Consumidores de orgânicos são mais implicantes, diz pesquisa


Não há nada de errado na composição dos alimentos – de acordo com pesquisa, a culpada é a propaganda em volta deles

Consumir orgânicos faz com que você julgue quem não compra o mesmo tipo de alimento?

Em uma bela e fatídica manhã, saí de casa com uma ecobag pendurada no braço rumo a uma das minhas maiores decepções como consumidora, em plena feira livre. Logo na primeira banquinha fui abordada por um sujeito simpático que me oferecia maracujá orgânico “tão doce que dá para comer de colher”. Experimentei a fruta e fiquei maravilhada. Nesse ritmo levei mais um cacho de uvas sem-caroço e uma bandejinha de morangos.

”Fecha a conta, moço”, sorri para ele, feliz da vida com minhas aquisições saudáveis. “Sessenta reais, dona”, ele me respondeu. Sessenta reais. Por frutinhas. Eu estava imaginando uns vinte, no máximo. Relutei em fazer a compra. Atitude compreensível para mim, mas não tão compreensível para o feirante e para uma meia-dúzia de outros clientes de sua banquinha. “Mas é orgânico, moça, é a melhor coisa para sua saúde”, “são frutas de verdade, com gosto de verdade”. Sim, eu não poderia concordar mais, mas não era essa a questão. Logo o pessoal começou a ficar agressivo, em uma discussão acalorada que acabou comigo gastando todos os sessenta reais após ouvir que “eu devia era comer o tomate cheio de agrotóxico que matou o Leandro”.

Talvez esse episódio seja a razão pela qual eu não me surpreendi ao ler um estudo publicado pelo Journal of Psychological and Personality Science, que revela que, ao ser expostas a comida orgânica, as pessoas podem passar dos limites e ficar, literalmente, chatas.

Não entenda mal, não há nada na composição de alimentos cultivados dessa forma que possa alterar o comportamento de alguém. O que acontece é que ao ver a comida orgânica, que todas as fontes de informação afirmam ser a comida “certa”, consumidores se sentem no direito de julgar quem prefere outro tipo de alimento.

“No mercado, muitas comidas orgânicas são caracterizadas por uma terminologia específica, normalmente com as palavras ‘de verdade’. Morango de verdade, chuchu de verdade, etc.”, conta a autora do estudo, Kendall Eskine, da Universidade Loyolla em New Orleans, explicando por que uma idosa argumentava ferozmente comigo, me apontando uma berinjela.

Em sua pesquisa, Eskine expôs três grupos de pessoas a imagens de vegetais orgânicos, vegetais não orgânicos ou de doces, como brownies e cookies. Depois mostrou vídeos de situações não aceitas pela sociedade, como o de um advogado tentando tirar vantagem de seus clientes. Os voluntários, então, deveriam dar uma nota, de 0 a 10, dizendo o quanto achavam a situação errada – sendo que o 10 era a nota mais “grave”. Os resultados mostraram que quem havia visto as imagens dos alimentos orgânicos, em média, considerava os vídeos mais antiéticos. A conclusão foi que, por ser exposta a uma coisa notoriamente correta, o voluntário ficava mais rigoroso na hora de julgar o comportamento dos outros.

Da mesma forma, as pessoas que viam imagens de alimentos orgânicos também eram mais egoístas. Ao ser solicitada a ajuda delas em um trabalho voluntário, elas dedicavam menos tempo à causa do que as pessoas que viam fotos de outras comidas. De acordo com Eskine, isso acontece porque quem consome comida orgânica sente que “já fez sua parte” e não precisa ser tão solidário.

Com certeza, os resultados não são absolutos: não é possível que todas as pessoas que preferem orgânicos sejam rígidas ou egoístas. E isso não representa uma característica geral de personalidade, apenas um fenômeno gerado pelo contexto. Afinal, mesmo após meu trauma, deixo registrado que continuo comprando esse tipo de alimento – mesmo que de outra banquinha.

IFonte: Revista Galileu por Luciana Galastri

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