu Mattos Leite.

Hoje com 28 sócios e sete funcionários, a cooperativa vem acompanhado o setor no mercado nacional, que evoluiu com mais regularidade a partir de 1992. "Após a realização da Eco 92, no Rio, houve maior conscientização dos consumidores, que passaram a buscar mais esses produtos sem agrotóxicos", relata. Leite informa que entre 2000 e 2004 a expansão chegou a 20%. "Continuamos crescendo, mas num ritmo um pouco menor." Atualmente, a colônia Yamaguishi produz cerca de 12 toneladas por mês de 70 tipos de alimentos orgânicos. A distribuição é feita por supermercados credenciados e feiras-livres na capital paulista e região de Campinas (a 90 quilômetros de São Paulo) ou diretamente ao consumidor, com entregas em domicílio.

De acordo com o dirigente, a associação tem como meta diversificar e ampliar a produção mediante aumento no número de sócios. "Estamos trabalhando na conversão de produtores convencionais em orgânicos para que, com maior variedade, possamos buscar a fidelização de nossos clientes". E a tarefa está se tornando mais fácil. "Na agricultura tradicional, o solo se desgasta com o tempo e a produtividade cai. Como o mesmo não acontece na agricultura orgânica, os produtores estão comprando a nossa idéia."

ALÉM DAS FRONTEIRAS - Ampliar horizontes não se restringe à colônia Yamaguishi e tem proporção nacional. É o que prova o projeto Orgânico Brasil. Começou chamado de Orgânico Paraná e pretendia reunir o segmento no Estado, reconhecê-lo sob o selo Organics Brazil e buscar acordos de exportação em feiras internacionais, explica o coordenador Ming Liu e consultor da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). "Mas a Agência de Promoção de Exportações e Investimento (Apex-Brasil) se interessou e o projeto se tornou nacional."

Coordenado pela Apex em parceria com o Instituto Paraná Desenvolvimento e Fiep, o Orgânico Brasil começa a colher frutos, depois da participação em duas feiras internacionais de orgânicos em setembro, a Biofach Tóquio e a Biofach Washington. Quinze empresários fecharam contratos de exportação no valor de US$ 1,1 milhão.

Ming Liu admite que ainda não há dados seguros para comprovar a evolução da receita criada pelos alimentos orgânicos no País, mas garante que os negócios estão em expansão. "Apenas no Paraná as empresas parceiras devem exportar R$ 6 milhões este ano e a previsão para 2006 é de, no mínimo, R$ 10 milhões." Conforme o coordenador, o Orgânico Brasil também orienta seus integrantes a obter certificações internacionais dos produtos. "Nos Estados Unidos, é necessária a licença do USDA (sigla em inglês para o Departamento de Agricultura dos EUA) e no Japão é requerido o JAS (Japan Agriculture Standard)", esclarece Liu.

CERTIFICADORAS - No Brasil, não há um órgão centralizado para classificar um alimento como orgânico, mas várias certificadoras credenciadas junto ao Ministério da Agricultura. Embora o ministério disponha na Instrução Normativa nº 7, de 17 de maio de 1999, sobre as normas para os certificados, ainda falta a regulamentação. A lei que dá poder às certificadoras, a 10.831 de 23 de dezembro de 2003, por sua vez, deve entrar em consulta pública apenas no início de 2006, de acordo com Cristina Ribeiro, presidente da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro. A Abio foi criada em 1985 é uma da mais antigas certificadoras do País.

Cristina, que é cientista social e uma das sócias-fundadoras, afirma que a entidade está envolvida com a regulamentação das certificadoras desde 1994 e que pouca coisa deve mudar quando a lei entrar em vigor. "A minha impressão é que a maioria das certificadoras atua dentro de um padrão desde a instrução normativa."

Sediada em Niterói (RJ), a Abio conta hoje com 180 unidades produtivas certificadas mas, segundo Cristina, deve chegar a 200 até o final do ano. "Somos organizados em núcleos por disposição geográfica e realizamos visitas de assistência técnica para avaliarmos a produção de alimentos no mínimo semestralmente."

SERVIÇO: "Alimentos Orgânicos, Produção, Tecnologia e Certificação", de Paulo César Stringheta, Editora UFV, 2003, 452 páginas.

Fonte:Agência Estado em 01/12/2005

 


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