O cacau, a Mata Atlântica e o Protocolo de Kyoto

 

Eduardo Athayde

Buscar resolver os problemas da cacauicultura apenas com programas oficiais de financiamento, sem procurar compreender as forças envolvidas na economia internacional do chocolate, os benefícios da biotecnologia e o seqüestro de carbono, previsto no Protocolo de Kyoto – que acaba de receber o apoio da união Européia – é perda de oportunidade, tempo e dinheiro.

As áreas plantadas de cacau são "Fazendas de Chocolate", elas podem ajudar a preservar e a reflorestar a Mata Atlântica, gerando emprego e renda, atraindo a força dos US$ 60 bilhões/ano, movimentados pela economia do chocolate e a do mercado mundial de carbono, estimado em US$ 90 bilhões.

O artigo "O chocolate pode ajudar a preservar a floresta" publicado pelo WWI - Worldwatch Institute, no final do ano passado, em Washington, desencadeou uma série de reportagens na imprensa internacional e está trazendo ao Brasil a TV National Geographic, para um documentário sobre o assunto. O WWI é uma das mais respeitadas instituições internacionais de pesquisa e referência para governos, empresas e universidades em todo o mundo.

A visão econológica (socio-econômica-ecológica integrada) aplicada à produção do cacau ajuda a montar a equação da eco-economia, base para o desenvolvimento sustentável. Nesta noção ampliada de "negócios", tanto o cacau quanto as outras espécies da mata produzem resultados paupáveis desde a sua plantação, capturando o gás carbônico da atmosfera, através da fotossíntese, transformando-o em tronco (biomassa).

O segmento do cacau orgânico, que ainda produz tímidas 6.000 ton/ano, também poderá agregar os valores dos créditos de carbono à área plantada de cacau e mata, aumentando a sua rentabilidade. Iniciativas pioneiras já estão realizadas em todo o mundo. Localmente, projetos do Iesb – Instituto Sócio Ambiental da Bahia, sediado em Ilhéus, formam embriões desses potenciais negócios no sul do Estado.

Globalmente, o roqueiro Pink Floyd, está plantando florestas em quatro países diferentes, para compensar as emissões de carbono produzidas na fabricação do seu CD Echoes. Boa dica para que os acordes de Gil, Caetano, Durval, Guilherme Arantes e tantos outros vibrem mais com a "ecomusic", atraindo a indústria fonográfica internacional, visando a preservação da Mata Atlântica.

Agregando competência à ação local, pesquisa do genoma do fungo causador da vassoura-de-bruxa é desenvolvida pela Uesc – Universidade de Santa Cruz em parceria com a Unicamp, Ceplac e CNPq. Equipe chefiada pelos professores Gonçalo Pereira e Júlio Cascardo, PhDs na área, busca entender a biologia do fungo para orientar estratégias de controle, colocando a ciência a serviço do homem; enquanto a indústria – liderada localmente pela a gigante MARS, fabricante do confete de chocolate M&M, e o ACRI (American Cocoa Research Institute), braço internacional de pesquisa da poderosa indústria chocolateira, sediado nos EUA – se debruça no esforço para desenhar um modelo de cacau sustentável.

A UESC, o CRA e o ACRI podem unir esforços e ampliar as suas competências abraçando a visão econológica, explorando as potencialidades da biotecnologia num Centro de Culturas Sustentáveis da Mata Atlântica, onde o cacau se inclui. A indústria do chocolate, que já usa como recheio dos seus produtos o coco e o café, pode também usar, dentre outros, a jaca e a cajá, e ainda, atrair os investimentos chamados forest-friendly (amigos das florestas), vertiginosamente crescentes, preservando as fazendas de chocolate e alavancando o reflorestamento da Mata Atlântica, com ajuda de pequenos e simples negócios montados por gente local, para plantar e comercializar sementes e mudas da mata, apoiados pelo Sebrae.

Gerando conhecimento, emprego e renda; combinando expansão econômica com promoção social e preservação ambiental, fecha-se o ciclo inteligente da sustentabilidade, e, embalados pela música, podemos devolver à sociedade a sua mata e o carbono em forma de chocolate.


Eduardo Athayde é administrador, pesquisador, diretor da UMA – Universidade Livre da Mata Atlântica e do WWI - Wordwatch Institute no Brasil. www.wwiuma.org.br

Fonte: Jornal A Tarde - Quinta-feira, 25 de abril de 2002


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