No Cariri, feiras agroecológicas se multiplicam


Crato. Lá pelas 3 horas da manhã, Maria Ana da Silva, 64, já está de pé, com todos os legumes, frutas, verduras e as galinhas prontas para levar a Sede do Município. Do Assentamento 10 de Abril, sua comunidade, até o Centro são cerca de 24Km, em "carro de linha", percorridos toda sexta-feira, para montar sua barraquinha. Esta é sua rotina há 14 anos, na Feira Agroecológica de Crato.

Esse tipo de feiras tem se multiplicado na região do Cariri. Muitas delas criadas por instituições, como a Associação Cristã de Base (ACB), que, em junho de 2003, fez, da rua de sua sede, uma venda ao ar livre, com alimentos sem uso de agrotóxicos e adubo químico. De lá para cá, muitas outras surgiram em vários municípios e têm impulsionado a renda do pequeno agricultor. "Essa é a mãe de todas as feiras, porque deu certo", afirma Ana da Silva.

Início
Tudo começou quando as mulheres do Assentamento 10 Abril visitavam a ACB para vender seus produtos aos próprios funcionários. Em um balaio grande, juntavam alface, galinha, couve, ovos, abobrinha. "Antes de ter a feira, nós plantávamos, mas não tínhamos como vender. Então, juntava o povo da ACB, oferecia e os próprios sócios compravam. Aí viram a necessidade de uma feira e deu certo", lembra Ana.

Hoje, são mais de 20 feirantes na porta da sede da instituição, de diversas cidades da região. Deste sucesso, em 2014, por meio de projeto patrocinado pela Petrobras, foram criadas mais três feiras pela ACB, em Santana do Cariri, Nova Olinda e Milagres. Todas funcionam semanalmente, aos sábados, nos centros das cidades.

Por semana, apenas Ana da Silva, consegue cerca de R$ 250 com a venda dos produtos. "É uma maravilha porque, quanto mais eu trabalho, mais eu ganho. Dá mais que o aposento", garante a agricultora. As vendas são um sucesso, pois, segundo suas ela, às vezes, 8h da manhã já não tem mais nada para oferecer. "É bem dizer só entregando", completa.

O consumo de produtos orgânicos tem crescido na medida em que estudos mostram que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do Mundo. Cerca de 7 litros por habitante, em média. Com isso, muitos médicos indicam a compra de alimentos sem a presença de químicos e manipulação genética, tanto pelos valores nutritivos, quando pela saúde do consumidor.

É o caso da dona de casa Lurdes Dias, que compra na feira orgânica do Cariri Garden Shopping, em Juazeiro do Norte, toda quarta-feira. Mesmo que faltem verduras, ela não compra nos supermercados. "Tem a segurança que a plantação deles não tem agrotóxico. Hoje, a gente está procurando o que é melhor pra saúde. Na terça-feira à noite, já dá aquele estalo: 'Eita! Amanhã é dia da feira'", brinca.

Segurança
Segundo Juliana Bezerra, engenheira agrônoma e coordenadora do projeto de Agroecologia do Instituto Flor do Piqui, os consumidores desejam um produto mais de seguro. Para ela, é importante que tenham contato com o agricultor porque aumenta a confiança. "O pessoal procura verduras e legumes de um agricultor familiar porque sabem de onde vem. Tem aumentado a consciência da segurança alimentar e nutricional. Por mais que não tenha a clareza, procuram também por questão de dieta", explica.

Por meio de projetos, a Flor do Piqui ajuda a criar e consolidar feiras orgânicas em Abaiara, Brejo Santo e Potengi, todas semanais. No entanto, realiza pontualmente eventos com a venda direta dos agricultores. Todos estes produtores passam por capacitação sobre a comercialização, manuseio dos alimentos e produção sem utilização de químicos. Eles também recebem as barracas e contam com divulgação em rádio, TV e carro de som.

"Um dos problemas da assistência técnica é trabalhar a produção da porteira para dentro. Como a gente trabalha da porteira para fora? Como ele produz e comercializa? Agora, ele assume dois papéis, de agricultor e comerciante. Isso aumenta a autoestima, o agricultor se sente mais seguro, sabe o que vai produzir, pois conhece o mercado, sabe qual é a demanda que vai encontrar", acredita Juliana.

Por trás da venda de alface, tomate, berinjela, tem o envolvimento familiar que ajuda a aumentar a autoestima do agricultor. Não é só dinheiro que deixa Ana da Silva satisfeita nestes 14 anos como feirante. "Eu me sinto tão bem, tão bem. Quando não vou, parece que não teve semana. O dinheiro é bom, mas ver os clientes da gente desde o começo, falando com a gente, desejando uma semana boa, é muito bom. Cria amizade", exalta a agricultora.

Marciel de Oliveira, do sítio Barra de Lajes, em Caririaçu, comercializa legumes, frutas e verduras três vezes por semana. É uma feira na Praça José Geraldo da Cruz, em Juazeiro do Norte, outra na Praça Nossa Senhora de Fátima, em Caririaçu, e, a mais recentemente, do lado de fora do Cariri Garden Shopping.
Edemar Muniz vende na Encosta do Seminário, em Crato, toda quarta-feira à noite; e, no sábado, na quadra da Praça Bicentenário. Ele acredita que as feiras orgânicas trouxeram mais demanda para sua roça. Agora, seus filhos e esposa ajudam na plantação. Antes, ele vendia nos mercados convencionais e na sua comunidade.

A Associação Agroecológica Mãe Natureza conduz as duas feiras de Juazeiro do Norte e outra em Caririaçu. Há 11 anos, mobiliza os produtores e busca mecanismos para ampliar a venda de orgânicos. Após convite do Cariri Garden Shopping, toda manhã de quarta-feira, oito barracas são estacionadas no local.

Enquete
Por que você compra na feira?
"É importante pra gente consumir um produto sem veneno, fortalecer a economia dos pequenos produtores. Muitos vivem disso. É importante fazer com que essa produção aumente, persista, resista e ela exista"

Verônica Isidoro. Professora

"A qualidade desses produtos é muito boa mesmo, bem diferente do que a gente costuma comprar em supermercados, que, inclusive, estragam mais rápido. Esses aqui duram a semana inteira"

Deise Figueiredo. Contadora                        (Diário do Nordeste)

 

Fonte:Gazeta do CAriri em 31-12-2017


Leia Mais:



SIGA NOS