Agroecologia abre caminho na Argentina



A agricultura orgânica abre crescente espaço na Argentina, país líder no setor e o segundo do mundo depois da Austrália, como parte da reação a um modelo que desiludiu os produtores e começa a assustar os consumidores. Segundo a intergovernamental Comissão Interamericana de Agricultura Orgânica (Ciao), existem no continente americano 9,9 milhões de hectares de produção orgânica certificada, 22% da superfície mundial destinada a esses cultivos.

Desse total, 6,8 milhões estão na América Latina e no Caribe, e três milhões destes ficam na Argentina. Segundo o argentino Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar (Senasa), a superfície orgânica colhida cresceu 10%, com cultivos de aromáticas, hortaliças, legumes, frutas, cereais e oleaginosas. Os legumes e as hortaliças tiveram o maior aumento (200%). Na Argentina, há 1.074 produtores orgânicos, majoritariamente pequenas e médias empresas e cooperativas.

“O mercado orgânico está começando a se mover. Somos produtores há 20 anos, quando esse mercado não existia na Argentina e tudo era exportado. Agora vendemos para fora uma parte, mas cerca de 50% fica aqui”, disse Jorge Pierrestegui, diretor da companhia agroecológica Olivares e Viñedos San Nicolás, produtora de azeitonas e óleo de oliva em cerca de mil hectares na província de Córdoba. “Optar pelo orgânico foi uma política da empresa, principalmente por uma visão ecológica, de longo prazo, de não jogar veneno nas plantações”, afirmou.

O engenheiro agrônomo Eduardo Cerdá, assessor em agroecologia, diferencia essa prática da chamada orgânica. Tampouco usa agroquímicos mas não busca “certificar” uma produção que está “concentrada em quatro ou cinco empresas” e que tem “um custo para os produtores”, explicou à IPS. “Basicamente, trabalhamos para gerar experiências, acompanhar produtos, formar estudantes, com um olhar da agronomia com princípios ecológicos”, acrescentou.

Cerdá, vice-presidente do Centro de Graduados da Faculdade de Agronomia da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), destacou que há um interesse crescente na agroecologia. Em dez anos, aumentaram de 600 para 12.500 hectares as áreas assessoradas. Ele e seus poucos colegas especializados não conseguem atender tanta demanda. O especialista atribui isso à decepção com o “modelo atual” baseado em agroquímicos, que considera “esgotado”.

Para ele, a agroecologia “não é uma alternativa, mas uma agronomia dos próximos anos, e os produtores estão vendo que aquilo que lhes prometeram há 20 anos, que iriam resolver essa tecnologia, não foi cumprido. Nem quanto a grandes rendimentos, nem a custos. Veem que têm um custo impressionante pela quantidade de insumos que utilizam”.

Enquanto na década de 1990 um hectare de trigo custava US$ 100, em 2015 chegou a US$ 400. Mas o rendimento não quadriplicou. Antes um hectare produzia três mil quilos e hoje, “com sorte, estaremos entre seis mil ou sete mil”, comparou Cerdá. E ressaltou que “é uma tecnologia caríssima para um resultado superineficiente. Comparamos campos agroecológicos que utilizam o esquema misto de agricultura e pecuária contra campos empresariais. Podemos até dizer que são mais eficientes”.

A Ciao atribui o crescimento agrícola orgânico na Argentina à demanda internacional, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas destaca que os cultivos orgânicos ainda representam apenas 0,5% da superfície total semeada. Na Argentina, com 43 milhões de habitantes, o setor agropecuário representa um dos destaques de sua economia, respondendo por 13% do produto interno bruto (PIB), 55,8% de suas exportações e 35,6% de seus empregos direto e indireto.

“O que mais se planta na Argentina é soja, milho ou algodão transgênico. Os produtores orgânicos são pouquíssimos ainda, e estão, sobretudo, nas hortas. Podemos contar nos dedos os que produzem grãos agroecológicos, porque não existe uma política de Estado que os promova”, pontuou Graciela Draguicevich, presidente da Associação Mutual Sentimiento.

A Associação administra El Galpon, no bairro de Chacarita, em Buenos Aires, que há 14 anos funciona como um mercado de abastecimento agroecológico e de economia social. “Descobrimos que o principal problema era a intermediação ociosa e contatamos produtores, mas queríamos fazer mais, porque nos parecia que nada seria bom se continuássemos consumindo tóxicos e adoecendo com a comida. Por isso começamos a buscar produtores sem agrotóxicos”, contou Graciela à IPS.

Os integrantes da Associação estabeleceram outro conceito do orgânico. Segundo a presidente da entidade, é “quando não tem venenos sociais e econômicos, não pratica exploração, nem há diferença de salário por gênero, nem trabalho infantil, nem depredação do que se comercializa. Tudo tem que conservar seu equilíbrio”. Graciela comemora cada vez que há mais feiras como El Galpón, embora ainda não seja “uma por bairro”, como considera necessário.

Alicia Della Ceca, que vende frutas e hortaliças nesse mercado solidário, cultiva, junto com seus dois filhos, 3,5 hectares a cerca de 20 quilômetros da capital. Ali deixaram de usar químicos há dez anos, quando o governo ofereceu assessoria técnica. “Como meus filhos são jovens e têm a mente aberta, se interessaram”, disse Alicia à IPS. “É muito bom para a saúde, para o produto, para a terra. Meu marido há 40 anos usava pesticidas porque era o normal, pensava-se que de outra forma não cresceria. Mas meus filhos são testemunhas de que se pode trabalhar dessa maneira. A terra dá, não é preciso castigá-la com químicos”, destacou.


Fonte: IPS por Fabiana Frayssinet em 13/12/2016

 


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