Produtor rural cria fazenda auto-sustentável

Rodrigo Rievers

Você já imaginou uma pequena propriedade rural auto-sustentável? Em se tratando de agronegócio de pequeno porte, isso não é muito comum. No entanto, essa fazenda existe. E, mais do que isso, funciona. Situada na cidade paulista de Caconde, na divisa com o sul de Minas Gerais, a Pork Terra cria suínos para abate no frigorífico construído dentro da propriedade. Mas a história não pára por aí.

Com os dejetos dos animais, faz biofertilizante para a lavoura de café, além de biogás, que supre 50% da energia da propriedade. Já a banha não aproveitada na linha de torresmo pré-pronto vira combustível para tratores e veículos. E a glicerina, subproduto desse inovador biodiesel de origem animal, transforma-se em sabão para lavar máquinas, instalações e veículos.

O responsável por essa cadeia de inovações é João Paulo Muniz, filho de produtores rurais, que cursou apenas o primeiro ano de Direito. Largou a faculdade para dedicar-se ao de sonho de fazer a propriedade familiar ser sustentável do ponto de vista econômico e, porque não, ambiental.

"Todo o trabalho é baseado no tripé de ser sustentável ambientalmente, olhar os trinta funcionários de carteira assinada sob o foco na responsabilidade social e, é claro, ser economicamente viável. E pontuo essa questão de ser economicamente viável porque o tripé só funciona se houver lucro. Sem lucro nada disso vai para frente", aponta.

João Paulo apresentou a experiência da Pork Terra durante o seminário "Agroenergia e Pequenos Negócios", promovido pela Unidade de Agronegócios e Territórios Específicos do Sebrae Nacional, nos dias 16 e 17 de outubro em Brasília. Com um investimento que girou em torno de R$ 100 mil, ele passou a aproveitar os dejetos dos suínos - antes descartados numa nascente dentro da fazenda - para fazer biofertilizante e biogás. E o 1,5 centímetro de banha de porco descartado no processo de produção do carro-chefe do frigorífico Pork Terra, o torresmo, para produzir biodiesel.

É fato que João Paulo encontrou pela frente a pessoa certa, que lhe deu suporte técnico e científico para viabilizar todas essas inovações - o químico Deuva Magalhães Poli, que depois de décadas trabalhando na capital paulista, aposentou-se e voltou para sua terra natal, a pequena Caconde. Ele foi o responsável pelas pesquisas que deram origem ao biodiesel feito com banha de porco e ao biogás e biofertilizantes - ambos feitos a partir dos dejetos dos animais. "O primeiro biodiesel que saiu foi um terror. Mas, fomos tentando, batalhando e fizemos", diz Deuva, que também participou do seminário.

O fato é que o biodiesel de banha de porco funciona. São 190 litros por mês. "Já dá para fazer rodar os tratores e veículos da fazenda", diz João Paulo. Com isso, a fazenda não compra nem mais uma gota de combustível. "É 100% de economia", diz o produtor que, para provar que o produto está sendo feito dentro dos padrões e especificações da Agência Nacional de Petróleo (ANP), encaminhou o biodiesel de banha de porco para um laboratório de análises de Nova Paulínia, em São Paulo.

Esse laboratório emitiu laudo técnico, mostrando que o combustível segue os padrões da ANP. Com isso, João Paulo pode utilizar o biodiesel nas máquinas e veículos da fazenda. "O laudo não me dá autorização para vender, porém permite utilizar o combustível na fazenda", explica João Paulo.

Mas a inovação trouxe um novo problema. É que o biodiesel gera um subproduto que não pode ser descartado na natureza, a glicerina. Então, o que fazer com a glicerina? Produzir sabão. Isso mesmo, sabão. Hoje, o produto, com comprovado teor de limpeza, é usado para lavar instalações, máquinas e veículos da fazenda Pork Terra. "É mais 100% de economia", afirma.

Energia

As inovações também permitiram que a fazenda Pork Terra reduzisse em 50% o gasto com energia elétrica. Os dejetos dos suínos, que têm alta concentração de gás metano, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global, eram jogados em uma nascente dentro da fazenda. Com as pesquisas, João Paulo passou a produzir biogás - que hoje alimenta não apenas a parte elétrica, como também é utilizado nos fogões a gás da propriedade. "Não compro mais gás liquefeito de petróleo, o GLP", diz o empresário.

Além de energia, os dejetos são transformados em biofertilizante usado nos 75 hectares de café da fazenda. Nesse caso, a economia atual é de 40%, já que o produtor rural optou por misturar o fertilizante que produz aos encontrados hoje no mercado. "É que no início usei 100% e houve uma quebra, ainda que pequena, da safra. Isso acontece sempre que se muda o trato", diz.

E, depois de tantas inovações, qual será o próximo passo desse empreendedor rural? "Ainda não descobri, mas vou embalar "berro" de porco para vender para os palmeirenses", diz. Bom, pode ser que dê certo, afinal o símbolo do Palmeiras é um porco.

Contato:
Pork Terra - João Paulo Muniz - (19) 3662-8162
Agência Sebrae de Notícias - (61) 3348-7494
Da Agência Sebrae


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