São Paulo produzirá banana e palmito com biossólido

 

São Paulo, 16 - A “popular” banana e o “nobre” palmito podem passar a ser produzidos, dentro de pouco tempo, a partir de plantas cultivadas com o uso de material orgânico retirado de resíduos de esgoto. Este composto, transformado em um tipo de biossólido polido como alternativa em substituição aos fertilizantes tradicionais, não é nenhuma novidade na agricultura, mas, o seu emprego, por enquanto, é restrito a determinadas espécies vegetais.

Esta semana começaram a ser colhidos os primeiros frutos das bananeiras que são cultivadas na Fazenda Experimental do Instituto Agrícola de Campinas (IAC), em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo. A plantação é uma fase de testes do projeto “Uso Agrícola de Biossólido”, desenvolvido, desde o final de 2001, em parceira entre o IAC e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Uma outra etapa da pesquisa se realiza na Estação Experimental, em Ubatuba, no Litoral Norte, onde é monitorada a lavoura de pupunha para a retirada do palmito.

Antes que se instale qualquer mal estar ou o sentimento de desconfiança quanto a pureza dos alimentos resultantes dessa nova técnica, o pesquisador do IAC, Ronaldo Berton, responsável pela coordenação do trabalho em campo, esclarece que "o procedimento da reciclagem no tratamento do esgoto ocorre de forma a se garantir a neutralidade na ação de patógenos que pudessem representar riscos à saúde humana". Além disso, ele garante que "é feito um ataque aos metais pesados como cádmium, niquel e chumbo ao mesmo tempo em que se busca os elementos essenciais às plantas, principalmente, o nitrogênio e o fósforo.

Há, ainda, um terceiro aspecto revelante que é a lixiviação. Para evitar que o lençol freático seja poluido, uma das normas estabelecidas pela legislação que regula o uso do biossólido é justamente sobre a quantidade de aplicação do nitrogênio no solo, limitada a 420 miligramas por quilo em peso seco. Berton observa ainda que “o emprego do biossólido na agricultura constitui-se numa alternativa para a reciclagem desse material (lodo tratado), pois de um lado melhora alguns atributos químico e físico e os processos biológicos do solo, e de outro contribui para aliviar a carga e aumentar a vida útil dos aterros sanitários, cada vez mais difíceis de serem criados e mantidos na periferia das metrópoles e das cidades litâneas”

O biossólido é um material que tem 60% de matéria orgânica, 7% de nitrogênio, 1,5% de fósforo e 0,2% de enxofre. Contém ainda micronutrientes como cobre, zinco, boro, mobilidênio, manganês e cloro. Produzido nas Estações de Tratamento de Esgotos (Etes) da Sabesp, é o resultado do lodo devidamente higienizado e com baixo teor em metais pesados que se extrai do tratamento biológico de esgotos sanitários e industrial. No caso dessa pesquisa refere-se, basicamente, ao tratamento de esgoto doméstico, que é coletado e encaminhado até as estações de tratamento. Os dejetos passam por um processo de separação da parte sólida (lodo) do líquido. O lodo vai para os tanques digestores onde passa por um processo biológico denominado “digestão”, que reduz os organismos da matéria orgânica, transformando-a em substâncias mais simples, que contém elementos indispensáveis ao crescimento de vegetais (carbono, nitrogênio e fósforo).

O esgoto doméstico, constituído, essencialmente, de água e matéria orgânica, suspensa ou dissolvida no meio líquido, quando lançado nos rios consome o oxigênio da água, “matando” o rio, peixes e outras espécies. A matéria orgânica é o alimento para microorganismos (bactérias, algas, etc). Quando há excesso de alimento (matéria orgânica), os microorganismos se reproduzem. O oxigênio que necessitam para o seu metabolismo é retirado da água do rio. “O chamado lodo, resultante do tratamento, não se trata, portanto, simplesmente, de resíduos de esgoto, mas de uma massa viva de microorganismos”,esclarece Rui Cesár Bueno, gerente do Setor de Tratamento de Esgotos de Franca (SP), que foi a primeira unidade a receber do Ministério de Abastecimento e Agricultura, o certificado de “Estabelecimento Produtor de Insumo Agrícola”.

Lá nasceu, em 1999, o “Sabesfértil”, nome atribuído ao biossólido desenvolvido pela Sabesp em parceria com o setor acadêmico de universidades do interior paulista. Partindo de etapas já processadas por outras unidades da empresa, na década de 80, com aplicações no plantio de eucalípto, os pesquisadores de Franca correram “em busca de uma utilização nobre”, conta Bueno. Ele observa que uma vez tratado, o produto quase não apresenta metais pesados ou, se tem, a quantidade é muito baixa, mil vezes inferior ao estabelecido pela legislação estadual que disciplina o uso como condicionador do solo.

Os primeiros testes foram realizados no cultivo do milho, eucalípto e café com a participação dos campus de Jaboticabal da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), em Piracicaba, e Embrapa. Em 1999, o fertilizante gerado passou a ser aplicado basicamente nas culturas do café e do milho, tendo sido testadas em sorgo, cana-de-açúcar e eucalípto. Mais recentemente, começou a ser experimentado em citros com o acompanhamento de resultados em lavouras de laranja, sob coordenação da Unesp. O seu aproveitamento, porém, não é recomendável em produtos que são consumidos crus ou de contato direto com o solo como batata, cenoura e hortaliças. Já em plantações de árvores que servem de matéria-prima para as fábricas de papel, sua eficácia tem sido comprovada. As espécies crescem mais rápido.

Há ainda outras aplicabilidades para o lodo entre as quais está a construção civil (no caso do produto derivado do tratamento de água) com a transformação em matéria-prima para a produção de material cerâmico como tijolos. Seu objetivo é reduzir o impacto ambiental na extração de argila para cerâmica simultaneamente à destinação ambientalmente correta do lodo das Etas.

No caso das banananeiras e pupunheiras, se os testes forem aprovados, os agricultores, em sua maioria de pequeno porte, das regiões do Vale do Ribeira, Litoral Sul e Norte, poderão receber gratuitamente o insumo, informa o técnico de empreendimentos da vice-presidência da Sabesp, no Litoral, Ricardo Oliveira. Nestas áreas, que vão da divisa de São Paulo com o Paraná até os pontos fronteiriços com o Rio de Janeiro, existem cerca de 100 milhões de pés de banana e 20 milhões de pés de pupunha, observa Oliveira. Além dos benefícios para o meio ambiente, Oliveira aponta a vantagem em relação a outros adubos orgânicos: “é 4,5 vezes mais rico do que o esterco retirado de curral e tem mais nutrientes do que as sobras de camas poedeiras”. Enumera ainda que o insumo ajuda na fixação de nutrientes, na porosidade do solo e evita a erosão. Com o seu potencial de mineralização, mantém o solo nitrogenado por mais tempo.

Ele lembra que há milênios já se aplica a mesma técnica na Ásia e é uma prática também seguida em várias outras partes do mundo como Estados Unidos, Inglaterra, e Austrália. Antes de ser utilizado com essa finalidade, porém, o biossólido passa por uma checagem para verificar se em sua composição não há susbtâncias e microorganismos em quantidades elevadas que possam vir a prejudicar o solo e os aquíferos subterrâneos e se não atende as especificações necessárias, é dispoto em aterros sanitários.

De acordo com Bueno, o maior índice de utilização ocorre na França, onde de um total de 502 mil toneladas/ano produzidos, 58% são destinados para fins agrícolas. Mas a maior quantidade é registrada nos Estados Unidos. Os americanos aplicam 55% relativos a uma produção de 3,8 milhões de toneladas/ano. Os demais estão assim distribuídos: Dinamarca - 54% (92 mil toneladas), Espanha – 50% (175 mil ton), Reino Unido - 44% (488 mil ton), Alemanha - 27% (724 mil) e Bélgica - 29% (17.200 ton). No Brasil, em virtude do pequeno número de estações de tratamento de esgotos, esta forma de reciclagem vem sendo aplicada apenas em Brasília, no Paraná e, mais recentemente, em Franca, e agora, na fase experimental da região do Vale do Ribeira e Litoral paulista.

De acordo com a Sabesp, os estudos preliminares já indicam para a viabilidade do uso do lodo como adubo. Nas análises, serão avaliadas as alterações na fertilidade do solo, a qualidade dos frutos e a produção. A companhia não informa o montante investido no empreendimento, mas diz que a expectativa é que ainda neste ano seja publicado o edital de licitação das obras de saneamento básico que serão custeadas pelo empréstimo de US$ 150 milhões do Japan Bank International Cooperation (JBIC), aprovado em maio último. Com uma contrapartida de US$ 100 milhões, toda verba será investida em obras de saneamento básico na Baixada Santista.

Nos dias 26 e 27 de setembro, haverá uma reunião técnica sobre o uso agrícola de biossólido em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. (Marli Moreira)


fonte: Radiobrás (Agência Brasil - ABr)


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