Como a agricultura sustentável permite que a Holanda alimente o mundo


Com menos espaço, muito menos água e uso reduzido de pesticidas, o país conseguiu aumentar a sua produção agrícola e hoje é o segundo maior exportador de alimentos

Appesar da pequena extensão territorial, a Holanda está se tornando uma gigante da agricultura e mostrando ao mundo o que pode ser uma nova tendência. Há quase duas décadas, o país assumiu um compromisso nacional para a agricultura sustentável, com o objetivo de “produzir o dobro da comida usando metade dos recursos”. Desde então, os agricultores holandeses conseguiram reduzir a dependência de água em até 90%. Também conseguiram eliminar praticamente o uso de pesticidas químicos nas plantas cultivadas em estufas. Desde 2009, os produtores de aves e fazendeiros de gado reduziram em 60% o uso de antibióticos nos animais.

Há uma razão clara para isso. A Holanda é um país pequeno e populoso. Além disso, não conta com os recursos naturais necessários para a agricultura em larga escala. Ainda assim, conseguiu se tornar o segundo maior exportador, em valor, de alimentos – atrás apenas dos Estados Unidos, que tem 270 vezes o tamanho do território da Holanda.

Vista do ar, a Holanda não se assemelha a nenhum outro grande produtor de alimentos. Um mosaico fragmentado de campos cultivados, sendo que a maioria é de pequenos produtores, permeia as cidades. Na principal região produtora do país, não há um campo de batatas, estufa ou criação de porcos de onde não se veja um arranha-céu, fábrica ou subúrbio. Mais da metade da área do país é usada para agricultura. O complexo de estufas cobre uma área de 70 hectares. Essas “fazendas climatizadas” permitem que o país produza um fruto cultivado em regiões com clima muito diferente: o tomate. A Holanda também é o maior exportador de batatas e cebolas, e o segundo maior exportador de vegetais, em valor. Mais de um terço do comércio global de sementes tem origem em terras holandesas.

O cérebro por trás desses números, como contou a National Geographic, é a Wageningen University & Research (WUR). Conhecida como uma das melhores instituições de pesquisa em agricultura, a WUR é o ponto mais importante do Vale dos Alimentos, um amplo conjunto de startups de tecnologia agrícola e fazendas de testes. O nome é uma alusão ao Vale do Silício, na Califórnia, sendo que a Wageningen tem o mesmo papel da Universidade de Stanford em unir a academia ao empreendedorismo.

Ernst van den Ende, diretor do Grupo de Ciências das Plantas da WUR, abraça essa abordagem do Vale dos Alimentos. Autoridade mundial em patologia das plantas, ele diz não ser “somente um reitor". "Metade do tempo eu gerencio a escola, mas na outra metade olho para nove unidades de negócios separadas envolvidas em contratos comerciais de pesquisa”, afirma o pesquisador. Somente com essa mistura entre ciência ce negócios, diz ele, o país “consegue enfrentar os desafios que tem a seguir”.

E quais são esses desafios? Em uma imagem quase apocalíptica, Ernst van den Ende diz que o planeta precisará produzir “mais comida nas próximas quatro décadas do que todos os agricultores colheram nos últimos 8 mil anos”. A razão é que em 2050, a Terra terá 10 bilhões de habitantes, muito mais do que os 7,5 bilhões que vivem hoje no planeta. "Se não conseguirmos um aumento significativo na produtividade das lavouras, com a redução massiva do uso de água e combustíveis fósseis, um bilhão de pessoas podem passar fome", avisa o especialista.

A fome, inclusive, pode ser o problema mais urgente do século 21, e os visionários que trabalham no Vale dos Alimentos acreditam que encontraram uma solução inovadora para essa questão. O otimismo vem do resultado de centenas de projetos da WUR em mais de 140 países, e de pactos formais com governos e universidades nos seis continentes para implementar os avanços.

Van den Ende tem muitas ideias sobre a produção de alimentos. Seca na África? “O problema fundamental não é a água, é a má qualidade do solo”, afirma. “A ausência de nutrientes pode ser compensada cultivando plantas que agem em simbiose com certas bactérias para produzir o fertilizante”. E o que fazer com os elevados custos de grãos para alimentar o gado? “Alimente os animais com gafanhotos”, sugere o holandês. Um hectare de terra produz uma tonelada de proteína de soja por ano. A mesma quantidade de terra pode produzir 150 toneladas de proteína de insetos.

Na Holanda, o futuro da agricultura sustentável está sendo moldado não nas grandes corporações, mas em milhares de famílias modestas de fazendeiros. Um exemplo é o da fazenda dos irmãos Ted, Peter, Ronald e Remco Duijvestijn. Em um complexo de estufas de 15 hectares, há pés de tomate com seis metros de altura – plantados não na terra, mas em fibras de basalto e giz. Em 2015, eles foram escolhidos por um júri internacional como os produtores de tomate mais inovadores do mundo.

Desde que reestruturaram a fazenda da família, de 70 anos, em 2004, os irmãos Duijvestijns buscam a independência de recursos. A fazenda produz quase toda a energia que consome, os fertilizantes e até mesmo alguns dos materiais usados na embalagem dos produtos. O ambiente em que as plantas são cultivadas é mantido a uma temperatura ideal para seu crescimento, com o calor gerado a partir de aquíferos geotérmicos.

A irrigação é feita com água coletada da chuva. Cada quilo de tomate precisa de 15 litros de água, comparado a 60 litros necessários para cultivar a mesma quantidade de tomate em campos abertos. As poucas pragas que conseguem se instalar nas estufas são tratadas com Phytoseiulus persimilis, um ácaro que não ataca os tomates, mas acaba com os insetos.

A ponta da frente de inovação na Holanda, porém, está nas sementes. É nesse quesito também que está a maior parte das polêmicas sobre o futuro da agricultura. O mais controverso é o desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGMs) para aumentar a produção e criar lavouras resistentes a pragas. Os críticos dão uma pecha de Frankenstein aos OGMs, rodeados de incertezas sobre as consequências dos experimentos em organismos vivos.

As empresas holandesas estão entre as líderes no segmento de sementes, com exportações perto de US$ 1,7 bilhão em 2016. Mas elas não vendem sementes OGM. Para lançar uma nova variedade de semente no ambiente altamente regulado para os transgênicos como a Europa pode custar milhões de dólares e 12 a 14 anos de pesquisa, de acordo com Arjen van Tunen, da empresa KeyGene. Entretanto, as mais recentes descobertas na ciência do melhoramento molecular – que não introduz genes de outras empresas – podem entregar ganhos expressivos em cinco a dez anos, com custo de desenvolvimento de US$ 100 mil e receita de mais de um US$ 1 milhão. A técnica é descendente direta de métodos empregados há 10 mil anos pelos agricultores da Mesopotâmia.

O catálogo de produtos da Rijk Zwaan, outra empresa holandesa do setor, oferece sementes de alta produtividade de mais de 25 tipos de vegetais, muitos deles com proteção natural contra as principais pragas. Heleen Bos, responsável pelos orgânicos e projetos internacionais da empresa, já trabalhou no campo em algumas das nações mais pobres do mundo nos últimos 30 anos – incluindo longas passagens por Moçambique, Nicarágua e Bangladesh. “Claro que não podemos implementar imediatamente a agricultura ultra-high-tech que temos na Holanda, mas podemos introduzir soluções que podem fazer uma grande diferença”. Heleen cita as estufas de plástico, que chegam a triplicar o rendimento das lavouras.

Fonte:Epóca Negócios em 11-10-2017


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