Estado fabricará óleo de mamona

Usina em Pesqueira produzirá biodiesel a parir de fevereiro de 2006 em área de mil metros quadrados

Tatiana Nascimento

DA EQUIPE DO DIARIO

O serviço de iluminação pública do Recife, inaugurado em 1822, utilizava o óleo de mamona como combustível. O produto, extraído da popular carrapateira, alimentou os lampiões das calçadas da capital pernambucana até 1857. Quase 150 anos depois, o óleo de mamona será usado no Estado para produzir biodiesel. A primeira fábrica com financiamento público do País começa a funcionar em Pesqueira em fevereiro de 2006. Segundo o prefeito, João Eudes Machado Tenório, os recursos já estão na conta corrente do município. O Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) liberou cerca de R$ 1,1 milhão.

A reforma do prédio onde funcionará a fábrica, às margens da BR-232, começa dentro de 30 dias. As instalações foram arrendadas pela prefeitura por um período de 20 anos e têm mil metros quadrados de área construída. "Num primeiro momento, a usina vai gerar 2,5 mil ocupações", diz Tenório. A unidade de esmagamento da mamona para a produção do óleo ficará pronta até dezembro. Já a planta de fabricação do biodiesel demora um poucomais. A prefeitura está conversando com a TecBio, empresa que detém a tecnologia e comercializa unidades de produção.

A primeira etapa da fábrica prevê a produção de 75 mil litros de biodiesel mensais. Mas o prefeito está negociando com a TecBio uma unidade com o dobro da capacidade. "Também estamos buscando convênios com instituições para termos o controle de qualidade", diz João Eudes Tenório. Outra idéia do é transformar a fábrica em estatal comercial.

O Ministério de Ciência e Tecnologia também tem planos para outras duas unidades de produção de biodiesel no Estado. Existe um projeto piloto com recursos previstos de R$ 800 mil para uma fábrica em Caetés. O dinheiro para a instalação da planta sairá dos fundos setoriais de Petróleo e Gás e de Energia. Para a coordenadora técnica do Programa de Biodiesel de Pernambuco, Ana Rita Drummond, a entrada em operação das fábricas servirá para animar ainda mais os produtores de mamona do Estado.

Consumo - Pernambuco é o segundo maior consumidor de óleo dieseldo Nordeste, atrás da Bahia. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biodiesel (ANP), o Estado consumiu 801,4 milhões de litros do produto em 2004. Para garantir por conta própria a mistura de 2% a partir de 2008, determinada pelo Governo federal, Pernambuco precisa fabricar 16,05 milhões de litros de biodiesel.

Quinta e sexta-feira passadas, a coordenadora do Probiodiesel-PE participou de reuniões no Rio de Janeiro com representantes do MCT. O Governo federal destinou cerca de R$ 16 milhões para os trabalhos da área de biodiesel em todos os estados até o primeiro semestre de 2005. Há mais de 50 instituições envolvidas em 27 projetos de pesquisa.

Estado já tem infra-estrutura

Pernambuco já tem estrutura para produção de óleo de mamona. As fábricas, localizadas nos municípios de em Araripina e Petrolina, estão desativadas há mais de dez anos. Poderiam ser adaptadas para a fabricação de biodiesel. Os responsáveis pelos empreendimentos dizem que aguardam apenas que a produção de mamona atinja níveis mínimos, garantindo o fornecimento contínuo da matéria-prima, para reativar as máquinas. Se as duas unidades voltassem a produzir com força máxima, teriam capacidade para fabricar, juntas, cerca de 150 mil litros de óleo todos os dias.

A Icoasa, instalada em Araripina, tem capacidade para processar 120 toneladas de bagas por dia, produzindo 50 mil litros de óleo. Segundo o diretor-presidente da empresa, Onofre Lacerda, são necessários R$ 300 mil para colocar a fábrica para funcionar outra vez. Ele não fala em pedir financiamento. Inaugurada em 1970, a unidade passou por ampliação em 1985, ganhando até um equipamento para biodiesel. Naquela época, a fábrica operava com capacidade máxima e absorvia 120 empregados. Chegava a movimentar R$ 30 milhões na região e registrar um faturamento de R$ 54 milhões.

"Estamos parados desde 1992 por falta de matéria-prima. Chegamos a ser o 5º exportador brasileiro de óleo tipo 1", conta Lacerda. Pouco antes de paralisar as atividades, a Icoasa processava apenas 30% do que poderia. Para o diretor-presidente da empresa, seriam necessários 12 hectares de mamona plantados na região para viabilizar a fábrica. Segundo ele, hoje, a implantação de uma planta do porte da Icoasa, que tem 16 mil metros de área construída, demandaria um investimento de pelo menos R$ 45 mi. Em Petrolina, a Inove, parada há 12 anos, pode produzir 100 mil litros/dia.

A reativação da fábrica está orçada em R$ 800 mil. O gerente industrial da empresa, José Arantes, conta que o biodiesel não é muita novidade por lá. No início da década de 80, o óleo da mamona foi utilizado na frota de caminhões da Inove, que também desenvolveu um processo de desintoxicação da torta de mamona. Ainda segundo Arantes, 600 pessoas trabalhavam na empresa no auge da produção de óleo. Atualmente, a Inove, que tem área construída de 40 mil metros quadrados, arrenda parte da fábrica para a Caramuru Alimentos, com sede em Goiás, para o processamento de soja.

Indústria quer usar resíduos

Não basta produzir o biodiesel. É preciso aproveitar os resíduos ou, como são chamados hoje, co-produtos. Instituições do Estado vêm recebendo recursos para desenvolver pesquisas na área. Muitos desses trabalhos são realizados pelos pesquisadores da UPE e da UFPE. No Laboratório de Combustíveis e Energia da UPE (Policom), a equipe trabalha com projetos de desintoxicação da torta da mamona (pasta que sobra do esmagamento) e com a fabricação de briquetes a partir da casca da mamona e da torta.

"Estamos analisando o teor energético dos produtos", conta o professor e coordenador do laboratório, Sérgio Peres. Segundo ele, os dois projetos estão orçados em R$ 120 mil. O Policom está em processo de aquisição dos equipamentos. Na UFPE, os pesquisadores trabalham na fabricação de biodiesel não só com o óleo de mamona, mas também com o óleo de algodão e a gordura animal (sebo bovino). Há ainda um projeto, em parceria com a Petrobras, para a fabricação de lubrificantes biodegradáveis.

Sérgio Peres, do Policom, dizque existem outros quatro projetos em análise na Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep) e no CNPq. Um deles prevê testes com biodiesel em motores e geradores. Será usado desde o B2 (mistura de 2% de biodiesel) até o B100 (100% de biodiesel). Os pesquisadores estão em busca de parceiros, empresas dispostas a utilizar a mistura. Na Alemanha, país com maior uso do combustível alternativo, existem mais de mil postos oferecendo até B100.

fonte: Diário de Pernambuco, em 01/08/05

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