Consumo de orgânicos cresce 34% no DF e movimenta R$ 35 milhões


O mercado de produtos orgânicos do Distrito Federal não para de crescer. A produção estimada de hortaliças e frutas orgânicas é de 8.200 toneladas, por ano, o que representa um crescimento médio anual de 34%. Há, aqui, 45 mil pessoas que consomem somente produtos orgânicos. De olho nesse nicho, que movimenta R$ 35 milhões por ano, o setor vem se estruturando. Atualmente, 200 propriedades já são certificadas ou cadastradas com o selo orgânico. Outras 200 propriedades estão sendo preparadas para entrar nesse mercado.

No fim dos anos 1980, a feira orgânica na quadra 306 Sul, com seis produtores, era o único ponto de referência para dezenas de pessoas que buscavam produtos para uma alimentação alternativa, livre de agrotóxicos. Hoje, já são 51 feiras de agricultores orgânicos espalhadas pelo DF. A estimativa é que existam 150 pontos de vendas desse tipo de produto, localizados em diversos estabelecimentos comerciais, como supermercados e mercearias. Mas a demanda é bem maior que a oferta.

Referência

“O DF é a unidade da Federação que mais cresce, e investe, em produtos orgânicos. Para nós, pesquisadores e técnicos, o consumo de produtos orgânicos nunca foi moda e, sim, uma tendência para o futuro”, diz Roberto Guimarães Junqueira, coordenador de Agroecologia e Produção Orgânica da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater - DF).

Desde quarta-feira, as Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF) têm um espaço dedicado aos produtos orgânicos, fornecidos no atacado para supermercados e restaurantes. A expectativa é que esse novo espaço movimente em torno de R$ 200 mil por mês. “Antes, só o varejo era atendido”, explicou o presidente da Ceasa-DF, José Deval.

A tendência para o consumo de produtos orgânicos foi registrada em estudo realizado pela Emater em 2005 e que até hoje é referência para os técnicos. Pesquisa feita pela empresa em 557 domicílios de 25 regiões administrativas do DF identificou o nível de consumo e o potencial de mercados para os produtos orgânicos, com foco na cadeia produtiva até chegar ao consumidor.

O resultado mostrou que 78% dos entrevistados passaram a consumir orgânicos por considerar os produtos mais saudáveis e nutritivos, 73% destacaram que o cultivo não agride o meio ambiente e 54% viram como vantagem o respeito às normas trabalhistas. Além disso, quase 50% responderam que os produtos tinham boa aparência; 40% destacaram o sabor e o aroma diferenciados dos produtos.

O engenheiro Marcelino Barberato e a esposa, Abadia, dentista, compraram, no início dos anos 1980, um terreno de 14 hectares na área rural de Samambaia. O casal pretendia plantar hortaliças, verduras e frutas de forma natural. Três décadas depois, o sítio Gerânium é referência no DF no estudo e na aplicação de hortas agroecológicas.

Não basta, a eles, a produção livre de agrotóxicos, fertilizantes ou adubos químicos, ricos em diversidade de vitaminas e sais minerais. Barberato aposta na diversidade de culturas e adota técnicas de produção que não agridam o meio ambiente. “É preciso trabalhar o solo, a água, o ar, de forma que haja integração e equilíbrio do sistema e os produtos tenham saúde. O manejo das plantas é diferenciado e existe cuidado até mesmo com as pessoas que estão cuidando das plantações. Elas precisam trabalhar satisfeitas para colher um produto saudável e saboroso. Quando nos alimentamos com um produto saudável, ficamos melhores”, avalia o agricultor.

Certificação exige auditoria

Para que possam vender seus produtos no Brasil como orgânicos, os produtores precisam cumprir uma série de exigências burocráticas. Devem ter certificação por auditoria e pelo Sistema Participativo, além do cadastramento de produtores orgânicos por Organização de Controle Social (OCS), feito diretamente no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). As feiras podem ter produtos provenientes das três modalidades.

Na certificação por auditoria, uma instituição faz a checagem de métodos e processos e compara com a legislação federal. Na certificação participativa, feita por Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade Orgânica (OPAC), os próprios agricultores se organizam e efetivam o processo baseado na legislação vigente, sob avaliação constante do MAPA. Em Brasília, existe a OPAC Cerrado.

Já a OCS é composta somente por agricultores familiares e a venda só pode ser realizada diretamente ao consumidor. Nesse caso, não existe a certificação e o produtor não pode vender para terceiros. Mas a organização deve ser cadastrada no MAPA, que avalia e acompanha os processos, verificando se a mesma executa adequadamente as averiguações de conformidade orgânica, e se os produtos têm rastreabilidade e qualidade compatível com a legislação de produção orgânica. No DF existem seis OCS’s, em diversas regiões.

Associação

Criada em 1988, a Associação de Agricultura Ecológica (AGE) é pioneira no DF na agricultura orgânica, atuando desde a produção, a comercialização, a legislação até a fiscalização. A entidade reúne sócios produtores e sócios consumidores de alimentos produzidos em sistemas agroecológicos. “A associação surgiu pelos ideais de um grupo de ambientalistas e agrônomos. Hoje temos 15 produtores”, explica a presidente da entidade, Teresa Cristina Correa.

O número de adeptos desse tipo de consumo não para de crescer, por diferentes razões. Joana Mota era menina quando a mãe, Rosana, teve câncer de mama. Para complementar o tratamento convencional, o médico indicou também uma alimentação com produtos livres de agrotóxicos, porque o organismo da paciente estava mais sensível. A mãe se curou da doença e Joana nunca mais abandonou os orgânicos, incorporando de vez esse tipo de alimento ao seu modo de vida.

Hoje, aos 25 anos, Joana compra hortaliças e frutas, uma vez por semana, em uma feira agroecológica na Asa Norte.  “É uma questão de escolha. Conheço e quero contribuir com essa cadeia produtiva”, explicou Joana.

A Universidade de Brasília (UnB) realiza uma série de pesquisas visando ao aperfeiçoamento da produção orgânica. “Em nossas pesquisas, avaliamos o sistema produtivo como um todo”, explica a professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Ana Maria Resende Junqueira.

Na inovação de produtos, destaca-se a pesquisa para a confecção de papel e de composto orgânico proveniente da casca de pequi. Isso resulta em embalagens ecológicas para produtos provenientes do extrativismo do cerrado. “A casca de pequi representa 62% do fruto. Portanto, sua utilização em novos produtos retira resíduos do meio e pode auxiliar no aumento de renda de pequenos agricultores extrativistas”, explicou a professora. Ela destacou também avanços nas pesquisas para a inovação, com o estudo sobre o uso de extratos de plantas para o manejo de pragas.

 

Fonte:Correio Braziliense em 05-06-2017 por Marlene Gomes


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