Pequenos agricultores de Cariacica se unem para alavancar produção e vendas de produtos orgânicos


Na região que conta com um dos maiores produtores de banana orgânica do Brasil, a cooperação se tornou solução para a negociação de todos os produtores com a eliminação dos atravessadores

De forma individual, os pequenos agricultores de regiões no interior de Cariacica encontram dificuldade de fechar contratos. Há o temor de faltar produto em determinada época, por exemplo. Desta forma, um grupo de produtores rurais independentes resolveu se unir.

A ideia de compor um grupo que trabalhasse unido, em prol de um objetivo maior, sempre agradou Davi Barcelos, responsável por convidar e convencer os agricultores a aceitarem a proposta de uma cooperativa.

“No começo, foi um trabalho difícil, de convencimento. Foi preciso explicar para os produtores que essa era a melhor forma de trabalho, porque ninguém estava acostumado a trabalhar em conjunto, mas eles logo entenderam que teríamos mais chances de comercializar nossos produtos trabalhando juntos”, explica Davi, que se tornou o primeiro presidente da cooperativa e utiliza uma frase comum do homem do campo para explicar a criação da Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC).

‘Caititu fora do bando vira comida de onça’. Isso significa que não adianta ficar sozinho. É preciso se unir para enfrentar o mercado”

Trabalhando em conjunto, existe a possibilidade de aumentar a produção - o que beneficia a todos - e lucrar também cortando o atravessador (pessoa responsável por fazer a ponte entre produtor rural e empresas que irão comercializar esses produtos) e negociando seus próprios contratos.

Fundada em junho deste ano, a CAFC é uma das primeiras cooperativas alimentícias do município e reúne cerca de 20 agricultores da região de Cariacica-Sede. A produção do grupo é diversa e conta com alimentos como aipim, mamão, abóbora, manga, inhame, alface, couve, cebolinha e banana, que dentre todos esses citados é o mais produzido.

"Antes da cooperativa, tínhamos muita dificuldade em fechar contratos. Para quem vive da terra, um dos grandes temores é não conseguir cumprir o que prometeu, não entregar o produto. Quem vive da terra tem problemas com o solo, com o clima, falta de chuva ... são fatores que influenciam a produção. Através da CAFC, conseguimos ter mais segurança que as mercadorias serão entregues porque é a produção geral que conta e não de uma pessoa só", completa Davi.
Entre os grandes

Cultivada em mais de 17 mil propriedades rurais no Espírito Santo, a bananicultura é uma das atividades mais importantes da agricultura capixaba, gerando mais de 30 mil ocupações em sua cadeia produtiva, segundo o Incaper - Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural.

Apesar de não ser um dos Estados que mais produzem banana no Brasil, o Espírito Santo se destaca no cultivo da banana orgânica e grande parte dos méritos pode ser atribuída a Cimar Antônio da Silva (na foto acima).

Natural de Iconha, no interior do Estado, Cimar reside há 12 anos no distrito de Sabão, aos pés do Moxuara. Desde que se mudou para a Grande Vitória, o agricultor começou a cultivar banana e hoje é um dos maiores produtores da fruta ôrganica em todo o Brasil.

Produzindo uma média de 7,5 mil caixas por mês no período da alta estação, que acontece durante o verão, Cimar vende seus produtos para hortifrutis e supermercados da região, além de repassá-los também para estabelecimentos do Rio de Janeiro e São Paulo.

“Moro em Cariacica há 12 anos e fazem cinco anos que comecei a produzir somente alimentos orgânicos. Não tive a oportunidade e o conhecimento para começar a produção sem agrotóxico antes disso, mas sempre fui contra todos os tipos de veneno. Além de não prejudicar a minha saúde e a dos meus funcionários, os alimentos orgânicos ainda são um pouco mais caros e isso é rentável para nós”, disse Cimar, que trabalha no local com a mulher, o filho mais velho e outros 13 funcionários.

Mesmo produzindo em larga escala e com um mercado fixo de compradores de seus próprios produtos, Cimar foi um dos primeiros adeptos da criação da cooperativa.

“A cooperativa, apesar de nova, pode ser muito benéfica para todos nós. Fiquei satisfeito com a ideia e também consegui incentivar bastante gente para entrar e produzir orgânico. As pessoas têm certa dificuldade para trabalhar em conjunto e a cooperativa tem essa função, de unir, de ajudar todo mundo de forma igual”, completou.

Braço direito do pai e um dos principais responsáveis por observar se todo o processo de cultivo da banana está sendo feito da forma correta, Simão Pedro da Silva (foto acima), de 21 anos, explicou os benefícios e a diferença entre a banana orgânica e a convencional.

Por ser um dos maiores produtores rurais de banana do Brasil, Cimar virou exemplo para diversos outros agricultores, que tomaram o caso dele como inspiração para também começarem a produzir alimentos orgânicos.

Com duas fazendas na região, Sergio Boldi, de 43 anos, revelou que foi após uma visita a propriedade de Cimar que decidiu deixar a produção convencional para se dedicar aos orgânicos.

“Fizemos um dia de campo na propriedade do Cimar. Isso abriu a minha cabeça e a cabeça de diversos outros agricultores para começar a produzir orgânico. Ele começou a conversar com a gente, explicou as diferenças entre os dois tipos de alimento e hoje eu sinto bastante isso também. O agrotóxico prejudica a gente, que está em contato direto com o solo, e também os consumidores”, revelou Boldi, que também faz parte da cooperativa .

O produtor exemplificou uma das complicações do manejo de orgânico, como a técnica que usa para que as bananas comecem o processo de amadurecimento.

“Eu utilizo aqui o método de abafar na lona. É preciso usar uma lona sem furo para não vazar o ar que fica circulando ali embaixo. Depois de 48 horas debaixo da lona as bananas já começam a ‘madurar’ por igual e aí você já pode comercializar”, conta.

Com uma produção muito menor que a de Cimar, Sergio Boldi acredita que a CAFC vai superar as expectativas de seus cooperados em um futuro próximo e muito disso se deve aos contratos e licitações que a cooperativa vem buscando junto a órgãos municipais e estaduais agora que pode contar com um parcela da produção de todos os agricultores.

“Eu estou na expectativa de aumentar ainda mais o lucro para o próximo ano. O Davi já está encaminhando alguns contratos para repassarmos nossos produtos. Além disso, em forma de cooperativa, temos muito mais força para dialogar diretamente com os compradores, evitando assim o atravessador e ficando com essa parte do lucro”, concluiu.
Orgânico

Mesmo tendo sido criada há pouco tempo, um diferencial da cooperativa que a destaca da maioria é a produção de alimentos orgânicos. Dos 20 cooperados atuais, metade produzem somente alimentos sem nenhum tipo de agrotóxico e outros cinco já estão buscando o certificado, o “Selo Chão Vivo”, para serem incluídos na lista.

Além do benefício para a saúde dos consumidores, produzir alimentos orgânicos é vital também para a saúde do cooperado e de seus funcionários, que não são expostos a quantidades enormes de pesticidas.

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), desde 2009 o Brasil ocupa a liderança do ranking de países onde mais se consome agrotóxico no mundo, ultrapassando a marca de 1 milhão de toneladas, o que equivale a um consumo médio de 5,2 quilos de veneno agrícola por habitante.

Além desse alarmante número, a quantidade de doenças que podem ser desenvolvidas por conta do consumo exagerado desses pesticidas também são muitas. Estão entre elas o câncer, o autismo, doença renal, doenças cardíacas e Alzheimer.

“Quem produz alimentos orgânicos precisa cuidar muito bem do solo. Nenhum tipo de agrotóxico pode ser colocado na terra, apenas adubo orgânico. Além dos benefícios para a saúde de quem produz e quem consome, o sabor desses alimentos comparados aos convencionais também são diferentes”, explica Davi.

Fonte: Redação Folha Vitória em 11 de Novembro de 2017 por Denys Lobo & Wing Costa

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