DESERTIFICAÇÃO (31/8/2004)
Agrofloresta é alternativa de combate

O avanço do processo de desertificação em Quixadá, constatado através de imagens de satélite, tem preocupado ambientalistas e estudiosos da área. Por isso, o município, juntamente com Irauçuba, foi escolhido para a implantação de projetos de reversão do fenômeno, ligados ao Plano Nacional de Combate à Desertificação (PAN).

O engenheiro agrônomo, João Ambrósio de Araújo Filho, da Embrapa, e a engenheira florestal do Núcleo de Estudos e Pesquisas Aplicadas (NEPA), Gerda Nickel Maia, estiveram na Faculdade de Educação Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc - UECE) para expor estes projetos. Na ocasião, foi lançado o livro “Caatinga - Árvores e Arbustos e Suas Utilidades”.

De acordo com João Ambrósio em algumas propriedades rurais de Quixadá, serão implantados sistemas de produção agroflorestal, que consorciam a produção agropecuária com a preservação ambiental. O agrônomo também vai pesquisar o uso de leguminosas arbóreas para a recuperação de solos, bem
Neysla Rocha
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O DESMATAMENTO E as queimadas eliminam o ciclo de nutrientes que existe entre a vegetação e o solo
como avaliar a possibilidade de uso de cactáceas nativas para a alimentação de ovinos e caprinos.

Na sua palestra, Araújo Filho demonstrou preocupação com os rumos atuais da ocupação da caatinga nordestina. “Desde o século XVII até hoje, a agricultura na caatinga é baseada na queimada. O desmatamento e as queimadas eliminam o ciclo de nutrientes que existe entre a vegetação e o solo. Por isso, o solo empobrece rapidamente, e a produtividade de milho e feijão decresce na mesma velocidade. Por fim, as chuvas atingem o solo, que, sem a proteção das árvores, é completamente destruído”.

Os processos erosivos decorrentes da falta de vegetação ocasionam, segundo o pesquisador, perdas na ordem de 30 toneladas anuais de solo em áreas planas, e 150 toneladas em áreas em declive. “Uma tragédia que se traduz na perda anual de bilhões de dólares, pelos decréscimos de produtividade agrícola. Por isso o governo nacional lançou o Plano Nacional de Combate a Desertificação (PAN)”. Infeliz
Neysla Rocha
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PROCESSOS EROSIVOS ocasionam perdas na ordem de 30 toneladas anuais de solo em áreas planas
mente, esse impacto ambiental não é exclusivo do Nordeste. “O Paraná foi incluído no plano, pois para cada tonelada de soja produzida lá, 30 toneladas de solo são perdidas. Aliás, isso explica porque as águas das cataratas do Iguaçu são barrentas”, explica o agrônomo. “Aqui no Ceará, temos tido sérios contratempos com o assoreamento de corpos hídricos. O açude de Pentecostes, por exemplo, já recebeu cerca de 120 milhões de toneladas de solo, trazidos pelas águas que escorrem a partir das chuvas”.

Segundo Araújo Filho, temos dilapidado nosso capital biológico. Destruímos, com nosso avanço econômico mal planejado, nossos solos, fauna e flora, produzindo lucros imediatos, mas que cessam rapidamente, pelo esgotamento dos recursos naturais.

Em 2001, o Ministério do Meio Ambiente, com base em imagens de satélite dos anos 90, apontou o entorno de Quixadá como uma das áreas mais preservadas da caatinga brasileira. O mesmo estudo, no entanto, fazia uma ressalva. Como os dados utilizados pelo Ministério eram antigos, o estudo presumia que o grau de desertificação da caatinga era maior do que o ali apontado. Foi justamente o que a pesquisa do professor João Ambrósio determinou. Estudando imagens de satélite de 2003 e 2004, o cientista descobriu um numero elevados de áreas desmatadas e em processo de desertificação na zona rural de Quixadá.

Fábio Angeoletto
sucursal Quixadá

diário do nordeste

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