Biodiesel leva energia elétrica para zona rural

Fiat Lux... Faça-se a luz! E graças ao biodiesel extraído da mamona, a isolada comunidade de Serrinha de Santa Maria, composta por 27 famílias, pode agora contar com as facilidades e possibilidades da energia elétrica. O biodiesel é produzido em uma usina experimental localizada na Fazenda Normal, em Quixeramobim.

O povoado está localizado em um pequeno vale, escondido por serras, no sertão de Quixeramobim. Partindo da terra de Antônio Conselheiro, são 24 quilômetros de asfalto, mais 26 quilômetros morro acima, trafegando numa precária estrada carroçável. Pela primeira vez na história da comunidade, eletrodomésticos como geladeiras e televisões começam a fazer parte do cotidiano das famílias.

O isolamento favoreceu os casamentos entre primos, de tal maneira que praticamente todas as famílias tem laços de parentesco entre si. Com o advento da energia elétrica, os laços foram estreitados, e começam a surgir parcerias econômicas. Dona Maria Lúcia faz seus planos. “Me junto A ISOLADA COMUNIDADE de Serrinha de Santa Maria, em Quixeramobim, vivencia, agora, as facilidades de ter luz e eletrodomésticos em casaei com mais cinco colegas, e estamos iniciando uma criação de galinhas caipiras, e de ovos também. A galinha caipira, que antes só o povo da roça consumia, hoje está sendo valorizada na cidade. Com a energia, poderemos aumentar a produção”.

Francisco Odilon, filho de dona Maria Lúcia, tem pretensões similares. “Eu lido com gado, e estou me associando com os vaqueiros daqui para comprarmos um motor movido a energia elétrica. Aqui no alto da serra existem vários olhos dágua, podemos ter capim boa parte do ano, e com a máquina poderemos fazer silagem para os animais. Temos um motor movido a combustível, mas os gastos e a manutenção são proibitivos”, explica.

Mas nem só o trabalho povoa a mente de Odilon. O jovem cresceu se divertindo com os folguedos do bumba-meu-boi. Seu pai era o “caboclo”, na festa folclórica. “Infelizmente, o boi foi morrendo. Agora, com a luz, fazemos duas “animações” mensais, festas movidas a forró. No forró surgiu a idéia de reativarmos a tradição do bumba-meu-boi”. “As crianças daqui não conhecem o boi. Pretendemos reaviva-lo, isso une a comunidade”, afirma dona Maria. “Precisamos de recursos da Secretaria de Cultura de Quixeramobim para confeccionarmos as fantasias do boi e para comprar uma sanfona para nossas animações. Às vezes as festas são canceladas porque não conseguimos emprestado o instrumento”, completa Francisco Odilon.

A luz traz consigo o lazer, certamente. “Agora tá cheio de televisão aqui, é ‘os homens’ assistindo futebol, e as mulheres assistindo novela e fofocando depois”, conta o aposentado Edmilson Pereira Duarte. “Para mim, o mais importante foi aposentar a lamparina. Aquela fuligem incomodava demais os meus olhos e pulmões”.

Para o almoço, a família Silva e os líderes comunitários mostram-se receptivos com os visitantes. Mesa farta de comidas caseiras de encher os olhos. Arroz, fava que foi plantada por ali mesmo, ovos de galinha caipira, e tilápia frita, pescada no açude da comunidade.

A comunidade de Serrinha está sendo uma das primeiras a conhecer as vantagens do biodiesel. O produto está na pauta de prioridades do governo federal. Em sua última audiência concedida sobre o tema, o presidente Luís Inácio Lula da Silva declarou que o Programa Nacional do Biodiesel tem endereço preferencial para as regiões semi-áridas. Também declarou que depositava nas lavouras familiares de mamona uma rara opção de desenvolvimento.

“Claridão” aumentou as vendas

Antônio Adalberto da Silva é o proprietário da única bodega da comunidade. “A claridão atraiu mais gente para comprar aqui. As animações aumentaram minhas vendas. Eu tenho uma geladeira a gás de cozinha, mas um botijão custa 30 e muitos reais. Com a luz, economizo e lucro um pouco mais”.

A professora de ensino fundamental, Cristina da Silva, ganhou um período extra para desenvolver suas atividades pedagógicas. “Tenho mais tempo para cuidar da casa durante o dia, e preparar aulas e corrigir provas à noite”, diz. “E eu posso fazer a lição de casa depois da novela”, exclama sua aluna, Rose da Silva Farias.

Antônio da Silva e Davi da Silva, irmãos de Adalberto e Cristina, são os responsáveis pelo funcionamento do gerador de energia elétrica. Cada 12 litros de biodiesel de mamona garantem três horas e meia de luz para as famílias. O gerador é ligado às 17h30min, e desligado às 21 horas.

E esse é justamente o problema. Todos os moradores almejam, evidentemente, contar com a energia durante as 24 horas do dia. Mas a produção de biodiesel da usina recentemente inaugurada na Fazenda Normal ainda não é suficiente para tanto. “Em 2005, aumentaremos a área de plantio de mamona, atualmente de 70 hectares, para 200 hectares”, explica o funcionário da usina, Rogério Mesquita Saldanha. “E o pessoal da comunidade vai plantar mamona consorciada com milho e feijão”, garante Antônio da Silva.

O biodiesel é transportado semanalmente, da Fazenda Normal para Serrinha de Santa Maria. Durante o inverno, porém, a situação da estrada de terra piora sensivelmente, aumentando o risco de acidentes. O próprio ato do transporte do biodiesel é questionável, pois implica poluição atmosférica. Em uma situação ideal, o gerador seria instalado ao lado da usina, e a energia seria repassada à comunidade via fiação elétrica. Mesmo assim, são inquestionáveis os benefícios trazidos pela luz aos moradores.

fonte: Diário do Nordeste em 10/11/2004 por Fábio Angeoletto

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