Um exército de alimentos orgânicos começa a crescer na China


A China tem o maior sistema agrícola e produz 20% de todo o suprimento alimentar do mundo, embora possua apenas 10% de terras cultiváveis. No ano passado, o país foi classificado como um dos que mais violam a segurança alimentar.  E a empresa que fez este estudo – a norte-americana Food Sentry -  registrou que o problema maior do país, nesse setor, é o uso abusivo de pesticidas. Há 32 espécies distintas de pesticidas na China, usados principalmente em frutas e especiarias. E, como já é sabido por muitos, o uso desses produtos causa desde dores de cabeça e náuseas a câncer e problemas de pele nos humanos.

As informações acima eu colhi de uma reportagem publicada na edição impressa da revista “Resurgence & Ecologist” que recebo bimensalmente (leia aqui a edição online) . A jornalista Katrina Yu fez ainda uma entrevista com Wang Jim, do Greenpeace da Ásia Ocidental, que contou que os pesticidas estão poluindo, hoje, cerca de 6 milhões de hectares chineses, terras aráveis, além de estarem também em algumas águas e no ar. Se, durante a Revolução Cultural nos anos 60, a China se viu às voltas com falta de alimentos, o que causou fome e mortes, hoje a preocupação é com os danos ambientais e com a segurança alimentar.

“Será um desastre se a China não promover uma mudança. Deve haver um meio de fazer um investimento público de maneira inteligente, que considere a sustentabilidade”, disse Wang.

Essas são as notícias ruins. Mas a reportagem começa contando uma história bem interessante, sobre o aumento, na China, de produtores agrícolas que não usam qualquer tipo de defensivo nas suas colheitas.  Chama-se Community-Supported  Agriculture (CSA) (Agricultura Apoiada pela Comunidade, em tradução livre) e tem como prioridade o risco compartilhado e uma estrutura baseada em assinaturas, o que ajuda a proteger os produtores financeiramente porque faz ligação direta entre eles e os consumidores. É mais caro, como toda a produção orgânica, mas a crença é de que se houver escala, os preços cairão. Lá, como aqui.

Na entrada da fazenda Shared Harvest (Colheita Compartilhada, em tradução literal), que fica a cerca de 70 quilômetros de Pequim, visitada pela equipe de reportagem da “Resurgence & Ecologist”,  duas perguntas, pintadas na parede, já conseguem dar aos convidados a percepção do trabalho que é feito ali, além de dar conteúdo bastante para um bom tempo de reflexão:

“Quem é seu produtor? De onde vem a comida que você come?”

O fato é que, na maioria das vezes, ninguém tem essas duas respostas. E deveria.

Aos 33 anos, a chinesa Shi Yan fundou a Shared Harvest em 2012 e foi a pioneira do sistema CSA na China. O que a motivou foi querer fazer uma produção agrícola diferente, para não provocar ainda mais degradação ambiental em seu país. Capacitou-se em Minnesota, nos Estados Unidos, onde o sistema foi criado, e hoje garante que não está à frente apenas de um modelo de negócio:

“O CSA mudou minha vida, e o princípio básico é a maneira como nós tratamos e cuidamos do solo. Veja os seres humanos, por exemplo. Se você está saudável, forte, quando pega um resfriado se recupera logo. Assim também acontece com a terra. Se ela recebe um tratamento cuidadoso, então poderá se livrar dos problemas de maneira mais rápida”, disse Shi Yan à repórter.

Os problemas aos quais Yan se refere são ligados ao uso dos pesticidas. Todos os membros  do sistema CSA (são mais de 500 hoje na China) aprendem a achar soluções naturais contra pragas, o que requer muito trabalho, daí também os preços dos produtos serem mais salgados do que de vegetais, frutas e verduras que se compra nos supermercados.  Mas Yan acredita que 40% dos moradores de Pequim têmdinheiro para comprar esses alimentos e, assim, ajudar não só os pequenos produtores, como o solo chinês, a se livrarem do veneno:

“É uma questão de mudança de hábito e de cultura. Não só de consumidores, como também dos outros fazendeiros. Usar pesticida se torna um hábito, um vício, mais ou menos como fumar ou beber. Podemos dizer que os fazendeiros são viciados em usar esses venenos na terra”, disse ela.

Não é à toa. Introduzidos na China nos anos 70, tais pesticidas chegaram com a promessa de ampliar a produção agrícola para que todos pudessem lucrar com a venda de seus produtos a uma população que só fazia crescer. Esqueceram-se de computar nessa equação desenvolvimentista, os danos ao meio ambiente e às próprias pessoas.

“A China sempre teve tradição de usar métodos naturais para plantar e colher sem químicas. E agora, só o que se precisa é redescobrir a arte da velha tradição chinesa”, disse à repórter Jan Douwe van der Ploeg, um professor e sociólogo holandês que acaba de lançar um livro chamado “The New Peasantries” (“Os novos campesinatos”, em tradução livre), contando essa história.

Para o escritor, é importante também reconhecer a vantagem de permanecer pequeno. Nesse sentido, o governo chinês anda incentivando os produtores que se comprometem a se manter com pequenas colheitas, desde que sejam “limpas”. Há o reconhecimento de que fazendas que se preocupam em ampliar sua escala só são factíveis em áreas economicamente desenvolvidas onde a agricultura não é o emprego principal. Um fundo governamental de 2,5 bilhões de libras esterlinas está sendo usado para ajudar os pequenos, segundo a reportagem.

O CSA já é um movimento social, comemora Shi Yan. Num país com 1,2 bilhão de habitantes, que se tornou altamente industrializado, com portas abertas para empresas estrangeiras, é mesmo para comemorar qualquer marcha que se ponha em deslocamentocom o objetivo de diminuir os impactos socioambientais.

Encerro com notícias aqui do Brasil. Vale a pena lembrar, sobretudo neste momento tão conturbado da nossa política, que a agricultura familiar (o que não quer dizer orgânica) corresponde a 38% do valor bruto da produção agrícola nacional, sendo que a mandioca tem 87% de participação nesse bolo. E que existe um órgão tripartite, chamado Consea (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional), que trabalha no sentido de apoiar esses pequenos produtores e tentar tirar os agrotóxicos das mesas dos brasileiros. Por conta do Consea, há hoje três consultas públicas em andamento na Anvisa, pedindo a proibição de pelo menos três desses pesticidas: são eles o fungicida Tiram, que foi retirado de comércio nos Estados Unidos; o herbicida Lactofem, proibido na União Europeia; e o inseticida Carbofurano, já banido na Europa. 

Fonte:G1 em 21/03/2016 para Nova Ética Social por Amelia Gonzalez


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Rede de Agricultura Sustentável
É um serviço de Cristiano Gomes e L&C Soluções Socioambientais

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