Agricultura limpa

Um Programa Nacional de Agricultura Limpa deverá ser criado pelo novo governo que tomará posse em 1.º de janeiro de 2003. Entendemos que se trata de um programa inadiável para consolidar o respeito ao meio ambiente mediante o uso racional de agroquímicos na Agricultura brasileira.

Já foram iniciadas investigações científicas, realizadas pela Embrapa e por outros órgãos de pesquisa no País, que buscam táticas alternativas de manejo de doenças e pragas de plantas e incluem o controle biológico com vistas a diminuir o número e a quantidade de aplicações de pesticidas sintéticos, promovendo melhor higiene e qualidade alimentar, reduzindo o risco à saúde das pessoas, principalmente o trabalhador rural, e protegendo o ecossistema.

O que faltou realmente no governo atual foi um Programa Nacional de Agricultura Limpa, que deveria ser concretizado pelo novo governo. Não nos interessam aqui os rótulos político-teóricos vinculados a partidos políticos como de "direita" ou de "esquerda", pois na prática o que existe mesmo é "para trás" ou "à frente", "retrógrada" ou "progressista". O fato é que há uma demanda crescente por parte dos mercados internacionais, principalmente o europeu, e da população mundial para que se contamine cada vez menos o ambiente e se produzam alimentos mais inócuos, e isso só será possível estabelecendo-se uma nova filosofia de proteção de plantas.

O Brasil não pode perder essa fatia de mercado e deve antecipar-se de maneira coordenada, com apoio das entidades reguladoras e fiscalizadoras e com apoio do fomento público, numa perspectiva que considere não somente proteger o meio ambiente, mas também a rentabilidade, a durabilidade e a competitividade do negócio para o próprio produtor. Para dar a devida importância ao tema, uma comissão permanente de Agricultura Limpa deveria ser instituída pelo "novo" Ministério da Agricultura, que assessoraria essa pasta e estabeleceria uma política estratégica de produção limpa para o País com o propósito de avançar rapidamente para uma Agricultura Limpa e de qualidade no Brasil.

O Ministério da Agricultura deveria fomentar a Agricultura Limpa com a participação de vários representantes do setor produtivo agropecuário e das instituições públicas vinculadas ao tema, como instituições de pesquisa (Embrapa, universidades e entidades de pesquisa estaduais), que deverão realizar pesquisas científicas e buscar inovações tecnológicas para o setor, financiadas adequadamente pelo governo federal a longo, médio e curto prazos.

A incorporação e a disseminação dos conceitos da Agricultura Limpa, bem como a transferência de tecnologia, deverão ser promovidas pelas entidades de assistência técnica e extensão rural dos governos nacional e estaduais e também pela iniciativa privada, e deverão atender não só às grandes e médias propriedades rurais, mas também, e principalmente, à agricultura pequena ou familiar.

O programa de Agricultura Limpa deverá contemplar tanto as culturas de exportação (como exemplos: soja, café, cacau, cana-de-açúcar, frutas), a fim de permitir o cumprimento de exigências crescentes dos mercados internacionais, bem como os produtos agrícolas de consumo interno e da agricultura familiar, para assegurar aos consumidores produtos de qualidade, obtidos de forma respeitosa com o ambiente, garantindo a melhoria da saúde humana e de animais. Vale a pena finalizar lembrando que esse programa poderá contemplar também a produção pecuária brasileira, adotando-se o mesmo princípio filosófico, isto é, a Criação Limpa.

Wilmar Cório da Luz e pesquisador da Embrapa Trigo e editor da Revisão Anual de Patologia de Plantas (RAPP). E-mail: [email protected]

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo – Caderno Suplemento Agrícola em 30 de outubro de 2002


Leia Mais:



Rede de Agricultura Sustentável
É um serviço de Cristiano Gomes e L&C Soluções Socioambientais

Siga-nos Twiiter rss Facebook Google+