Agricultura Biológica: quanto vale a Beira Interior?

A um mês da apresentação da Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica, o setor diz estar a crescer «claramente puxado pelos consumidores», impondo-se a aposta nos produtos de consumo alimentar direto, desenvolvimento do mercado e apoios à conversão.

A Beira Interior está bem posicionada, possuindo 26% da superfície de agricultura biológica no nosso país.

Em entrevista, o presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio) dá conta de um crescimento de 12% entre 2014 e 2015 da área cultivada em agricultura biológica em Portugal (que rondará atualmente os 240 mil hectares), a que correspondem perto de 4.000 produtores e 300 processadores/transformadores e um valor total de produção superior a 22 milhões de euros.

«Mas os cerca de 22 milhões de euros que dizemos que vale a agricultura biológica em Portugal têm a ver com as empresas que conhecemos e com as quais contactamos, não há um levantamento exaustivo. O que sabemos é que os nossos associados e parceiros chegaram a aumentar, no ano passado, em 30% o valor da faturação», afirmou Jaime Ferreira à Lusa.

Certo é, garante, que a agricultura biológica «tem evoluído bem» e «está a ser claramente puxada pelo lado do mercado, do consumidor», que demonstra «grande interesse em ter produtos biológicos acessíveis».

E, se atualmente apenas cerca de 20% da produção biológica portuguesa tem como destino a exportação, produtos específicos como o vinho e o azeite biológicos têm um perfil marcadamente exportador, vendendo «90% ou mais» da produção para o estrangeiro, sendo muito grande o potencial de crescimento a este nível, «porque hoje o mercado europeu de agricultura biológica é deficitário».

De acordo com a Agrobio, dos 239.864 hectares de superfície em agricultura biológica registados em 2015 em Portugal, 60% estava no Alentejo e 26% na Beira Interior, correspondendo 80% da área de cultivo a pastagens, culturas arvenses (cereais) e forragens (culturas ligadas à produção animal ou à manutenção de determinadas características ambientais das explorações) e apenas 20% à produção de bens alimentares dirigidos ao consumo alimentar direto ou à transformação.

Uma situação que Jaime Ferreira gostaria que fosse invertida no sentido de um maior foco numa produção «que chegasse claramente ao consumidor», nomeadamente através da aposta em produtos hortícolas e frutas: «era aqui que eu acho que devia estar uma parte considerável do nosso futuro investimento na agricultura biológica, porque isto é, de facto, o que o consumidor deseja mais», disse.

Convicto de que esta desproporção resulta em parte de «alguns dos apoios para a agricultura, que estão tornar mais fácil fazer pastagens, forragens e culturas arvenses do que propriamente legumes, frutas e outro tipo de produções», o presidente da Agrobio defende o muito maior potencial da produção biológica de frutas (nomeadamente as mais tradicionais em Portugal, como as maçãs, peras, ameixas, pêssegos e uvas de mesa), hortícolas (sobretudo as mais usadas em sopas e saladas), leguminosas, laticínios, azeite, cereais para consumo humano e frutos secos (amêndoas, nozes, avelãs e castanhas).

Também importante seria um «maior investimento» nacional na área da transformação de produtos biológicos, ainda residual em Portugal, mas que é uma «grande oportunidade» na medida em que em média 70% da oferta das lojas de produtos biológicos corresponde a produtos transformados (atualmente importados) e não a frescos.

«São estas apostas que têm que ser feitas», sustenta Jaime Ferreira.

Ao nível do desenvolvimento do mercado da produção biológica, Jaime Ferreira considera que a Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica – cuja apresentação pública por parte do Governo deverá acontecer em março – será uma boa oportunidade para dar «indicações claras, do ponto de vista da legislação», de modalidades de consumo direto dos produtos biológicos.

«Por exemplo, devia haver uma clara indicação para que as cantinas das escolas e hospitais públicos tenham a incorporação de produtos biológicos. Estas indicações são muito importantes, porque dão um sinal ao produtor de que vale a pena produzir, porque vai ter escoamento», sustentou.

Fonte: Jornal do Fundão em 22-02-2017


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