Caranguejo vira adubo

 

Os resíduos provenientes do consumo crescente de caranguejo podem ser transformados em excelente composto orgânico para a agricultura

Uma pesquisa inovadora encontrou utilidade para toneladas de lixo geradas pelo consumo do crustáceo

Quem não gosta de uma bela caranguejada na quinta à noite ou na praia do domingo? Mas será que esses consumidores ávidos por martelar a carapaça do crustáceo para saborear sua carne já deram uma voltinha na Praia do Futuro na segunda-feira ou mesmo na sexta pela manhã? Francisco José Freire de Araújo, biólogo doutorando em Engenharia Hidráulica e Ambiental pela Universidade Federal do Ceará (UFC), o fez ainda na pesquisa do mestrado e, sem se importar com o mau cheiro, aproveitou o excesso de matéria orgânica para desenvolver um composto alternativo.

Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Fortaleza absorve aproximadamente 75 toneladas de caranguejo por mês e seus resíduos vêm causando sérios transtornos, especialmente à população que reside na Praia do Futuro, bairro que já passa por problemas ligados ao gerenciamento de resíduos sólidos, boa parte originária dos estabelecimentos comerciais.

Na pesquisa "Adubo de caranguejo: um produto orgânico alternativo com excelente aplicabilidade na agricultura orgânica", desenvolvida em parceria com sua orientadora, professora Marisete Dantas de Aquino, Freire criou um composto orgânico alternativo a partir de resíduos de caranguejo coletado nas barracas de praia.

Após a produção da farinha orgânica, foram feitas análises físicas e químicas a fim de comparar aos resultados obtidos com amostra de esterco de gado. Dos principais parâmetros analisados na farinha orgânica de caranguejo, destacam-se: nitrogênio, fósforo e magnésio, chegando a ser de duas a quatro vezes superiores ao percentual encontrado na amostra de esterco bovino. Já os percentuais de cálcio para as amostras orgânicas de caranguejo foram mais de vinte vezes superiores aos encontrados no esterco bovino.

Quanto aos micronutrientes, observou-se que os parâmetros de ferro, cobre e manganês para o esterco bovino foram bem superiores em relação aos dois tipos de farinha orgânica de caranguejo; exceto para zinco, que apresentou, para farinha de caranguejo morto, um valor aproximado ao esterco bovino. "Os teores de matéria orgânica mostram-se bastante aproximados dos resultados encontrados para o esterco bovino, o que sugere a boa quantidade desse parâmetro nas amostras que contém caranguejo", ressalta.

Freire acredita que a comunidade precisa tomar conhecimento desse estudo, "uma vez que traz muitos benefícios para o meio ambiente, sobretudo na qualidade de vida das pessoas, principalmente daquelas que dependem de tecnologias baratas para serem aplicadas na agricultura familiar e de subsistência".

Inova 2009

O trabalho foi apresentado no V Seminário de Gestão da Inovação Tecnológica no Nordeste (Inova 2009), promovido pelo Instituto de Desenvolvimento Industrial do Ceará (Indi) até hoje, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), visando aprimorar o conhecimento sobre conceitos, metodologias e experiências sobre inovação tecnológica.

A programação científica da Inova 2009 apresentou aproximadamente 30 trabalhos e projetos científicos com o propósito de impulsionar o setor empresarial da região através da aquisição de conhecimento e de atualização com os novos modelos de gestão de processos e produção, criando oportunidades e expandindo negócios.

Participaram do evento empresários, executivos e técnicos de empresas de pequeno, médio e grande porte, pesquisadores e estudantes divulgando, discutindo e aprofundando novas abordagens e práticas a serem enfrentadas com a utilização da inovação tecnológica.

Para o diretor corporativo do Indi, Jurandir Picanço, a inserção do Brasil e, em especial, do Nordeste, no novo contexto econômico internacional depende da decisão do empresariado em transformar a gestão da inovação em prioridade do negócio. Segundo o manifesto "Inovação: a Construção do futuro", da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o governo brasileiro já mostrou preocupação com inovação por parte do setor empresarial, incorporando-a às políticas públicas, com os fundos setoriais, legislação para inovação, política de desenvolvimento produtivo e plano de ação em ciência e tecnologia.

Ainda de acordo com a CNI, hoje, cerca de seis mil empresas brasileiras fazem pesquisas e cerca de 30 mil declaram inovar em produtos e processos. A meta é duplicar o número de empresas inovadoras em quatro anos. "A instituição que não inova acaba desaparecendo no mercado. Muitas fazem isso sem planejamento, outras não têm tempo para pensar em inovação", ressalta Picanço. Um dos méritos do Inova 2009 foi contribuir ampliar a competitividade nas empresas e para aproximar fornecedores, fomentadores e pesquisadores de tecnologias do seu público alvo.

Fonte:Diárido do Nordeste por Maristema CRispim em 23.09.2009


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