Economista alerta que multinacionais podem concentrar produção de biocombustíveis

Alex Rodrigues
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O economista Luiz Antonio Prado, doutor em Meio Ambiente, tem expectativas pouco otimistas em relação às vantagens da produção de biocombustíveis para os pequenos produtores agrícolas. A atividade, alertou, pode gerar maior concentração de riquezas, desabastecimento e o conseqüente aumento nos preços dos alimentos – tudo isso, agravado pela pouca geração de empregos.

“Minha expectativa é muito desfavorável. Eu prevejo um novo Programa Nacional do Álcool (ProÁlcool), quando também se prometia a criação de empregos. No final, o resultado foi uma grande concentração de propriedades, a expulsão e o êxodo do pequeno produtor rural – forçado a vender suas terras e a migrar para os grandes centros urbanos –, com o conseqüente adensamento das favelas e periferias. Vejo o país vendendo terra para os estrangeiros produzirem o biocombustível que será exportado por eles”, disse.

Segundo o economista, grupos espanhóis, italianos, portugueses e americanos já vêm se instalando, principalmente na região Nordeste do país, onde encontram terras baratas e financiamento público para desenvolver seus projetos. Ele lembrou que, a exemplo da soja – cuja produção, garantiu, já está sob controle de poucos grupos estrangeiros –, empresas multinacionais querem garantir sua fatia no mercado de combustíveis limpos.

Para lucrar, previu, essas empresas adotarão a monocultura em grandes áreas. E se esse for o modelo há um grande risco de faltarem alimentos no futuro: “No mínimo, os produtos alimentícios, sobretudo os perecíveis, ficariam mais caros, pois teriam de ser transportados por maiores distâncias”. Prado lembrou que na Malásia, maior exportador mundial de biodiesel, já existem comitês internacionais "tentando evitar que a monocultura gere uma crise que expulse os pequenos produtores do campo”.

Por isso, defendeu que o Brasil priorize a criação de pequenas associações de produtores, o que na opinião do especialista não vem ocorrendo. “Tenho viajado por tradicionais áreas produtoras de mamona no Nordeste e ali não vi perspectiva de formação de cooperativas”, alertou.

E citou como exemplo a cidade cearense de Itatira, em um região produtora de mamona: "Os agricultores passaram a vender sua produção para uma empresa estrangeira pelo preço mínimo estabelecido pelo governo. Este valor, na última década, sempre esteve 20% abaixo do preço de mercado. Há poucas exceções, principalmente no Sul do país, onde têm surgido algumas cooperativas".

Na opinião do economista, o governo deveria financiar a implantação de pequenas usinas regionais, descentralizadas. “Isso tem uma vantagem econômica. O país hoje não calcula qual é o custo de transporte da matéria-prima, pagando para levar de lá para cá não só o óleo, mas todos os resíduos que podem servir de ração”, apontou.

Ele sugeriu que o Brasil pense primeiro em seu próprio abastecimento: “Não há nenhum país desenvolvido que não esteja pensando primeiro na auto-suficiência energética. E são raros os casos de países que aceitam estas megaproduções. Na Alemanha, maior produtor de óleos vegetais para consumo próprio, o modelo prioriza as usinas descentralizadas e regionais”.

Fonte: Agência Brasil - 20 de Janeiro de 2007 - 15h08 -

Página Anterior   Associe-se  
Rodapé