DESERTOS DO SERTÃO: A recriação do semi-árido

Há saídas para fazer a terra recriar e sarar, mesmo sem água abundante e cenário semi-árido

Duas veredas compridas, estreitas de passar um homem só em cada uma delas, rasgam parte dos oito hectares da mata cinza e densa. As estradinhas, caminho também da criação de cabras, correm separadas subindo e descendo no traçado vertical da cerca de estacas, porteiras, e tela de enfiar o pescoço dos burregos. Antes, os animais se feriam no arame farpado. Tudo na fazenda Três Lagoas, em Sobral, tem uma razão de ser e é harmonicamente integrado com o meio ambiente. Talvez por isso, a palavra desertificação não assuste pesquisadores e peões.

É que a experiência de Três Lagoas, iniciada há 10 anos, mostra-se como alternativa eficiente para prevenir e combater a degradação de terras do semi-árido nordestino que caminham para um deserto. O "laboratório natural" do Centro Nacional de Pesquisa de Caprinos da Embrapa, sediado em Sobral, é prova de que homem e natureza podem encontrar um equilíbrio sustentável. Aos 65 anos, o professor universitário e pesquisador da Embrapa, João Ambrósio de Araújo Filho, PhD em estudos de agrofloresta e semi-árido, é testemunha-Quixote dessa história.

A pesquisa, batizada de Sistema de Produção Agrosilvipastoril, é resultado da necessidade de mudar antigas práticas na lida com agricultura e pecuária no semi-árido. De acordo com João Ambrósio, os desmatamentos, as queimadas e o sobrepastejo só contribuíram para os processos de erosão, o empobrecimento do solo, a sedimentação dos manaciais, as perdas na produção agrícola e pastoril e o avanço dos desertos nos sertões cearense e nordestino.

Em Sobral, nos oito hectares usados como piloto de produção agropastoril em sequeiro, provou-se que a falta d'água não é empecilho para a mudança de cenários. "Aqui na Embrapa, não temos nenhum um açude. Nenhum. Trabalhamos com cisternas e o equilíbrio natural do ecossistema. Assim, conseguimos por um tempo indeterminado uma média boa na produção de grãos", explica.

No campo e na pática, o sistema desenvolvido pela equipe de João Ambrósio e a engenheira agrônoma Nilzemary Lima da Silva consiste em dividir a área,com presença da mata nativa, em três partes. Em 20% da terra é praticada a agricultura, em 60% a pecuária e os 20% restantes, são destinados à reserva legal protegida da ação humana. Ponto que contribui naturalmente para a renovação dos sistemas do lugar.

Sem desmatar a caatiga é feito um raleamento (controle seletivo de espécies) da vegetação lenhosa. Retirada a madeira útil, em vez de queimar, agrupa-se os garranchos em cordões perpendiculares ao declive da terra. É o que vai permitir o acumulo de sedimento - resultado da queda das folhas e outros componentes que servirão de fertilizante natural. E ainda, a retenção das águas. Além disso, adota-se o sistema de plantio de leguminosas perenes que também contrribui com a geração de adubo verde.

Solo protegido, a Embrapa orienta ainda a plantação das culturas com técnicas de cultivo mínimo como o milho, feijão, sorgo, mandioca, algoão e até mamona. No que se refere à pecuária, a área explorada pelos rebanhos pode ser formada por caatiga raleada ou enriquecida de outras espécies arbóreas como leucena - fonte de alimento para os animais. Para cada 4,8 hectares podem ser criadas até 20 ovelhas/ano ou o mesmo número de caprinos ou cinco matrizes bovinas.

"O segredo é imitar o sistema de equilíbrio da natureza", constata João Ambrósio. Pois bem, a revoada alvinegra de cancãos, a presença do ninho onde voltaram a nascer carcarás e o sobrevôo inquieto das abelhas nas tinas de dar de beber as cabras reforçam, durante a entrevista, a tese do pesquisador.

Fonte: Centro Nacional de Pesquisa de Caprinos da Empresa Brasileira de de Pesquisa Agropecuária Embrapa).
Endereço: Estrada Sobral/Groaíras, km 04, Cx. Postal - 145, CEP - 62.010-970.
Contatos: (88) 3577.7051 / Professor João Ambrósio - [email protected] e Nilzemary Lima da Silva - [email protected]

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