DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO
Ecologista que trabalha com MST ganha prêmio internacional

Laury Cullen foi o grande vencedor do Prêmio Whitley pela Natureza Internacional, um dos mais importantes do mundo, por sua ação para preservar a mata atlântica numa das regiões com mais conflitos agrários de São Paulo, o Pontal do Paranapanema

Nelson Franco Jobim 

Londres - O engenheiro florestal Laury Cullen Jr., do Instituto de Pesquisas Ecológicas, com sede em Nazaré Paulista, recebeu o prêmio de 50 mil libras da princesa Anne em cerimônia realizada na quinta-feira, 14 de março, na Royal Geographical Society, em Londres. Ele foi escolhido por explorar as oportunidades criadas pela reforma agrária e o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) para criar um modelo de desenvolvimento sustentável que preserve a natureza e promova o reflorestamento.

Ao agradecer o prêmio, Laury disse que seu objetivo é "trabalhar com as pessoas e a natureza para criar um mundo mais rico e saudável, que as futuras gerações terão orgulho de herdar". Sua proposta é combinar ciência com educação para conservação da biodiversidade no Brasil. O foco central é uma das últimas áreas remanescentes da Mata Atlância, a floresta tropical úmida do litoral brasileiro, que foi destruída em 93% desde a chegada dos europeus, em 1500.

Em entrevista exclusiva a Carta Maior, Laury Cullen contou que a região do Pontal do Rio Paranapanema, no Oeste paulista, era uma terra não-ocupada pela colonização, habitada por índios, que começou a ser distribuída por políticos a seus correligionários no final dos anos 40: "a região foi muito devastada, com uso de desfolhantes, como o agente laranja, e hoje só resta 1,8% da cobertura original. Nosso esforço é tentar salvar esses últimos pedaços da Mata Atlântica no interior do estado de São Paulo, que é um dos ecossistemas mais ameaçado do mundo, onde vive um dos primatas mais risco de extinção: o mico-leão-preto".

Pesquisador redescobre espécie dada como extinta

Cláudio Valladares Pádua, fundador e diretor científico do IPE, chegou ao Pontal do Paranapanema em 1983, um ano antes das primeiras invasões do MST na região, que ocorreram em áreas de floresta. Ex-empresário e administrador de empresas que deixou essa atividade para estudar biologia e se dedicar à preservação da natureza, Cláudio começou a trabalhar com o professor Ademar Coimbra Filho, num centro de primatas no Rio de Janeiro. Seu professor redescobriu uma espécie considerada extinta, o mico-leão-preto.

"A Companhia de Eletricidade de São Paulo descobriu que iria inundar uma área que era um dos últimos habitats dessa espécie", conta Cláudio Pádua. "A companhia chamou o professor Coimbra Filho para salvar a situação. Ele ficou uns dois ou três dias, deu todas as instruções e foi embora. Eu nunca mais saí de lá." Aí nasceu o projeto. Quando os sem-terra chegaram, ele se aproximou do movimento se oferecendo orientá-los a fazer uma ocupação da terra que preservasse o meio ambiente, tentando acabar com a idéia de natureza selvagem é terra não-produtiva. Em 1992, fundou a organização não-governamental com apoio de estudantes idealistas como Laury.

"Somos a única instituição do Brasil que achou no MST um espaço para fazer preservação", declarou Laury. "Em outras áreas os agricultores sem terra são considerados praticamente como vilões. A gente fez algo diferente. Negociou com esse movimento e conseguiu fazer da reforma agrária um movimento de conservação, fazer junto uma reforma ecológica e uma transformação de paisagem."

Hoje há 4 mil famílias assentadas no Pontal do Paranapanema. É um assentamento diferente, que segundo Laury tem a preocupação de resgatar a beleza da paisagem, "trazer de volta o verde, a árvore, o fruto, a flora, a fauna e a vida. Esse movimento de conservação é movido principalmente pelo orgulho do assentado fazer e ver que está fazendo uma diferença, que sua terra está ficando mais bonita. É o que eu chamo de econegociação. É um avanço nessa frente do movimento e também na parte conservacionista".

Na prática, o IPE desenvolve dois projetos com o MST. Um se chama Abraço Verde. Laury explica que os assentamentos não invadem as áreas de floresta: "O Pontal tem uma área protegida com o Parque Estadual do Morro do Diabo. Tem 20 mil hectares fora do parque em áreas ainda não-protegidas oficialmente. Como um todo, o Pontal tem 55 mil hectares de floresta natural da Mata Atlântica e essa área remanescente tem de ser protegida".

O Abraço Verde visa a fazer com que as todas as famílias que vivem junto dessas matas construam uma "cortina florestal", uma "zona-tampão de uso múltiplo", dedicada a uma exploração agroflorestal. "É uma zona que antes era só uma pastagem e agora está sendo plantada com árvores frutíferas, árvores nativas e até algumas exóticas. Todos estão criando uma interface entre o assentamento e a floresta muito mais harmônica e menos predatória".

Ilhas de Diversidade no lugar de pasto

Há também o que o engenheiro florestal premiado chama de "ilhas de diversidade". É o segundo projeto. Laury acha que é preciso entender que a reforma agrária é muito mais benéfica à ecologia do que grandes fazendas só com pastagens e gado sem nenhuma árvore: "Numa paisagem dividida em lotes de 15 a 18 hectares, como temos hoje lá no Pontal, as famílias, organizadas e articuladas, conseguem juntas construir uma paisagem diferente, com seus jardins florestais, seus bosques de fundo de quintal. Essa reforma agrária tem trazido muito verde de volta para a paisagem."

Até a onça, o mais forte e temido dos animais carnívoros brasileiros, é utilizada no projeto: "A onça é um dos detetives de um projeto que a gente chama de detetives ecológicos. Uma das maneiras de conservar é natureza é descobrir e restaurar esses corredores que dão conexão entre as últimas áreas protegidas. No Pontal, há três áreas que ainda abrigam onças pintadas ou pardas: o Parque Estadual do Morro do Diabo, onde trabalhamos em parceria com o Instituto Florestal do Estado de São Paulo; o Parque Nacional da Ilha Grande, no Paraná; e a Estação Ecológica de Iviema, no Mato Grosso do Sul. Essas três unidades abrigam juntas de 100 a 150 onças pintadas que são as últimas da Mata Atlântica no interior. As onças nos indicam o caminho por onde as espécies selvagens se movimentam entre essas zonas."

Como esses corredores são distantes dos assentamentos, Laury diz que não há maior risco de que as onças ataques homens ou animais domésticos: "O Parque do Morro do Diabo tem muitas presas: capivaras, veados e antas. As onças não se arriscam a sair do seu ambiente. Há casos muito isolados. Nos assentamentos, há outros animais, como aves, insetos e morcegos que fazem o trabalho de polinização e disseminação de sementes."

A experiência do Pontal como escola e centro da reforma agrária já está se expandindo. Por iniciativa do MST, os assentados perto do Parque do Poço das Antas, no estado do Rio de Janeiro, foram visitar o Pontal para conhecer as técnicas de manejo florestal e aprender a viver de maneira harmônica e sadia em torno de uma unidade de conservação ambiental. "Conservação é continuação, ação e mudança a longo prazo", raciona Laury. "Esse prêmio nos dá a oportunidade de investir no projeto para continuar o trabalho."

Extraído da Agência de Notícias Carta maior em 16/03/2002

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