BRASIL TEM O MAIOR E MELHOR PROGRAMA DE CONTROLE BIOLOGICO DO MUNDO



A soja é o único grão no país onde há lavouras inteiras sem uso de controle químico de pragas. São dois milhões de hectares, distribuídos por Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão e Bahia, nos quais usa-se o Baculovírus anticarsia como forma de controlar a população da lagarta-da-soja, a Anticarsia gemmatalis.

Comercializado em forma de pó, o baculovírus evitará o uso de dois milhões de litros de inseticida químico, na próxima safra de soja. Em 20 anos de programa, o baculovírus representou uma economia estimada entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões. De 1983 até hoje, mais de 20 milhões de litros de inseticida química deixaram de ser aplicados nas regiões produtoras que adotaram o método de controle biológico.

É um caso raro de eficiência de um inimigo natural de uma praga, constatada em campo, aliada à boa aceitação por parte do produtor. Este, além de ter a vantagem de não manipular produtos químicos nocivos à sua saúde, ainda comprova os benefícios ambientais, já que o baculovírus é específico. Por atacar apenas a lagarta, ele não interfere na população de outros seres vivos, insetos ou microorganismos, que podem ser úteis no controle de outras pragas.

Pela distribuição geográfica, a lagarta da soja é considerada a principal praga desfolhadora da cultura, porque é verificada praticamente em todas as regiões de plantio. O percevejo, chamado em algumas localidades de fede-fede também é importante, mas degrada o grão diretamente. Em ambos os casos, a produtividade pode ficar comprometida. Mas, segundo o agrônomo, especializado em ecologia de insetos, Flávio Moscardi, a soja pode tolerar desfolha de até 100% sem reduzir a produtividade, dependendo do período de crescimento da planta. O momento mais sensível é quando a soja está produzindo a vagem. "Nesse caso, é recomendável a aplicação. Ainda assim, a planta tolera 20% de desfolha", afirma.

Pesquisador da Embrapa Soja e idealizador do Programa de Controle Biológico da Lagarta da Soja, Moscardi acredita que as aplicações com inseticidas químicos que são feitas ainda hoje são fruto da cultura impregnada no meio rural de que qualquer problema estético exige ação imediata. O produtor se apavora ao ver sua plantação desfolhada, se desespera e não acredita na recuperação. "Na realidade, o percevejo tem capacidade de provocar mais perdas porque ataca direto no grão, e a lagarta come apenas as folhas. Quando vem uma aplicação, há um desequilíbrio ecológico que acaba dando resistência e a lagarta acaba voltando mais forte", explica.

As duas pragas juntas, lagarta e percevejo, demandam mais de 90% das medidas de controle. Dados fornecidos por Moscardi mostram que o inseticida químico é mais danoso que o controle biológico, inclusive pelo número de aplicações. "Aplica-se duas vezes na safra para combater a lagarta e 6 vezes para combater o percevejo". Outros insetos e microorganismos atacam a soja, mas são regionais ou sazonais e demandam ações específicas quando há infestação.

Crescimento

Vários fatores colaboraram para o êxito do programa de controle biológico da lagarta-da-soja com o baculovírus. Além da alta virulência do inimigo natural da lagarta, da fácil produção do bioinseticida, do fato da Anticarsia gemmatalis atacar as folhas e, portanto, ser sempre presa fácil, há o ainda o fator econômico. "Além das vantagens ecológicas, evidenciou-se uma vantagem econômica do baculovírus de cerca de 70% quando comparado à aplicação de inseticidas químicos, em anos de alta ocorrência do inseto", registrou Moscardi em trabalho apresentado no Encontro Nacional de Fitossanitaristas, de 1984.

Não é segredo que custo é o principal quesito levado em conta pelo produtor quando é necessário tomar decisões, seja sobre a adubação e tratamento do solo, controle de pragas, colheita e armazenamento, enfim, sobre o manejo da cultura. Afinal, agricultura é uma atividade de risco, que depende, dentre vários fatores, de condições climáticas favoráveis.

E esse, certamente, foi um fator preponderante para o crescimento do uso de baculovírus nas regiões produtoras de soja. O programa começou há 20 anos no Rio Grande do Sul e Paraná e, hoje, com o crescimento da demanda na região do Brasil Central, há produtores que não conseguem comprar o bioinseticida porque a demanda é maior que a produção. "Nas últimas três safras, tem faltado o produto", conta o pesquisador da Embrapa Soja.

Produção em laboratório

A estratégia da Embrapa Soja agora é dar suporte a um programa piloto para criação de vírus e lagarta em laboratório e, assim, desenvolver uma tecnologia de produção em maior escala do bioinseticida. Hoje, cinco empresas oferecem o produto no mercado e a tecnologia para o desenvolvimento foi repassada pela Embrapa, em troca do pagamento de 5% das vendas anuais em royalties. O compromisso do repasse de dinheiro expirou em 96, porque foi estabelecido duração de 10 anos contratualmente. "Esse dinheiro reverteu-se em recursos para pesquisas da Embrapa", conta Moscardi.

O mesmo deve ser feito quando a unidade de pesquisa referendar a tecnologia de produção em larga escala. O programa está em andamento nos laboratório da Embrapa Soja. Moscardi e sua equipe estão domesticando lagartas, que deixam transformar-se em pupa e em mariposa. Eles mantêm uma colônia com 5% de lagartas, nascidas do acasalamento das mariposas. Os 95% restantes da produção diária de lagartas vão para o laboratório receber uma dieta artificial, uma pasta que imita a folha da soja, já adicionada do vírus. "Já tem uma empresa trabalhando junto conosco que está inoculando o vírus em 200 mil lagartas por dia. A meta é chegar a uma produção de 300 mil lagartas contaminadas diariamente", relata o pesquisador.

História

A descoberta da potencialidade do Baculovírus anticarsia como inimigo natural da lagarta-da-soja data de pouco mais de 10 anos antes do programa de controle biológico ser adotado nas plantações do Sul do país. Estudante do segundo ano de agronomia, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, Flávio Moscardi, trabalhava no levantamento de pragas da soja e seus inimigos naturais, como estagiário de um professor convidado da Universidade da Flórida (Estados Unidos), o pesquisador Roger Williams.

Ele relata que era comum encontrar lagartas mortas com o corpo enrijecido em meio às plantações de soja. Um fungo era o responsável pela dizimação das lagartas, que tomavam uma coloração esverdeada. Surgiu, de repente, um fato curioso. As lagartas começaram a aparecer amareladas e flácidas, dependuradas pelas patas abdominais. Williams enviou o material para um especialista em insetos na Flórida e sua análise foi a seguinte: a lagarta havia morrido contaminada por um vírus da família baculoviridae, altamente virulento e com potencial para tornar-se um eficiente inseticida biológico.

A conclusão ficou adormecida na cabeça de Moscardi até que, já formado, foi trabalhar na Embrapa em 74. Ele foi designado para a unidade de Campo Grande, que na época era o Centro de Pesquisas Agropecuárias do Oeste, de atuação bastante genérica na área agrícola. Estudava-se pragas em geral, de várias culturas. Em 75, ele foi para os Estados Unidos, depois de cursar inglês patrocinado pela empresa, em Sete Lagoas (MG). Era uma oportunidade de cursar o mestrado, que, coincidentemente, foi orientado pelo cientista que identificara o vírus três anos antes.

Do mestrado, ele foi para o doutorado em Ecologia de Insetos, na mesma universidade e voltou para o Brasil, em 79, já trabalhando na Embrapa Soja, em Londrina (PR). "Já vim preparado para montar um projeto para que o vírus pudesse ser usado como inseticida biológico", conta Moscardi. Em 81, vieram os primeiros testes, realizados com a parceria das empresas de assistência técnica estaduais do Paraná e do Rio Grande do Sul. "O produtor aplicava um hetcare com vírus, um hectare sem nada e um hectare com o produto químico. Depois, fazíamos as comparações de quesitos como desfolha, danos, produtividade, entre outros".

Em princípio, o vírus começou a ser "produzido" manualmente pelo produtor. Ele coletava a lagarta, punha no freezer para congelar. Depois, ela era macerada e o pó resultante era colocado num tanque com água. Em 86, a Embrapa Soja lançou uma formulação em pó, dissolvível em água, já manufaturada. "Foram adicionados inertes e, a partir de um produto moído, passou-se inclusive a ter um programa de controle de qualidade", disse. Há ainda hoje, no entanto, agricultores que preferem manipular seu próprio bioinseticida na sua propriedade.

Mercado

O chamado complexo da soja ocupa o topo da lista das exportações do agronegócio mês a mês. Além do grão, o Brasil vende para outros países farelo e óleo de soja. Só em 2003, a receita de exportações relativa ao complexo da soja rendeu US$ 8,1 bilhões, num acréscimo de 35,2% em relação ao ano anterior, quando as exportações do setor fecharam em US$ 6 bilhões. O complexo foi responsável, assim, por 26,4% do total da pauta de exportações do agronegócio, que, em 2003, atingiu US$ 30,6 bilhões. O segundo item da lista, as carnes, gerou uma receita de exportação de US$ 3,6 bilhões.

São números que mostram a importância estratégica da produtividade agrícola da leguminosa para o país. Cada perda pode refletir-se na balança comercial do agronegócio nacional e, dependendo do montante, pode deslocar o Brasil da condição de maior exportador mundial. O país só perde em produção para os Estados Unidos.

Para Moscardi, o controle biológico pode ser fundamental na obtenção de bons resultados de produtividade. Os primeiros benefícios, com o seqüenciamento do genoma do Baculovírus anticarsia, na sua visão, são da pesquisa básica. "Conhecendo o genoma, será possível avaliar as regiões de importância desse genoma, relativas à especificidade, à virulência, a variantes da geografia do vírus. Enfim, mostrar que porção do genoma está ligada a determinados fatores de atividade dele", avalia o idealizador do programa de controle biológico da lagarta-da-soja.

Na prática, conhecer o genoma, segundo Moscardi, pode significar a manipulação do DNA em benefício da atividade do vírus. Ou seja, mexer na porção exata do genoma responsável pela virulência para que ele mate outras lagartas, por exemplo. Ou ainda para matar a lagarta mais rapidamente. Hoje, uma lagarta pode levar até quatro dias para morrer depois de infectada. "O genoma viral pode até mesmo produzir medicamentos. Veja os exemplos do interferon, proteína usada contra o câncer e da interleucina contra a hepatite", cita o pesquisador.

Ele atribui tanta importância ao seqüenciamento do genoma do baculovírus que, ainda este ano, com sua equipe, enviará projeto ao Programa Nacional de Excelência (Pronex), gerido pelo ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para conseguir recursos e aprofundar as pesquisas sobre o vírus. "A idéia é usar as informações obtidas a partir do seqüenciamento e ampliá-las", revela.

Fonte:Agência Brasil em 29/02/2004


Leia Mais:



SIGA NOS

-->