Biocombustível - O potencial brasileiro

por Mônica Montenegro

O Brasil tem tudo para liderar o processo de passagem da chamada civilização do petróleo para a civilização do biocombustível. A avaliação é do professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Ignacy Sachs, que nesta semana participou da comemoração dos 10 anos do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, no auditório do Interlegis.

Para Sachs, a produção de biocombústivel - feito a partir de produtos renováveis como a mamona, o dendê e a soja - pode ser o caminho para um desenvolvimento includente e sustentável.

"Na medida em que a saída da civilização do petróleo passa pela produção de biocombustíveis, essa produção abre novas possibilidades para um novo ciclo de desenvolvimento rural em países com este. E esse ciclo é do ponto de vista social fundamental, porque se eu tivesse que destacar um problema social do século, eu diria que é o futuro dos dois bilhões de produtores familiares e suas famílias"

Agrônomo e mestre em Economia Rural, o deputado Antônio Carlos Mendes Thame, do PSDB paulista, concorda que os biocombustíveis podem ser uma alternativa para a redução da pobreza, pois os países em desenvolvimento têm condições naturais extremamente favoráveis a esse tipo de produção, como água suficiente, bastante sol e mão-de-obra abundante.

Mendes Thame enumera alguns benefícios da substituição da matriz energética brasileira. O parlamentar lembra que cada barril de biodiesel produzido corresponde a um barril de petróleo que pode deixar de ser importado.

As vantagens são um melhor resultado da nossa balança comercial e uma menor dependência do petróleo, produzido em regiões marcadas por tensões políticas.

Os biocombustíveis ainda ajudam a diminuir as emissões de gases que provocam o efeito estufa e contribuem para o processo de aquecimento global. Menos emissões se refletem também na saúde pública, com a redução de doenças como alergias e problemas respiratórios.

O economista Ignacy Sachs lembra ainda que a cadeia produtiva dos biocombustíveis pode ir além da geração de energia.

"Os biocombustíveis são apenas parte de uma visão maior do que eu chamo de civilização moderna da biomassa, porque a biomassa é alimento, é forragem, é adubo verde, é bioenergia, é material de construção, é matéria-prima industrial, é fármaco, é cosmético. Há um mundo de coisas que podemos produzir a partir da biomassa em bases sustentáveis"

Em 2003, foi criado o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Um dos seus principais enfoques é a inclusão social, com a geração de emprego e renda.

Estima-se que a adição de 2% de biodiesel ao diesel mineral pode beneficiar mais de 200 mil famílias. Isso é possível porque as oleaginosas costumam exigir pouca água e demandar muita mão de obra, como explica um dos membros da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel, Arnoldo de Campos.

"O dendê, a mamona, o girassol, o pinhão manso, todos eles são bastante adaptados ao pequeno agricultor. Inclusive, são mais adaptados ao pequenos que aos grandes produtores, porque exigem, como o dendê, um trato cultural que os tratores não dão conta, tem que ser manual, a mamona também, boa parte do manejo dela tem que ser manual, isso favorece bastante a pequena produção familiar, diferente do álcool, que tem uma base de produção de grandes produtores de grandes usinas"

Atualmente, cerca de 20 mil pequenos produtores participam do Programa Nacional do Biodiesel, sendo que 15 mil são do Nordeste.

De acordo com Arnoldo de Campos, em 2006 esse número deve chegar aos 100 mil agricultores, já que o calendário de introdução do biodiesel na matriz energética brasileira começa no próximo ano.

O processo será semelhante ao que já ocorre com a gasolina, que chega aos postos de combustível com 25% de álcool misturado. Na primeira etapa, o diesel receberá 2% de biodiesel e a mistura será elevada gradualmente. E diferentemente do que acontece com veículos movidos a álcool ou gasolina, não é necessário qualquer tipo de adaptação para que os motores a diesel recebam o biodiesel.

Mônica Montenegro para a Rádio Câmara

Fonte: Portal EcoDebate (www.ecodebate.com.br), em 04/11/2005

 

 

Página Anterior   Associe-se  
Rodapé