Consumo de produtos orgânicos cresce e agricultores descobrem vantagens econômicas da alternativa

Apesar de custar até 20% a mais do que os produtos tradicionais, os orgânicos registram aumento no consumo de 30% ao ano

Eles não têm a aparência bonita dos produtos cultivados com agrotóxicos e chegam a custar até quatro vezes mais do que esses. No entanto, cresce entre os consumidores a procura por alimentos orgânicos, isentos de contaminação química e resultantes de um manejo equilibrado do solo, água, plantas e animais. Na Bahia, a produção orgânica ainda é realizada e vendida em pequena escala. A estimativa da Federação dos Agricultores do estado (Fetag) é de que apenas 5% dos cerca de um milhão de agricultores baianos estejam envolvidos com o cultivo natural.

O presidente da Fetag, Edson Pimenta, diz que a Bahia deve registrar este ano um aumento de 30% no volume de produtos orgânicos produzidos, embora ainda não seja possível precisar a produção total do estado. Mas, se depender das pessoas que a cada dia buscam uma qualidade de vida mais saudável, a produção orgânica não vai parar de crescer. Centenas delas chegam cedo às feirinhas livres do gênero realizadas às quinta-feiras, na Pituba, e aos sábados, na Barra. O comércio, programado para começar a funcionar às 8h, foi obrigado a abrir mais cedo por força da procura. "Às 6h já tem consumidor esperando os agricultores abrirem a barraca", diz Fernando Hoisel, coordenador da Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico (Anede), voltada para a agricultura orgânica e responsável pelas feiras. Em Salvador, além das duas feirinhas livres, hortaliças, frutas e legumes orgânicos também podem ser encontrados nas redes de supermercados Extra, Bompreço e nas três delicatessens da Perini (Barra, Pituba e Vasco da Gama). Outra alternativa é negociar diretamente com o produtor para entrega em domicílio.

Os alimentos orgânicos vendidos em Salvador são de plantações da Região Metropolitana e dos municípios de Mata de São João, Conceição de Almeida, Santo Antônio de Jesus, Amélia Rodrigues, Conceição de Feira e Santa Terezinha. Cerca de 12 produtores rurais dessas localidades participam semanalmente das feirinhas, abastecendo-a com mais de 50 itens da alimentação orgânica. Apesar do preço superior a 20% sobre os alimentos convencionais, o mercado para esses produtos cresce 30% ao ano no Brasil. A valorização dos orgânicos é também uma forma de melhor remunerar os agricultores e incentivá-los a substituir a produção química pela natural.

A troca da agricultura tóxica pela orgânica vale a saúde do produtor no campo e do consumidor nas cidades. Diversas pesquisas já comprovaram os malefícios ao homem causados pela utilização de pesticidas, fungicidas e herbicidas para o combate a insetos, fungos e plantas daninhas nas plantações. "Há um aumento progressivo de doenças degenerativas, cancerígenas e de origem neurológica associadas ao uso da química sintética", afirma Fernando Hoisel, que, além de ser coordenador da Anede, é um médico clínico geral, que há 27 anos recomenda o consumo de alimentos naturais.

Segundo o médico, essas substâncias tóxicas deprimem o sistema imunológico das pessoas, expondo-as mais facilmente às doenças. "Muitos defensivos agrícolas, apesar de serem proibidos em outros países, são vendidos e utilizados abertamente no Brasil", alerta. A ingestão de frutas, verduras, legumes e hortaliças orgânicos é a garantia de uma alimentação com qualidade biológica e nutricional superiores. "Eles estimulam o sistema imunológico a produzir as chamadas células brancas, que atuam como verdadeiros soldados em defesa do organismo", informa.

Selo verde exige compromisso

Boa parte da produção de alimentos orgânicos na Bahia ainda não possui a certificação necessária ao reconhecimento da qualidade agroecológica dos produtos. O processo de certificação vai além da troca da cultura química pela orgânica. Os agricultores têm de se comprometer com manejos ecológicos de se plantar, cultivar e colher alimentos - atividades avaliadas periodicamente pelas instituições que concedem o selo verde.

A depender do tipo de cultura, o tempo necessário à obtenção do certificado é de dois a três anos. No Brasil, as principais empresas certificadoras são o Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD), que garante a comercialização do produto no mercado externo, a Associação de Agricultura Orgânica (AAO) e a Fundação Mokiti Okada, todas sediadas em São Paulo.

Há também outras formas de identificar se o produto é realmente orgânico. A primeira é o controle do manejo realizado em uma determinada área e a segunda é o princípio da rastreabilidade, que torna possível, a partir da nota fiscal de um determinado produto comercializado, chegar ao início do processo de produção.

Muitos assentamentos e propriedades rurais do estado estão em fase final de certificação, a exemplo dos assentamentos Dandara e Zumbi dos Palmares, em Camamu, e de 15 propriedades de café, no município de Ibicoara, a 220 quilômetros de Vitória da Conquista. Em Salvador, os alimentos orgânicos comercializados nas feirinhas do gênero, supermercados, delicatessens da Perini e diretamente em domicílio ainda não têm o selo.

No Bompreço, os produtos orgânicos são especificados como "em conversão". A rede trabalha atualmente com hortaliças, a maior parte folhagens. Segundo a assessoria de imprensa, o Bompreço está buscando a certificação desses produtos, pois o mercado tem sinalizado interesse acima das expectativas. Na Perini e no Extra, os orgânicos são garantidos pela marca da Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico (Anede), embora ainda não possuam a certificação.

"Por enquanto, o controle da qualidade da produção é feito entre os próprios agricultores. Eles se reúnem e, todo mês, vão juntos fazer inspeção em uma das propriedades", afirma o médico Fernando Hoisel, presidente da Anede. A associação é responsável pela garantia de boa parte dos produtos orgânicos comercializados na capital baiana.

A produtora Patrícia Nogueira Caldas Santos, do município de Conceição do Almeida, diz que as despesas para trazer à cidade um técnico das instituições certificadoras são muito altas para os agricultores. "Nossa expectativa é de que ainda este ano possamos contar com uma instituição que conceda o selo verde no próprio estado", disse.

fonte: Jornal Correio da Bahia - Quinta-Feira, 21 de Março de 2002

 
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