Biológicos: levar o consumo a todos


Já não é propriamente uma novidade. Mais do que uma moda, uma tendência, ou um conceito, estudos recentes demonstram que o consumo de produtos biológicos veio para ficar, tem crescido e levado a novas apostas, tanto da parte da Distribuição, como da Produção. Mais oferta, preços mais acessíveis permitem democratizar o consumo e alargar a escolha dos consumidores. É que no final, é sempre deles a escolha.

Um estudo publicado em fevereiro pela Marktest veio dar força a uma das tendências na Grande Distribuição e no Retalho: os produtos biológicos. Segundo a consultora, são as mulheres a ocupar a maior fatia no que respeita à preocupação com a aquisição destes produtos. Através da análise de comportamentos e consumos feita através do estudo Target Group Index (TGI), “47,7% dos portugueses têm em consideração a compra de produtos biológicos. Destes, 57,7% são mulheres e 42,3% são homens”. Fonte da consultora refere que “as mulheres têm tendencialmente mais preocupações com a sua saúde/dieta e a saúde da sua família, tentando dedicar uma maior atenção aos alimentos verdes e produzidos sem químicos artificiais, começando a procurá-los e comprando-os sempre que possível”.

Por ordem de preferência, e no que respeita ao retalho alimentar, os alimentos mais procurados são: “os animais criados ao ar livre (50%), os produtos dos produtores/agricultores (47,8%), os frutos e vegetais orgânicos (47,2%) e os produtos à venda em pequenos mercados (35,8%). Verifica-se também uma elevada procura (35,6%) da comida com benefícios para a saúde (probioticos, ómega 3, etc)”.

Mas quem é afinal o consumidor BIO? Caracteriza-se por ser “um target marcadamente feminino, com 45 ou mais anos de idade, que se preocupa em reciclar e em ter um estilo de vida saudável. São consumidores tendencialmente casados, possuem smartphone, utilizam a Internet, gostam de ir ao cinema e consultar as redes sociais. Em termos de hábitos, assistimos a um perfil de consumidor que demonstra ter interesse em atividades de tempos livres como a prática de caminhada (66,7%), ler (52,2%) e ouvir música (48,4%). São indivíduos orientados para a família, colocando-a como prioridade máxima, gostam também de otimizar o seu tempo e de estar a par das novas tendências”, acrescenta fonte da Marktest. O conceito de consumidor Bio teve por base alguns critérios para esta análise: “procura comprar carne orgânica, frutos e vegetais orgânicos, procura animais criados ao ar livre, produtos diários orgânicos, produtos de pequenos produtores e agricultores e outros produtos orgânicos. Quando compra produtos de alimentação tem em conta as preocupações como a sua nutrição / dieta. Estaremos atentos no futuro, de modo a poder avaliar o crescimento e tendências de consumo e hábitos deste target”, promete a consultora.

O TGI assume-se como um dos maiores estudos mundiais sobre consumo tendo realizado 5000 entrevistas, no ano de 2016”. Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa dos Nutricionistas (APN) revelou à DISTRIBUIÇÃO HOJE as conclusões de estudos semelhantes realizados noutros países que indicam que “as mulheres entre os 30-45 anos, com filhos, com maior escolaridade, maior poder de compra, hábitos alimentares saudáveis e de exercício físico integram os principais consumidores destes produtos, motivados por questões ambientais, éticas e de saúde.  Além destas razões, a disponibilidade dos alimentos biológicos nessas regiões é fundamental para motivar o consumo dos mesmos. Na análise destes resultados da Marktest é fundamental que sejam devidamente clarificadas as características do estudo, os aspetos socieoeconómicos, alimentares e de estilo de vida da amostra para que sejam estruturadas conclusões mais fundamentadas. Contudo, acredito que vão de encontro aos dados dos estudos realizados no estrangeiro”. A responsável chama à atenção para um outro estudo, de março deste ano, nomeadamente o Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física que indica que “11,6% da população adulta nacional consome produtos de agricultura biológica (com certificação), sendo os idosos os que menos consomem este tipo de produtos.  De entre os produtos biológicos mais consumidos diariamente destacam-se os produtos hortícolas e a fruta orgânica”.

Os resultados destes estudos mais recentes não foram surpreendentes para algumas insígnias conceituadas em Portugal. Segundo algumas fontes do El Corte Inglés, já havia uma oferta de produtos biológicos atrativa e diversificada. “Contudo, o aumento da procura de alimentos saudáveis, de várias famílias de produtos, levou-nos a repensar o conceito até então existente, criando há cerca de um ano uma área exclusivamente dedicada a produtos biológicos, que apelidámos de Bio & Natural”. O perfil de consumidor da insígnia é caracterizado por clientes que se preocupam com o seu bem-estar, com um estilo de vida são, com uma alimentação equilibrada e saudável, e que também têm preocupações ao nível do meio ambiente.

Para Luís Marques, Head of Healthy Nutrition da Sonae MC, a empresa identificou a democratização da nutrição biológica e saudável como “uma missão para melhorar a vida das pessoas. Parte desta missão prevê a promoção de alimentos biológicos e saudáveis, a resposta a necessidades nutricionais específicas, o desenvolvimento de produtos saudáveis com sabor e a garantia de preços baixos”.

O Continente tem vindo assim a alargar os espaços especializados em alimentação saudável, nomeadamente, através da abertura do primeiro supermercado especializado Go Natural (ver caixa), mas, também, diversificando a gama de produtos saudáveis e biológicos nos seus hipermercados. “No fundo, temos procurado responder ao crescente interesse por alimentação saudável, oferecendo uma ampla variedade de produtos com elevada qualidade, simplicidade e transparência na comunicação, serviço qualificado e preços acessíveis”, afirma.

Também os consumidores do Continente estão preocupados com um estilo de vida saudável mas “sem abdicar do sabor. Gostam de dirigir-se a um espaço conveniente, onde encontram uma vasta oferta de produtos saudáveis, biológicos e dietéticos”.

A Auchan procura acompanhar as novas tendências, indo de encontro às necessidades dos clientes. “Procuramos perceber junto do cliente, se temos a oferta certa em todas as nossas lojas e mercados, e até onde mais devemos de ir. Um consumo mais responsável dos nossos clientes tem sido uma aposta do nosso comércio, quer por via de campanhas ou exposição de artigos biológicos em loja ou pela oferta de produtos mais responsáveis, em especial na marca própria”, explica Mónica Vaz, diretora de oferta da Auchan. No total, a insígnia oferece 628 produtos biológicos, em gama permanente, representando um crescimento de 21% em relação ao ano anterior.

Sandra Perestrello e Nuno Heleno são fundadores e sócios da VillaBio, um supermercado biológico localizado no Restelo e inaugurado no final do ano de 2015 e consideram que a tendência que se verifica em Portugal acompanha outros países do mundo, especialmente, da Europa. “Existe cada vez mais a consciencialização de que a alimentação é a base para um estilo de vida saudável e que é inquestionavelmente a melhor forma de combater inúmeras doenças. E nesse aspeto, o poder do biológico não deixa margem para dúvidas, já que há uma preservação muito mais eficaz dos nutrientes, por via da não aplicação de agroquímicos. Para esta tendência contribui também e obviamente a disseminação da informação sobre todos estes benefícios, acessível hoje em dia à esmagadora maioria da população”, defendem.

E se no caso do El Corte Inglés, a meta é a de continuar a crescer “à semelhança de anos anteriores devido ao facto de esta área ter um peso bastante significativo no supermercado”, já no caso da Sonae MC, “apesar de se verificar uma crescente procura dos portugueses por produtos biológicos e saudáveis, a percentagem de vendas ainda não é muito significativa, ou seja, representa o equivalente à área que estes produtos ocupam nas lojas Continente”.

Democratizar o consumo

A questão não é nova. O preço dos produtos biológicos, tendencialmente mais elevado, pode ser um entrave ao consumo? Existirão clientes com preocupações ao nível dos estilos de vida saudáveis que gostariam de aceder a produtos biológicos e não conseguem por falta de poder económico? Na generalidade, os responsáveis das insígnias consideram que atualmente há a preocupação em democratizar o consumo. “Apresentamos diversos artigos com preços igualmente variados. Por outro lado, o facto de haver mais procura e mais consumo resulta evidentemente num decréscimo dos preços dos produtos. Note-se também que o tipo de consumidor que está a crescer nesta área é alguém que privilegia a qualidade em detrimento do valor”, explicam fontes do El Corte Inglés.

Um dos objetivos da Sonae MC na promoção de alimentos biológicos e saudáveis “é a garantia de preços baixos”, defende Luís Marques. Para tal, tem vindo a desenvolver iniciativas para incentivar a produção nacional (por exemplo, através do Clube de Produtores Continente) e irá continuar a trabalhar com “produtores e fornecedores nacionais, no sentido de garantir aos clientes qualidade aos melhores preços”.

Mónica Vaz sublinha que o trabalho da Auchan vai no sentido de democratizar o consumo e tornar o preço mais próximo possível do standard. “Temos inclusive aumentado a oferta no avulso. A aposta do Jumbo na venda de produtos avulsos tem vindo a ser alargada a novas referências Bio. O feijão de soja, sementes de sésamo e os flocos de aveia, são alguns exemplos das novidades que reforçaram uma gama que totaliza 37 referências. Esta é uma estratégia que, para o consumidor, representa uma alternativa com vantagens não apenas económicas, mas também ambientais e sociais”.

Em 2016, o Grupo Auchan abriu mais dois espaços BIO. “Para além do Jumbo de Almada, temos o Jumbo da Maia, que se juntaram às já duas lojas com estes espaços (Jumbo de Sintra e de Setúbal). Estes espaços, que contam com mais de 450 produtos biológicos selecionados e sempre ao melhor preço, desde frutas e verduras, mercearia, perfumaria, lácteos, congelados, talho e uma área de venda de produtos avulso, são certificados pela Sativa (empresa que controla e certifica a produção agrícola e alimentar) como locais de venda de produtos biológicos”, explica Mónica Vaz. A aposta num linear somente focado em produtos biológicos, na loja Jumbo Almada, permitiu à insígnia perceber, junto do cliente, quais as suas expetativas e a pertinência da oferta. “Com o sucesso da aposta neste espaço único, pretendemos alargar a outras lojas Jumbo”, diz-nos. É também por via da marca própria que se consegue “democratizar o consumo. Já temos uma das maiores propostas do mercado das marcas próprias com mais de 50 referências e tencionamos duplicar a oferta até próximo ano”. Além destes, os clientes podem encontrar os produtos “Vida Auchan Qualidade Sustentável, que respondem às necessidades do ciente que procura um consumo mais sustentável, com preocupações com a saúde e o ambiente, sendo acima de tudo, produtos acessíveis ao poder de compra do consumidor”.

A questão do preço é vista pelos responsáveis da VillaBio com prudência. Garantem que já se consegue fazer um cabaz de compras biológico a um preço relativamente acessível. “É utópico pensar que os preços do bio podem equivaler-se aos da produção convencional – produzir biológico exige mais trabalho, mais mão de obra, as produções são mais pequenas. Em muitas áreas, adota-se de forma eficaz o conceito de ‘comércio justo’ (fair trade), de forma a acabar com a exploração de quem produz e a repartir mais equitativamente a rendimento. Tudo isto tem um custo que se reflete no preço final. Mas se considerarmos a relação qualidade/preço, face à produção chamada convencional, é muitíssimo mais favorável ao biológico, especialmente no que respeita a frutas e legumes, cuja qualidade nutricional e sabor são inquestionavelmente melhores. Há vários fatores que contribuem para esta tendência de redução do preço, mas o principal é justamente esta nova consciencialização do consumidor. Mais consumo gera maiores economias de escala. Portanto, como sempre, num mercado livre, está tudo nas mãos do consumidor”, explicam Sandra Perestrello e Nuno Heleno.

Privilegiar a produção nacional

A tendência de consumo biológico vem de mãos dadas com a preferência do consumidor pela produção nacional. Quantos de nós passámos a ler melhor os rótulos e a procurar a origem dos produtos, nos supermercados, sobretudo a partir do boom da crise económica? Quando se passou a falar do novo paradigma do consumidor, também se começou a pensar mais na preferência pelos produtos de origem portuguesa. Quantas campanhas foram lançadas no sentido de se apoiar, cada vez mais a produção nacional? “Se é saudável e tão nosso, tão português, tanto melhor”, parecem pensar os consumidores.

“O conceito Bio & Natural foi desenvolvido com o objetivo de contribuir e apoiar o desenvolvimento da agricultura biológica em Portugal, pelo que aquando da seleção dos produtos procurámos incluir o maior número possível de produtos e fornecedores locais que, de momento, representam 90% da oferta total. Atualmente, contamos com milhares de referências certificadas em diferentes categorias: mercearia, frutaria, lácteos, charcutaria e garrafeira. Tendo em conta a grande aceitação e a procura dos produtos nacionais por parte dos nossos clientes, a nossa primeira escolha para compor a oferta biológica são sempre os produtos nacionais, privilegiando os pequenos produtores”, refere a equipa do El Corte Inglés. Mais do que uma tendência de mercado, “a alimentação biológica permite regressar às raízes e aos sabores mais genuínos com benefícios para a saúde e benéfica para o meio ambiente, dois fatores com que os consumidores se preocupam cada vez mais”, acrescenta.

No caso da Sonae MC, a alimentação saudável e a agricultura biológica são áreas onde a insígnia quer crescer e distinguir-se como especialista. “Estamos a trabalhar nesse sentido em estreita parceria com os nossos produtores e fornecedores, por exemplo, no âmbito do Clube de Produtores Continente”, salienta Luís Marques.

Os clientes da VillaBio privilegiam a loja por saberem que existem produtos originalmente nacionais. “Especialmente na área dos produtos frescos, claramente que sim”, adiantam os responsáveis. E sublinham: “Infelizmente, a produção em Portugal é ainda incipiente em determinadas variedades, pelo que, quando é necessário, temos de recorrer a produtos estrangeiros. O consumidor percebe isso, mas não são raras as vezes que diz algo como ‘aquelas peras portuguesas eram bem melhores que estas!’. O crescimento em Portugal da produção biológica é exponencial, cerca de 20% ao ano, mas ainda está longe de ser suficiente. E há outros números que são expressivos: a área agrícola aumentou 20 vezes em década e meia, já temos hoje cerca de quatro mil produtores nacionais e espera-se que, em breve, se atinjam os 300 mil hectares de terra convertida para biológico”.

Onde há necessidade para crescer? Sobretudo “nos produtos transformados”, defendem Sandra Perestrello e Nuno Heleno. Nesta categoria, são os produtos estrangeiros a estar na linha da frente. “Os Governos podem ter aqui um papel muito importante a desempenhar, oferecendo, por exemplo, condições especiais para quem decida enveredar pela produção biológica. Ao fazê-lo, estariam a contribuir para uma população mais saudável, permitindo depois poupar nas despesas do país em matéria de saúde no médio/longo prazo… Basta pensarmos no exemplo da Dinamarca, onde a produção biológica foi imposta por decreto e onde as refeições em escolas e cantinas, terão obrigatoriamente de incorporar 60% de produtos biológicos. Isto tem obviamente um objetivo”, dizem.

Desafios para os produtores

O projeto “Cantinho das Aromáticas”, de Vila Nova de Gaia, teve início em janeiro de 2002, numa altura em que não se falava tanto de produtos biológicos como agora. “Durante muitos anos os produtos biológicos foram considerados um produto de nicho nosso país. Só nos últimos dois anos a consciencialização para a importância do consumo destes produtos começou a aumentar em Portugal. Também a procura pelas plantas aromáticas Bio, quer como infusões e tisanas, quer como condimentos, aumentou muito. Esperamos que a produção nacional acompanhe esta tendência, bem como o interesse dos cidadãos em produtos biológicos de grande qualidade, produzidos localmente. Esta é uma das melhores formas que cada um de nós tem para ativamente fazer regredir as alterações climáticas, já que a agricultura convencional é uma das áreas de intervenção do homem no planeta que mais contribui para as emissões de gases de estufa”, explica o fundador Luís Alves.

Os produtos deste cantinho podem ser encontrados em vários espaços em Portugal Continental e ilhas, sobretudo em mercearias finas, lojas gourmet, supermercados bio, casas de chá, hotéis e restaurantes. O El Corte Inglés é um dos parceiros fundamentais. “Estamos muito focados em produzir infusões, tisanas e condimentos, que consideramos serem produtos de ‘joalharia de agricultura’, pelo que tentamos eleger apenas alguns espaços de distribuição que privilegiem esta condição, como é o caso das lojas Supercor / El Corte Inglés”.

Quem são os principais clientes do “Cantinho das Aromáticas”? “Quem nos procura, prefere produtos produzidos localmente, sem pesticidas e adubos de síntese, segundo os princípios da agroecologia. Entende a importância da agricultura profissional de pequena e média escala para a economia do país, reconhece que é importante conhecer de perto quem produz os seus alimentos. Gosta de cozinhar com menos sal, mais saudável, começa a perceber as diferenças entre chá, infusões e tisanas e toma estas bebidas, quentes ou frias, não tanto pelas suas virtudes terapêuticas, mas sim pelo simples prazer de as degustar”, defende o responsável.

A DISTRIBUIÇÃO HOJE quis saber qual a relação deste projeto em particular com a Grande Distribuição. “O mercado português é ainda muito pequeno, pelo que necessariamente procuramos gerar volume com a exportação. A definição de margens e prazos de pagamento ajustados, bem como a ausência de cultura de consumo e falta de vocação para a promoção e comercialização para produtos deste género são algumas das dificuldades com que nos deparamos”, revela Luís Alves.

Faria então sentido que os produtores biológicos se agrupassem de forma a criar mais volume? Para o também agricultor, “a organização da produção é extremamente importante, sobretudo quando o objetivo é a exportação. Da mesma forma considero fundamental a existência de mercados locais, mercados de rua, mercados reabilitados, bem organizados, à semelhança do que se faz no resto da Europa. É extremamente importante a existência de agricultores profissionais que produzam produtos de grande qualidade segundo os fundamentos da agroecologia. Corremos o risco enorme de, com o aumento da procura, o mercado responda com produtores Bio intensivo, que produzem em grandes monoculturas, como forma de dar resposta à procura, competindo pelo preço, seguindo os mesmos pressupostos comerciais da agricultura convencional. Esta é uma situação que deve ser evitada a todo o custo, porque corremos o risco de perder aspetos fundamentais do modo de produção biológica, como produzir localmente para consumir localmente, biodiversidade e soberania alimentar, por só se apostar na comercialização de variedades com maior valor ou procura de mercado, reduzindo a probabilidade de agricultores profissionais de menor dimensão comercializarem os seus produtos”.

Apesar dos anos de experiência e das parcerias estabelecidas, a empresa enfrenta alguns desafios atuais, como por exemplo, a necessidade de “criar canais de distribuição para o mercado externo, sobretudo o europeu, no segmento pretendido” ou potenciar as vendas “através da loja online e criar uma relação mais próxima entre o agricultor e o consumidor, aumentando o número de visitas diárias à nossa quinta”. O responsável tem ainda tentado combater a sazonalidade associada ao consumo de infusões e tisanas, procurando que estas sejam consumidas ao longo de todo o ano, “quentes ou frias, sem adição de químicos ou açúcar, sobretudo pelo enorme prazer que proporcionam”, afirma.

Concorrência? Venha ela!

A concorrência não assusta. O crescimento da oferta que se tem notado em Portugal, consubstanciado no aparecimento de mais lojas pode ser considerado positivo, para os responsáveis da VillaBio. “Mais lojas, mais oferta e mais procura geram maiores economias de escala e isso reflete-se nos preços. E com preços mais baixos, há mais pessoas com possibilidades de aderir. Mais que o aspeto puramente de negócio, e salvo algumas exceções, a ideia das lojas biológicas é levar o BIO a todos. Portugal devia ter, pelo menos, uma loja por cada 100 mil habitantes e estamos ainda longe disso. Agora, o que não se compreende muito bem é a concentração de espaços deste tipo em determinadas zonas, atropelando claramente esta lógica, quando ainda há tantos outros locais de elevado potencial à espera da sua primeira loja”, criticam.

A VillaBio nasceu como um projeto que engloba, não só a loja, mas também serviços de massagens, consultas, terapias, workshops e outros eventos. “Trata-se de um conceito diferenciador e queremos posicionar-nos como tal, queremos proporcionar ao nosso público um conjunto de situações complementares à alimentação”. Recentemente, realizou-se na loja a apresentação de um livro, e neste momento, estão a ser planeados eventos, como por exemplo, fins de semana com visitas a produtores e outras atividades organizadas com eventuais parceiros para o efeito.

A presença nas redes sociais tem constituído uma boa ajuda para a carteira de clientes atual da VillaBio. “Uma mais valia destas ferramentas é a partilha com pessoas que se dedicam a temáticas de vida saudável, cozinha, saúde, superalimentos, etc. Temos atualmente muitos bloggers, escritoras, chefs, health coachs, nutricionistas que têm vindo a focar a sua profissão cada vez mais virada para o biológico e o estilo de vida saudável”, defendem Sandra Perestrello e Nuno Heleno.

Muito além do retalho alimentar

A tendência biológica já ultrapassou as fronteiras do setor alimentar. Apesar de a Organii ter à disposição dos seus clientes oferta ao nível da alimentação biológica, tem várias lojas de Bio e Eco Lifestyle que integram outros setores. A mais recente loja – Organii Concept Store – integra um polo de eco-lifestyle inaugurado em meados de março deste ano, no Lx Factory, em Lisboa. “Nas lojas de cosmética poderão encontrar todo o tipo de produtos de higiene, desde a higiene pessoal diária (como pasta de dentes, desodorizantes, gel de banho e champôs) a cosmética mais específica (linhas tratamento específico de pele, maquilhagem, perfumes, entre outros)”, explicam as irmãs Cátia Curica e Rita Curica, fundadoras da marca. Uma é ruiva e outra é loira, ambas têm a pele bastante sensível e reativa. Cátia é farmacêutica e foi percebendo que muitas das reações e intolerâncias que ambas tinham se deviam a grande parte a elementos da formulação sintética existente nos cosméticos convencionais. “A partir daí, fomos procurando produtos isentos dessas substâncias, essencialmente lá fora, e fomos descobrindo dentro da cosmética biológica produtos maravilhosos, inicialmente para uso pessoal e depois no crescimento da Organii, para o nosso público”, explicam.

Mas há mais. Nas lojas de bebé, a marca oferece produtos de puericultura variada, desde vestuário, chuchas, sapatos, porta-bebés, fraldas reutilizáveis, brinquedos e enxoval do bebé. “Neste segmento, somos especialistas em porta-bebés ergonómicos e fraldas reutilizáveis. Na concept store temos várias respostas, de marcas portuguesas, ecológicas, nas áreas da moda, decoração, alimentação e bebé”. A oferta é variada e deve-se a um propósito: “queremos que os nossos valores cheguem a um maior número de pessoas possível. Se por um lado, temos cada vez mais clientes portugueses, cada vez mais informados e conscientes, por outro lado, também devido à localização das lojas, temos muito público estrangeiro”.

Todo o mediatismo à volta da importância da alimentação biológica acabou por influenciar a aposta noutras áreas. “No último ano, sentimos um boom de procura nesse sentido. As pessoas estão mais preocupadas em ter um consumo consciente em todas as áreas, desde a alimentação, à cosmética, à roupa”.

Acreditando cada vez mais que “o consumidor consciente e informado é um consumidor fiel”, também defendem que o preço não é um entrave ao consumo. “Quando compramos um produto com um preço muito baixo sabemos que ele não foi feito dentro da Europa, não foi feito nas condições devidas, com produtos de qualidade e com recursos ambientais e humanos devidos. O nosso posicionamento é ter uma oferta de qualidade em que é preferível consumir com consciência, provavelmente consumir menos mas consumir bem. Além disso, quanto mais oferta houver, mais competitivos ficarão os preços e melhor é para o consumidor. Hoje em dia, com alguma consciência, já é possível consumir biológico sem se gastar mais. Tudo depende das escolhas que fazemos”, explicam.

Denotam que o consumo biológico tem “crescido a olhos vistos. Quando começámos era difícil abordar estes temas. Hoje, são as pessoas que nos procuram e falam cada vez mais do tema”. É isto que as motiva a trabalhar diariamente neste “mundo Organii”.

Entrar na Grande Distribuição não é uma ideia colocada de parte. Tudo depende do que seja exigido ou pedido. “Se podermos manter a cadeia de valor em todos os intermediários e o comércio for justo estamos sempre disponíveis. E achamos que a grande distribuição vai perceber a grande mais-valia que estes produtos são para todo o público”, afirmam.

Artigo publicado na edição de abril de 2017 da revista DISTRIBUIÇÃO HOJE


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