A CAUSA OCULTA DA CRISE ENERGÉTICA

O país terá que investir na recomposição das regiões devastadas, principalmente as matas ciliares, que protegem os rios e igarapés, os grandes responsáveis pela geração de energia.

O enfoque dado pelos meios de comunicação de massa, em geral, é para mudar o hábito dos brasileiros em relação ao consumo de energia elétrica, visando uma diminuição média no consumo de 20%. Apesar da importância dessa iniciativa, contribuindo para redução do desperdício, que deveria ser incentivado também em outros setores, não se pode deixar de refletir sobre as causas que levaram ao colapso do sistema elétrico brasileiro.

A falta de investimento na geração e distribuição aparece como consenso entre os estudiosos. Para pagar os custos da dívida externa o Brasil consome cerca de 60% de tudo que arrecada. Por isso, vem perdendo , ano após ano, a capacidade de fazer investimento em setores importantes da economia, a exemplo da geração de energia elétrica. Outro motivo apontado é a diminuição do nível dos recursos das hidrelétricas, cujas causas têm sido pouco analisadas.

 

MATAS CILIARES,

 

As hidrelétricas respondem por cerca de 86% da geração de energia elétrica no Brasil. Elas dependem de seus reservatórios d'água para gerar energia que é consumida pelas indústrias e nas residências. Os reservatórios por sua vez, dependem da quantidade de chuvas e, principalmente, do nível dos lençóis freáticos para se manterem. O desmatamento das florestas, sobretudo, no sudeste é uma causa oculta do problema da falta de energia elétrica.

Sem florestas chove menos e a pouca chuva que cai, escoa mais rapidamente para o oceano, causando enchentes durante o período das chuvas e esgotamento dos cursos d'água no período do estiagem. Sem a cobertura vegetal o solo fica mais compactado, impedindo que a água da chuva infiltre para realimentar os reservatórios subterrâneos. São esses depósitos d'água no subsolo que alimentam os rios nos períodos de pouca chuva.

Não basta, portanto, obrigar os brasileiros a gastarem cada vez menos energia, o que poderá causar redução no padrão de qualidade de vida da população. Não é bastante apenas também investir na construção de hidrelétrica como alternativa ao problema energético do país. É preciso implementar políticas no sentido de evitar que a oferta de energia continue a cair. Neste sentido, além de proteger as florestas, o país terá de investir na sua recomposição nas regiões devastadas, principalmente as mata ciliares, que contribuem para proteção dos rios e igarapés, que são os grandes responsáveis pela geração de nossa energia.

 

A NATUREZA REAGE

A falta de energia elétrica no Sudeste é uma alerta para o País, principalmente, para as regiões que ainda têm seus ecossistemas poucas alterados, como a região amazônica. O poder público terá de tomar medidas duras contra os destruidores do meio ambiente. Iniciativas importantes como a companha de reposição das matas ciliares e reservas legais, lançada pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (Fetagro) e diversas entidades da sociedade civil de Rondônia, precisam ser incentivadas e apiadas, como forma de mantermos um padrão digno de vida para nossa geração e as próximas que virão.

Temos que parar de agredir o meio ambiente através de nossas ações, pois "a natureza agredida não reclama, apenas reage", e são reações como essa que causou a diminuição do volume de águas dos lagos das hidrelétricas que devem servir de lição para o povo brasileiro.

De Anselmo de Jesus Abreu - presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (Fetagro), integrante da Campanha SOS Floresta.

fonte: Revista Panorama Rural - ano II, n. 29 - julho de 2001.

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