Venda de frescos biológicos para dar vida a quem tenta sobreviver às dependências

Comunidade Vida e Paz aposta na agricultura para ocupar e ensinar regras a quem já viveu na rua, para onde foram atirados pelos vícios do álcool e/ou drogas. Estão a vender cabazes online que podem criar empregos.

Frescos ComVida é a iniciativa da associação de apoio aos sem-abrigo Comunidade Vida e Paz que promove a venda semanal de cabazes de alimentos. "Frescos" porque são vegetais e frutos produzidos nas suas quintas, "vida" porque assim se pretende ocupar quem deixou as drogas e o álcool e tem dificuldades em encontrar emprego. Começaram por vender aos funcionários, avançaram agora para a venda online. Com esta ideia, a Comunidade Vida e Paz criou um posto de trabalho que gostaria de multiplicar.

Agricultura em Modo Biológico, assim se chama o projeto. Os fertilizantes resultam da compostagem do que não é aproveitável e outros adubos orgânicos, nomeadamente um preparado de urtigas; os insetos e outras pragas são controlados com um "batido" de cebola e alho.

Cada cabaz custa dez euros, o mais recente levou alface, alho-francês, aboborinha, espinafre, brócolos, couve da Beira, nabo, nabiças, limão e laranja - cerca de oito quilos. As encomendas são feitas online de segunda a quinta-feira e podem ser levantadas na sede da Comunidade Vida e Paz em Alvalade (Lisboa), entre as 16.00 e as 21.00, ou nos centros da Venda do Pinheiro e de Sobral de Monte Agraço, onde os alimentos são produzidos. O saco custa cinco euros, é feito com lona de publicidade reciclada.

Vendem 12 cabazes por semana mas há produção para mais, garante Henrique Joaquim, diretor da Comunidade Vida e Paz. "Pretende ser um projeto de inserção que crie oportunidades de emprego e, ao mesmo tempo, ser uma agricultura sustentável e com futuro. Já criámos o primeiro posto de trabalho. O futuro depende da sociedade e da sua adesão ao projeto."

João Ribeiro, 50 anos, é há sete meses o responsável pelas hortas e pomares e o trabalhador do projeto com contrato e salário mensal. Fala do que produzem e como produzem com um carinho de quem se refere a uma criação própria. Também de como escolhe os produtos que estão aptos a consumir. "E há sempre um miminho, nesta semana é um raminho de louro." No futuro, poderá ser um chazinho. "Vamos plantar chá aqui neste terreno, nesta enfiada."
E assim as hortas e plantações vão crescendo ao ritmo das estações do ano num terreno, do Centro da Quinta Espírito Santo, em Sobral de Monte Agraço, com cerca de um hectare e que ocupa 12 pessoas. Era a casa de Jules Armand Looze, "um estrangeiro muito rico que vivia tão ou mais sozinho do que um sem-abrigo e a doou à instituição em 1993", conta-se na herdade. Assim garantiu, também, companhia até aos últimos anos de vida. Morreu seis anos depois. A quinta tem capacidade para 67 pessoas que já fizeram a desintoxicação do abuso de drogas e/ou de álcool, um processo que pode levar seis meses. Neste espaço desenvolvem-se competências e aprendem-se regras para a inserção profissional, podendo os utentes frequentar as oficinas de olaria, artes decorativas, carpintaria ou agricultura.
O outro contribuinte para os cabazes é o Centro da Tomada, na Venda do Pinheiro, que abriu como comunidade terapêutica em 1993, para 65 pessoas. Em 2006 desenvolveu a área de inserção profissional em jardinagem/agricultura, carpintaria e artes gráficas. Trabalham a terra 15 utentes.

São sem-abrigo com problemas de alcoolismo e toxicodependências, em geral, que após o tratamento tentam aprender uma profissão viável. São trabalhadores difíceis? "Não", responde João Ribeiro. Justifica: "Fiz tratamento por causa do álcool e a minha relação com eles é também de motivação. "Se ele conseguiu, nós também conseguimos", pensam. E depois responsabilizo-os: "Tratem disto como se fosse vosso." E eles fazem isto com gosto."

É um ex-alcoólico que aos 37 anos resolveu acabar com o vício. Fez o tratamento e ficou na Comunidade, com uma recaída pelo meio que o levou ao Brasil. "Felizmente, só gostava de vinho tinto, nada de bebidas brancas, as minhas análises estão boas." Nasceu e cresceu na Covilhã, a trabalhar no campo, e é ao ar livre que se sente feliz. Hoje é ele próprio um formador e divide o dia de trabalho pelas duas quintas, já que distam apenas oito quilómetros uma da outra.

Tem em João Rabaça, 67 anos, o seu braço direito. Um agricultor ex-alcoólico, que se tratou noutra instituição e que lhe recomendou a Comunidade, onde vive faz em junho quatro anos. "Tem de se ter paixão, porque a agricultura não é rentável. A agricultura sustentável não dá dinheiro e aqui não usamos químicos, nada."

Um trator novinho é a coqueluche da herdade. Um donativo de uma empresa, como tantos outros que equipam a quinta. Fazem até novas hortas, como fizeram 13 voluntários funcionários da Calzedónia, e que ainda pintaram paredes.

Fone:DN em 29 DE JANEIRO DE 2018

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