Sistemas agroflorestais: o caminho para uma vida mais sustentável no sertão

 

OAS PRÁTICAS//Casal retorna ao campo para matar saudades e sobreviver com dignidade

Por Marta Moraes – Editor Marco Moreira

Na canção Asa Branca, Luiz Gonzaga cantarolou os versos “Hoje longe, muitas léguas. Numa triste solidão. Espero a chuva cair de novo. Pra mim ‘vortar’ pro meu sertão”. Conterrânea do rei do baião, a agricultora Maria Silvanete Benedito de Souza, 40 anos, casada, quatro filhos, não esperou a chuva cair de novo para voltar para o sertão, em Serra dos Paus Doias, em Exu (PE).

“Fiquei 16 anos morando em várias cidades. Mas há oito anos compramos um pedaço de terra e retornamos. E não saio mais de jeito algum. Fui abençoada em me casar com uma pessoa, também filho de agricultores, que tinha essa mesma vontade, o mesmo sonho de voltar”, afirma.
Silvanete e a família:de volta para casa

Segundo ela, o vínculo com a terra eles nunca perderam. “A vontade de voltar para terra nunca me faltou”, afirma. “E meus filhos tinham essa mesma vontade de voltar para o campo, o que me estimulou”.

Silvanete e o marido, Valmir Erlem, voltaram mais fortes, mais preparados, e se juntaram ao trabalho da Associação dos Agricultores Familiares da Serra dos Paus Doias (Agrodoia), criada há dez anos, no município de mesmo nome, e que reúne 22 famílias. Hoje presidente da associação, ela destaca o trabalho agroflorestal (exploração agrícola sustentável) desenvolvido pelos associados da Agrodoia, na Chapada do Araripe.

APOIO

A associação possui uma produção mista: doces, geleias, farinha, goma, sequilhos, biscoitos, mel, extratos de plantas, licor, queijo, manteiga, entre outros produtos. A Agrodoia vai inaugurar em dezembro sua primeira unidade de beneficiamento, que contou com o apoio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), por meio da Fundação Araripe.

Está sendo construído um galpão de aproximadamente 300 metros quadrados, com espaços para a fabricação de doces, geléias, licor; parte administrativa; comercialização comunitária e capacitações. Atualmente, a associação está trabalhando na extração do óleo essencial a partir das folhas da Caatinga, trabalho que será conduzido por um jovem da comunidade. “É mais interessante perceber a importância que a Caatinga tem em pé. Ela dá muito mais retorno assim do que se você usar o machado e a foice”, afirmou.

Os Sistemas Agroflorestais (SAF’s) permitem aos produtores familiares diversificarem a produção e recuperarem áreas degradadas. “Nada mais é do que voltar às nossas raízes, nossa verdadeira história. Nossa prática no dia a dia é plantar sem queimar, fazer um manejo mais sustentável do solo, é plantar com mais respeito à condução da própria natureza. É cuidar melhor da terra e enxergar que somos um só: terra e homem”, enfatizou.

CAMINHO SUSTENTÁVEL

Para o diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, Francisco Campello, os sistemas agroflorestais representam um caminho adequado na busca de uma relação entre homens, mulheres e meio ambiente mais equilibrada e socialmente mais justa. “É uma das alternativas para um novo padrão de desenvolvimento sustentável”, destacou.

Durante o tempo que esteve morando em cidades, o casal procurou estudar e conhecer tecnologias sociais e experiências que pudessem auxiliar agricultores familiares na vida no campo. “Aproveitamos cada oportunidade de capacitação, de crescimento. Voltamos com um embasamento enriquecido de que a agroecologia seria o caminho, antes trabalhávamos de forma tradicional. Voltamos com um novo olhar, mais seguro, para a nossa terra e para os desafios”, conta Silvanete.

O casal produz milho, feijão, fava, manga para alimentação da família e sementes crioulas de milho para comercialização e multiplicação. A família possui três cisternas e fogão ecológico, entre outras tecnologias sociais que vêm colaborando para mudar a vida da população no sertão.

CADASTRO

A propriedade do casal possui o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e Ivanete defende que o documento é uma ponte para uma convivência mais tranqüila com a terra e até com os vizinhos. “O CAR mostra o que pode ser feito, traz um retrato da sua terra, é útil para a obtenção de crédito, para o monitoramento da área, vem para nos ajudar em relação ao trabalho que muitas vezes desenvolvemos em parceria com vizinhos, como no caso dos corredores ecológicos”, destacou.

O casal recebe, com frequência em sua propriedade, visitas de participantes de cursos de fundações e associações da região. A intenção é mostrar diversidade de práticas agroecológicas e de tecnologias de convivência com o semiárido, que possibilitam geração de renda ao mesmo tempo em que se preserva a Caatinga.

O intercâmbio acaba servindo de estímulo para os grupos que beneficiam frutas do bioma e os transformam em doces, geleias, polpas, licores, agregando valor aos produtos, estimulando a conservação das mesmas e gerando oportunidade de trabalho para as famílias, em especial aos jovens.

Assessoria de Comunicação Social (Ascom/MMA)


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