Biodinâmica pode marcar a diferença


A Quinta de Silvares é um dos mais recentes projectos de agricultura biológica do país. A propriedade é explorada por Paulo Peixoto e Susana Gouveia, um casal que decidiu entregar-se de corpo e alma à agricultura e abandonar o frenesim da vida na cidade. Desde 2014 que os cinco hectares de terra em Santo Adrião de Vizela são o seu projecto de vida, mais que um mero exercício económico. Totalmente entregues a este novo caminho, o casal está agora concentrado em obter a certificação em agricultura biodinâmica.

Susana Gouveia sempre gostou de ter as mãos na terra. Em criança, um dos seus passatempos predilectos era ‘trabalhar’ na quinta dos seus avós maternos. A família de Paulo Peixoto, o marido, tem raízes na zona rural de Viseu e familiares que se fizeram engenheiros agrónomos. A terra sempre esteve presente na vida deste casal que, já adultos e licenciados em áreas de gestão, procuraram estreitar essa ligação que se estava a esvair no dia-a-dia do Porto.

“Faltava-nos tempo para nós, não nos identificávamos com o tipo de vida que levávamos, havia uma inquietação, um desassossego interno”, conta Susana Gouveia. De início, fizeram umas experiências agrícolas em pequenos terrenos na zona do  Porto. Eram trabalhos de fim-de-semana, ao jeito das hortas comunitárias, que lhe iam permitindo testar culturas e obter conhecimentos. Foram também adquirindo formação. Susana tirou o curso de Permaculture Design (estudo dos princípios básicos da Natureza, integrando plantas, animais, construções e pessoas num ambiente produtivo, harmonioso e estético). Já Paulo fez formação em agricultura biológica e gestão agrícola.

Mas estes momentos de mãos na terra não lhes chegavam e, apesar das reticências da família, um filho de três anos à altura e outro a caminho, decidiram largar a cidade e seguir o apelo que sentiam pela vida no campo.

Durante nove meses (o tempo de uma gestação) procuraram um terreno de Norte a Sul do país que se adaptasse às suas aspirações. A Diocese do Porto acabou por ser a resposta. A Quinta de Silvares, que conta mais de 200 anos de história, foi doada por dois padres sem herdeiros à diocese e estava ao abandono.

Com a venda de alguns bens e com o apoio da família, Susana e Paulo celebraram um contrato de arrendamento com a Diocese do Porto por 10 anos, com possível extensão por outros 10 e opção de compra, e tomaram em mãos a abandonada Quinta de Silvares. Compraram ainda dois mil metros quadrados junto à propriedade para habitação.

Mãos na terra

A Quinta de Silvares é, antes de tudo, um projecto de vida, de crescimento pessoal. Nesse caminho que Paulo e Susana estão há pouco mais de três anos a traçar subentende-se uma filosofia de estar, de viver a natureza, de entender a agricultura como um meio de subsistência com respeito pelos ecossistemas. A propriedade serviu-lhes os vários desígnios que procuravam, sobretudo poder desde logo arrancar com produção biológica. O facto do terreno da quinta estar sem qualquer uso há variadíssimos anos permitiu-lhes obter rapidamente a certificação de produção biológica.

Paulo e Susana começaram por produzir várias espécies de hortícolas, tendo por base a necessidade de obter um rendimento a curto prazo. Já nesta fase inicial, tiveram o cuidado de evitar a monocultura, em respeito pelos solos e princípios da biodinâmica.

Plantaram hortícolas ao ar livre e numa estufa de dois mil metros quadrados. A Quinta de Silvares produz brócolos, courgettes, diferentes tipos de tomates, feijão verde, pimentos, alfaces, rúcula, favas, nabos… Também plantam flores comestíveis, trigo de espelta e centeio. Uma das preocupações destes jovens agricultores é procurarem variedades portuguesas. Susana Gouveia exibe com orgulho os tomates rosa do Algarve e os Perdigão Amarelo.

Em simultâneo, apostaram na cultura do espargo e aí diferenciando-se de outros produtores através do selo de produto biológico. De momento, têm um hectare destinado à plantação de espargos, produto que os ocupa essencialmente de fevereiro a julho.

O crowdfunding

Os projectos agrícolas exigem capital e, por vezes, é necessário dar asas à imaginação ou recorrer a instrumentos menos habituais para angariar dinheiro e concretizar os planos. Susana e Paulo lançaram um ‘apelo’, através da PPL (plataforma online de crowdfunding ou, em português, financiamento colaborativo, que reúne promotores de projectos e apoiantes) para obterem fundos para arrancar com a plantação de um pomar de macieiras de variedades nacionais.

O casal pediu 2500 euros para criar infraestruturas para os animais da quinta e para a limpeza e ordenação de um hectare de terreno, onde projectaram plantar as macieiras. Em troca de donativos, ofereciam molhos de espargos, cabazes hortícolas, a possibilidade do doador passar um dia na quinta. Angariaram 2600 euros!

O pomar de macieiras, de variedades como Porta da Loja, Malápio da Serra ou Querina, é hoje uma realidade. A escolha destas variedades teve em conta matérias como a preservação do património agrícola português, a resistência destas espécies a infestantes e o sabor que, na opinião de Susana, nada tem haver com as variedades comerciais – como diz: “as pessoas já se esqueceram do sabor destas maças”.

Susana e Paulo já colheram os primeiros frutos, mas só no próximo ano é que deverão ter uma produção quantificável. Um pomar só entra em fase cruzeiro seis anos após a sua plantação e nessa altura as estimativas apontam para uma produção de 20 toneladas.

Dentro dos princípios da agricultura biológica e biodinâmica, instalaram junto às árvores de fruto um infraestrutura para galinhas pretas e pedrês, gansos e patos. O objetivo é que andem à solta no pomar, facilitando a limpeza da terra e fertilizando o solo. Dentro da mesma perspetiva, adquiram também duas vacas de raça Barrosã, depois das ovelhas da raça Churra do Minho – os primeiros animais de porte da quinta – terem sido alvo de ataques. Susana Gouveia sublinha que é necessário “existir um equilíbrio, uma harmonia, entre todos os elementos da quinta”.

Os cinco hectares da quinta ainda não estão totalmente cultivados. Susana e Paulo pensam plantar em breve um pomar de pereiras, em meio hectare, estando no momento a procurar plantas, de variedades regionais, para conseguir avançar com a plantação. Segundo Susana Gouveia, há muita dificuldade em conseguir material vegetativo suficiente. A quinta deverá também ter no futuro uma área dedicada à floresta. Como refere, “há áreas da exploração que não foram ainda tocadas e que serão gradualmente ocupadas com culturas”.

Da biológica para a biodinâmica

A Quinta de Silvares (ou, em termos empresariais, BioSilvares) tem toda a sua produção certificada como agricultura biológica pela Naturalfa. Mas o objectivo é obter a certificação Demeter, um regime de certificação que segue os princípios da agricultura biodinâmica desenvolvidos pelo austríaco Rudolf Steiner. Este filosofo institui uma nova forma de olhar a agricultura (em 1924), em que é dada especial importância à qualidade dos solos e das plantas e, por consequência, a um melhoramento do nível energético dos alimentos. A agricultura biodinâmica pressupõe também o desenvolvimento individual e espiritual dos agricultores.

Susana e Paulo iniciaram o processo para a certificação biodinâmica há cerca de um ano, com o apoio da ABIOP – Associação Biodinâmica Portugal. A aquisição de gado, as colmeias nas cercanias da quinta (essenciais para a polinização), as duas áreas de compostagem, a plantação das culturas de acordo com o calendário do movimento do sistema planetário, a substituição da tela de solo por empalhamento são algumas das medidas que a Quinta de Silvares já pôs em prática. Susana Gouveia realça que no país já há muitos produtores com selo biológico, uma resposta à “preocupação das pessoas com o que comem, mas muita gente aderiu pela tendência do mercado e não por convicção”. A certificação em agricultura biodinâmica vai permitir “marcar a diferença”, diz.

A obtenção da certificação Demeter é um processo que pode demorar até cinco anos. Em Portugal, as únicas entidades que estão reconhecidas pela Demeter Internacional para acompanhar as produções agrícolas nesta caminhada são a Ecocert e a Sativa. Este é um passo muito relevante para este casal de agricultores.

Susana e Paulo vêem este caminho como “uma missão social, cultural e ambiental”. Para a jovem agricultora, o mundo “parece que anda em guerra com a natureza, assistimos à poluição das águas, ao empobrecimento dos solos pelo uso constante de fertilizantes e pesticidas”, sendo que a função da Quinta de Silvares  “é produzir, mas produzir em linha com a Natureza, não contra ela”. Afinal, salienta, “esquecemos que dependemos da agricultura e que os nossos atos vão afetar as gerações seguintes”.

A subsistência

A agricultura exige um investimento constante. O renascimento da Quinta de Silvares enquanto produção agrícola não foge à regra. Susana Gouveia não gosta de falar de números e sublinha que agora estão a preparar um sistema de rega (reservatório de 100 mil litros, bomba solar, tubagem) por gravidade. Na primavera, toda a produção da quinta deverá ser regada por este novo sistema. A água é proveniente de dois furos e uma mina.

Paulo Peixoto é mais pragmático e explica que aguardam aprovação da candidatura do projecto ao PDR 2020 (estão incluídas as plantações de espargos, macieiras, hortícolas ao ar livre e em estufa) no valor de 140 mil euros.

O casal tem um funcionário para os apoiar no trabalho agrícola, mas tudo o resto são eles mesmo que tratam. Não querem intermediários e, por isso, sábado é dia de distribuir cabazes, marcar presença nas iniciativas da AMAP (Associação para a Manutenção da Agricultura de Proximidade) e na feira de produtos biológicos de Braga, entregar as encomendas em lojas e restaurantes. Como sublinha Paulo, a quinta “é um trabalho de sete dias por semana, com rotinas bem definidas”.

Susana Gouveia não tem dúvidas: “a terra produz e dá para o sustento de uma família”. Paulo Peixoto pensa no futuro com esperança: “Há muito que fazer na quinta”.

A agricultura biodinâmica

A agricultura biodinâmica surge do ideário de Rudolf Steiner sobre uma nova forma de produção agrícola. Segundo a ABIOP – Associação Biodinâmica Portugal, a biodinâmica tem algumas exigências específicas:

– A estruturação do espaço produtivo como um todo

– Fertilizações feitas prioritariamente por compostos biodinâmicos

– Aplicação regular de preparados biodinâmicos

– Culturas sem produtos tóxicos nem geneticamente modificados

– Rotações longas e diversificadas

– A utilização de sementes e plantas apropriadas


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