Farinha de Caju

 


A humanidade, num desses belos dias que se perderam no tempo, inventou a farinha e viu que era boa. Sucesso absoluto, esse bem incorporou-se ao patrimônio humano em todos os quadrantes da Terra. No entanto, a rigor, não existe farinha mais universal do que a de trigo, usada até pelos povos não-produtores dessa gramínea nobre ou que a produzem em quantidade insuficiente para o consumo interno, obrigando-os a recorrer à importação. No Brasil, é uma "commodity" importada que faz parte da cesta básica. Não há mais como abolir hábitos alimentares relacionados com bolachas, tortas, sanduíches, hambúrgueres, cachorros-quentes, biscoitos, pães (neste caso o consumo brasileiro é da ordem de 750 mil toneladas/ano), pudins, roscas, bolos, salgadinhos, massas e inúmeros pratos salgados e doces que incluem a farinha de trigo como ingrediente. Em outras palavras, presença assegurada no café da manhã, na merenda, no almoço, no jantar e nos eventos em geral onde são servidos comes e bebes. Ao lado disso, é usada como componente de compostos para controle de pragas como ácaros e lagartas. Existem até brincadeiras infantis que fazem uso dela. Isso tudo, para não falarmos da sublimidade da sua inserção na religiosidade mosaico-cristã.

A despeito da existência de outras farinhas de cereais, sementes, raízes, frutas e até de origem animal (senão como a vaca teria ficado louca ou as minhocas seriam consideradas como poderoso anabolizante?), aparentemente a pesquisa não tem apresentado mais alternativas de farináceos, talvez pela sua importância econômica secundária, em comparação com a do trigo. A presença desse grão é muito forte e inibidora. É impressionante o poder do trigo (segunda cultura mundial de grãos, suplantada apenas pela do milho, tendo na China seu maior produtor, conforme dados da safra 1999/2000, estimados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos-USDA), sustentador de um parque industrial diversificado e gerador de cadeias produtivas com milhões de postos de trabalho, no mundo inteiro. A gestão de um produto com tais características representa um risco tão significativo quanto a do petróleo, embora seja aparentemente difícil pensar no assunto nestes termos (é mais suportável conviver com um ser humano sem comida do que com um automóvel sem gasolina. A fome dos motores tem prioridade). O que não deixa de ser uma questão cultural importante. Aqui e acolá nossa estrutura mental sofre algum tipo de alheamento, dispensando-nos de fazer ligação de coisa com coisa. Pode até ser que (pensando apenas no caso dos pães) a quantidade de padarias existentes no mundo seja superior à quantidade de postos de gasolina.

Mas não é disso que trataremos aqui, nem mesmo das outras farinhas e muito menos da farinha de trigo ou da gasolina.

Estamos interessados, apenas, em fazer uma indagação. Sabendo-se que é possível fazer farinha de caju, por que a pesquisa da Embrapa Agroindústria de Alimentos (Rio de Janeiro) não teve nenhuma repercussão nos Estados nordestinos produtores de caju? Mais especificamente, o bagaço do pseudofruto (haste) do cajueiro pode ser considerado como matéria-prima farinácea. A farinha de caju, reconhecem os pesquisadores, apresenta vantagens em relação a seus similares. "Seu teor de minerais - principalmente fósforo, cálcio, ferro e potássio - é superior ao das farinhas de outros cereais", atesta o engenheiro de alimentos José Luis Ascheri, que comandou a equipe dessa pesquisa.

Não é difícil perceber a relevância dessa auspiciosa descoberta. Além do enriquecimento do vocabulário (bem melhor do que o do urânio), teríamos, possivelmente, enormes vantagens competitivas, a começar pela disponibilidade de mais um componente para a segurança alimentar, obtido de vegetal nativo.

A matéria-prima (bagaço resultante da utilização do caju para produção de castanha e de sucos), abundante, é totalmente desperdiçada. Uma iniquidade, gastar recursos para produção de alimentos sem que eles possam alcançar a mesa do ser humano.

Juntamos à inicial, as seguintes indagações: teria a farinha de caju teor medicinal? A utilização dela daria aos produtos um sabor ainda melhor? Poderia ser produzida domesticamente ou só no plano industrial? Que tipo de equipamentos exigiria? O seu preço seria competitivo? Seria um fator de alavancamento de determinadas regiões do país? Quantos empregos geraria? Tornar-se-ía componente essencial para a discussão da oferta de alimentos? Teria a sua produção algum impacto na balança de pagamentos, com a possível redução das importações de trigo?

Ao lado disso, quem sabe, com a farinha de caju também alcançaríamos o mercado externo, como o europeu, que até hoje nunca consumiu a farinha, nativa e de origem indígena, mais utilizada no Brasil (que é a de mandioca). Nem Portugal, com uma cozinha tão próxima à brasileira, consome farinha de mandioca.

De repente, não mais que de repente, também poderia até surgir uma canção reunindo a beleza de Cajuína (de Caetano Veloso) e de Farinhada (de Zé Dantas), para dar conta das farinhadas de caju.

Agora, uma questão final para fins de investigação: quais frutas, cereais, sementes, raízes e animais apresentam potencial ainda não explorado para obtenção de farinha?

Com a palavra quem dela fazer uso queira. Trata-se de um tema de especial interesse para o povo do Piauí, por não ser essa uma farinha do mesmo saco. "Vender farinha", enfim, poderá deixar de ser apenas um atentado à etiqueta para tornar-se um negócio e tanto. (Erasmo Celestino. Núcleo de Estudos do Piauí do Instituto Dom Barreto)


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