Alemanha pode sofrer escassez de batata e porco orgânicos

Por Mathilde Richter - BERLIM, 5 jan (AFP) - Os alemães, campeões do consumo de produtos orgânicos, estão conhecendo um verdadeiro auge da alimentação saudável, mas correm o risco de enfrentar a escassez de batata e costela de porco com etiqueta "bio" neste inverno.

"A oferta não está mais conseguindo acompanhar a demanda", explica Ulrich Hamm, diretor do departamento de marketing agrícola e alimentos da Universidade de Kassel (centro-oeste): "A aveia está esgotada, não há mais ovos na Alemanha e na França, e as batatas ninguém sabe como os clientes serão servidos na segunda quinzena de janeiro", lamenta, citando também a carne de porco, aves e legumes.

Entre os distribuidores, o tom por enquanto é menos alarmista: "O problema ainda não nos atingiu", conta um porta-voz da rede de lojas de produtos orgânicos Viv, de Berlim.

"Nós sabemos o que está acontecendo com nossos fornecedores", admite no entanto o porta-voz.

Nos supermercados Kaisers, nas prateleiras de produtos orgânicos "as quantidades disponíveis são reduzidas, mas ainda não tem gargalos", segundo um representante da Tengelmann, casa matriz da rede.

Os adeptos dos produtos orgânicos ainda não precisam temer a falta de bifes de soja e cenouras sem agrotóxicos. Estes dois produtos são, aliás, os favoritos dos alemães: 19% das cenouras compradas no país no primeiro semestre de 2006 eram orgânicas, segundo pesquisa recente.

Em todo caso, a crise de produtos orgânicos ainda é um fenômeno relativamente marginal. As vendas de legumes orgânicos representavam de janeiro a junho cerca de 4,5% do total na Alemanha, as de frutas, 3,6%.

Mas o crescimento deste segmento é fulgurante: em 2005 seu faturamento cresceu 15%, ficando em 4 bilhões de euros, fazendo dos alemães de longe os europeus mais fãs dos orgânicos. Taxa parecida deve ser registrada em 2006, em um país onde o consumo das famílias vem diminuindo. Além da sensibilidade tradicional dos alemães ao tema ambiental, uma série de escândalos, da carne estragada a arroz americano geneticamente modificado, reforçou nos últimos meses a preocupação em comer bem e saudável, apesar disso custar um pouco mais caro.

Os distribuidores todos estão entrando neste mercado. "E é aí que está o problema", diz Robert Erler, porta-voz da rede de lojas especializada Bio Company: "Muitos entraram no trem andando e agora produzem orgânicos", continua.

Mas a oferta não consegue acompanhar sobretudo porque a transformação de uma propriedade agrícola clássica em fazenda orgânica demanda tempo - pelo menos dois anos, para se livrar de todos os resíduos de pesticidas e fertilizantes - e claro de dinheiro. Resultado: "é lógico que o abastecimento cai, e principalmente no caso da carne". Além de tudo, um porco, mesmo orgânico, precisa nascer, crescer e chegar ao tamanho que possa ser transformado em presunto e patê de fígado orgânicos, "isto não acontece de um dia para o outro".

"Sendo assim, os alemães vêm recorrendo à importação, na América do Sul ou no Canadá, por exemplo", diz Ulrich Hamm, da Universidade de Kassel. Mas, para muitos distribuidores, o fato de se abastecer local ou regionalmente é indissociável da filosofia "bio"e este continua sendo um argumento de venda importante.

Entre os distribuidores clássicos, ninguém se sente responsável: "Nós oferecemos a nossos clientes o que eles querem, nada mais", defende-se a Tengelmann. A Kaisers atua no ramo de orgânicos há 20 anos, acrescenta. O verdadeiro problema este ano, segundo a empresa, "é o clima".

Claudiney Morais
Rio de Janeiro - RJ

Fonte:AFP em 05/01/2007 - 15h32

 
 
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