14-11-2005
ORGÂNICOS COM GRIFE - EMBORA CAROS, OS PRODUTOS TÊM MAIS QUALIDADE

 

Há 18 anos, pelo menos três vezes por semana, a carioca Grazzia Cavalcante cumpre o que ela própria define como ''um ritual de saúde e prazer''. Por volta das 13 h, ela deixa a clínica médica, onde trabalha em Ipanema, e anda algumas quadras para almoçar no Fontes, restaurante especializado em alimentação natural.

-Sinto-me leve e bem-disposta. Como orgânicos pelo bem-estar e prazer que proporcionam, não porque estão na moda - garante.

Grazzia é uma dos muitos brasileiros que já descobriram as vantagens do consumo diário de alimentos orgânicos. Num movimento contínuo, iniciado há três décadas - no auge das filosofias que pregavam o retorno ao contato com a terra - chegamos, segundo levantamentos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES), aos atuais 270 mil hectares de áreas sob manejo orgânico, o que representa um total de mais de 7 mil produtores de orgânicos.

Números que devem crescer como espera a empresária Maria Beatriz Costa, do Planeta Orgânico, que organiza de quarta a sexta-feiras próximas, no Riocentro, a Biofach América Latina. O evento reunirá expositores de 12 países e tem uma expectativa de volume de negócios de R$ 40 milhões. Ela aposta no projeto de lei da rotulagem dos orgânicos já avalizado pelo Ministério da Agricultura como um divisor de águas.

- Com a lei aprovada, o mercado será mensurado e a demanda de uma parcela significativa da sociedade brasileira já antenada com a preservação ambiental, sustentabilidade e qualidade de vida atendida - avalia.

Antenada há mais de uma década está a família Pitanga que toca o Fontes, endereço preferido de 10 entre 10 adeptos de uma alimentação de qualidade. Raul, a mulher Maria Luiza e os filhos Flávio e Renato são do tipo low profile e transformaram em negócio uma filosofia de vida. Numa movimentada galeria, eles montaram o restaurante com mesas coletivas e cardápio impecável.

-Acreditamos firmemente que está nascendo uma nova consciência. Quem adota orgânicos, respeita a si mesmo - assinala Maria Luiza Pitanga.

Não muito longe dali, no Leblon, Rosa Herz, proprietária do Celeiro, é outra pioneira. Há 8 anos, em suas renomadas saladas só entram folhas orgânicas certificadas vindas da região serrana fluminense ou sul de Minas.

- O grande obstáculo para popularização dos orgânicos ainda é o preço. É preciso capacitar produtores para uma economia de escala. Assim a oferta vai aumentar, os preços ficarão competitivos e mais gente consumirá - analisa.

Dona Rosa tem toda razão: o custo ainda é o grande nó da cadeia produtiva dos orgânicos. Além da ausência de agrotóxicos, a produção respeita a sazonalidade das culturas, as plantações são irrigadas com água de nascente e todos os insumos são certificados. Tudo isso é obviamente repassado ao preço final. Enquanto um pé de alface comum custa R$ 0,60, o orgânico pode chegar a R$ 2. O mesmo vale para os iogurtes: o litro mais caro do comum sai a R$ 4,90 contra R$ 6,70 do orgânico.

Se à mesa cotidiana dos cidadãos comuns, os orgânicos ainda são luxo reservado às ocasiões festivas, nos cardápios dos restaurantes estrelados eles já conquistaram lugar cativo. Os chefs de cuisine mais famosos não abrem mão deles. Flávia Quaresma, dona do Carême, só usa hortaliças, ervas e legumes orgânicos nas receitas que cria. Os mini-legumes - alho poró, cenoura, nabo - e os temperos como o funcho são considerados por ela autênticos mimos, que antes de satisfazarem o estômago enchem os olhos. Os leites e cremes orgânicos entram nas formulações das sobremesa quinzenalmente. Mas a chefquer aumentar a participação dos orgânicos - hoje são 50%- no total dos ingredientes utilizados. Fornecedores de diferentes tipos de carnes orgânicas do Espírito Santo já foram contactados.

- Para quem trabalha com gastronomia, os orgânicos são uma ótima opção pois oferecemos prazer ao cliente e contribuímos para conectá-lo com uma maneira mais saudável e consciente de viver - assinala Quaresma.

O italiano Francesco Carli, chef do Cipriani, restaurante cinco estrelas do Copacabana Palace, partilha do mesmo entusiasmo em relação aos orgânicos. Há sete anos no posto, Carli não duvida da qualidade e sabor superiores dos orgânicos. No restaurante, usa todas as alfaces - lollo, frisé, americana e valeriana - , rúculas e mini-legumes orgânicos. São , pelo menos dez pés de cada tipo de folhas e duas caixas de ervas a cada dois dias. Também adotou o açúcar orgânico nas sobremesas.

- Esses produtos são um passo para um futuro com mais qualidade e saúde. A vida das grandes cidades já tem tantos venenos - filosofa o chef, que só teve uma decepção com o tipo de alimento que tanto elogia. O camarão orgânico, o único que não passou pelo crivo apuradíssimo do chef, foi banido do cardápio. E por quê?

- Era tão sem gosto e feioso que parecia de plástico - informa, com uma gargalhada.

Aimée Louchard

Fonte: Jornal do Brasil

+++++++++++++++++++++

 

 

Mais notícias   Associe-se