Compostagem: mudança que nasce dentro de casa


A decomposição da matéria orgânica sempre aconteceu na natureza e tem um papel muito importante na manutenção da vida no planeta, transformando restos e partes de tudo que um dia foi vivo em nutrientes para micro-organismos e para as plantas. A compostagem é o processo de decomposição dos resíduos orgânicos feito de forma controlada, para não causar problemas sanitários, como insetos, roedores e mau cheiro. Seu produto final é o composto ou húmus, essencial para a produção orgânica de alimentos.

Uma família britânica, composta por mãe, pai e filha de 9 anos, ganhou espaço nos noticiários do mundo inteiro no começo de janeiro. O motivo? Ter produzido apenas uma sacola de lixo durante todo o ano de 2010. Richard e Rachelle Strauss e a filha Verona plantam grande parte do que consomem, reciclam tudo o que é passível de reciclagem e transformam restos de alimentos em adubo. Dentro de um pequeno saco, restaram apenas alguns brinquedos quebrados, lâminas de barbear, canetas e negativos fotográficos.

A primeira conclusão a que se pode chegar com esta história é que, finalmente, e cada vez mais, ações que envolvam o conceito de sustentabilidade e de preservação de recursos naturais merecem espaço na mídia. A segunda conclusão é que não é difícil agir. Pode ser trabalhoso dar início à mudança de comportamento mas, uma vez iniciada, a tendência é tornar-se algo natural e permanente.

Seja qual for o motivo, e para a sorte do planeta, é cada vez mais fácil encontrar bons exemplos, como o da família Strauss, bem perto da gente. Perto mesmo. Logo ali, no bairro Carandá Bosque, mora a família Rezende. Uma visita a uma feira de flores, no ano passado, apresentou uma prática denominada compostagem à matriarca e ao primogênito da família, e mudou completamente a maneira de praticar o descarte de lixo na residência.

Felipe Ávila de Rezende, o primogênito de 10 anos de idade, encasquetou que queria fazer compostagem em casa e, em poucos dias, já havia lixeiros distintos para cada tipo de resíduo e uma caixa preparada com húmus e folhas secas no quintal. "O Felipe sempre foi assim, um pouco 'hippie'. Gosta de terra, de mato, de planta. Não foi surpresa ele querer adotar a prática em casa", descreve a jovem matriarca, Janaina de Ávila Rezende.

Segundo Janaina, a família já tinha o hábito de separar materiais recicláveis, mas o responsável e grande incentivador da prática da compostagem foi o Felipe. "Aprendemos a montar a caixa para compostagem na feira das flores de Holambra do ano passado, no estande de permacultura. Pegamos uma caixa dessas de supermercado, colocamos ela no quintal e forramos com o húmus, que é terra com minhocas. Começamos a separar as cascas de frutas, legumes, verduras, ovos, e colocar na caixa. Desde a metade do ano passado até agora, já foram produzidas três caixas cheias de composto", conta Felipe.

Depois da implantação da caixa de compostagem, veio a ideia das plantas frutíferas, medicinais e ornamentais. Uma horta foi montada e responde viçosa à adição do adubo produzido em casa. Um pé de mamão plantado ao lado da composteira oferece frutos e parece desafiar os outros dois pés, plantados no mesmo dia, um pouco mais longe, que sequer cresceram como o irmão.

Felipe anda faceiro no meio de tanto verde, apresentando quase todas as plantas pelo nome. Aluno do 6º ano do Ensino Fundamental, confere à escola grande parte da "culpa" por "gostar dessas coisas naturais". Era pouco mais que um bebê, em 2005, quando a escola ensinou a fazer uma horta. Conceito a conceito, trabalhou os hábitos das crianças e formou pequenos cidadãos que pegam carona para "poluir menos", tomam banho rápido e escovam os dentes de torneira fechada para economizar água e, com um pouco de sorte, encontram um Felipe pelo caminho que, além de fazer tudo isso, ensina coisas novas para quem quiser aprender.

O pequeno rapaz chegou a dar uma palestra em uma colônia de férias ensinando a fazer compostagem. "Para as crianças é muito mais fácil. Eles já estão aprendendo de maneira diferente, não precisam passar pelo processo de readaptação que nós, adultos, precisamos. Essa nova geração já virá diferente, acostumada com os conceitos e hábitos sustentáveis", resume Janaina.

Você também pode fazer em casa

Talvez você não tenha um Felipe e grande incentivador em casa, mas pode lançar o desafio e começar essa pequena revolução doméstica por conta própria. Mora em uma casa, com quintal e tudo? Ótimo. Mora num apartamento? Tudo bem também; só ficará um pouquinho mais trabalhoso. Com ajuda da engenheira ambiental e especialista em permacultura, Adriana Galbiati, ensinaremos a você o passo a passo para ter uma composteira dentro de casa, um passo importante rumo ao gerenciamento de resíduos domésticos.

1. É importante começar a reservar as folhas que caem no quintal e a grama cortada, que são materiais ricos em carbono. Vale arrecadar com os vizinhos. Esses resíduos, secos, servirão para forrar a composteira e cobrir os resíduos depositados nela. Quanto menores as folhas, melhor. Caso sejam folhas grandes, elas precisam ser trituradas. Por isso a grama seca é uma ótima opção.

2. O recipiente não deve ter fundo ou deve ter aberturas no fundo, para não acumular líquidos. O melhor é que seja colocado diretamente sobre o solo. Pode ser um caixote de madeira, de plástico, uma estrutura com tela de galinheiro ou tábuas espaçadas entre si. Em caso de apartamentos, coloque sobre um recipiente cheio de terra, que coletará o chorume.

3. O local da instalação precisa ser arejado e não pode acumular água, mas pode tomar sol e chuva, desde que tenha uma boa drenagem. A composteira deve ser localizada perto da cozinha, para facilitar o manejo.

4. Depois de acomodada, é preciso forrar a caixa com uma camada espessa de folhas ou grama seca.

5. Depois, coloca-se o lixo orgânico do primeiro dia, cobrindo-se bem com outra camada de material seco. Isso deve ser feito imediatamente, para não se desenvolverem larvas de moscas. Sempre a última camada é de palha. Quanto menor for o tamanho das partículas de palha, melhor a cobertura. Folhas grandes formam buracos na camada, que permitem a entrada de insetos. As folhas secas grandes devem ser trituradas antes. Não se coloca terra nesse tipo de composteira, para não compactar o material.

6. Depois de alguns dias, a pilha começa a diminuir de volume, por causa da decomposição. Se tudo estiver correndo bem, não haverá mau cheiro e o material começa a ficar escuro e pegajoso. As minhocas e outros seres benéficos do solo começam a aparecer para auxiliar o processo.

7. A presença de ar é importante para não haver mau cheiro. Nos períodos de seca é importante molhar um pouco a composteira. Dependendo do tamanho da família, o tempo de uso de um caixote fica em torno de um mês. Quando ele estiver cheio, podemos começar um outro com o mesmo processo.

8. Em condições ótimas, o composto vai ficar pronto em 3 ou 4 meses. Nesse ponto, o material tem cheiro agradável e a aparência de terra preta.

9. O composto pode ser adicionado à terra do jardim para a formação de canteiros ou plantio em vasos. A proporção pode ser metade húmus e metade terra.

10. É preciso atenção quanto ao tipo de resíduo que será colocado na composteira. Restos de frutas e verduras não precisam de grandes cuidados além da cobertura completa com folhas. Já alimentos cozidos, como arroz e feijão, precisam ser espalhados em camadas finas e com atenção redobrada quanto à cobertura. Carnes precisam ser batidas no liquidificador com água e, também, muito bem cobertas.

Fonte: Correio do Estado por Bruna Lucianer em 25/01/2011


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