Um grande defensor dos transgênicos

O presidente da Monsanto no Brasil admite, porém, que faltou diálogo com o público

HERTON ESCOBAR

É difícil falar de transgênicos sem falar na Monsanto. Desde que lançou o primeiro grande alimento geneticamente modificado do mercado - a soja Roundup Ready, em 1996 - a empresa americana é demonizada mundialmente por ambientalistas e outros segmentos contrários à biotecnologia. O produto é um sucesso de vendas, mas seus inventores pagam caro pelo pioneirismo. No Brasil, a soja RR é o pivô de uma batalha judicial que já dura cinco anos e vai decidir o futuro da biotecnologia no País. Em entrevista ao Estado, o presidente da Monsanto no Brasil, Rick Greubel, admite que a empresa
falhou em sua comunicação inicial com o público e tenta esclarecer algumas dúvidas sobre os transgênicos.


Estado - Entre aqueles que se opõem aos transgênicos, a Monsanto é sempre vista como o grande "vilão", apesar de várias outras empresas também utilizarem essa tecnologia. Por que o sr. acha que isso ocorre e como a
Monsanto lida com isso?

Rick Greubel - Isso pode ocorrer com empresas líderes e dentro de processos de inovação. Acho que a Monsanto errou ao dar excessiva atenção aos aspectos científicos da tecnologia, para se certificar de sua segurança e de seus benefícios. Deixou-se cegar pelo entusiasmo e subestimou sua responsabilidade em se comunicar com o público. A forma que vemos para reverter esse quadro é adotar uma política de transparência e diálogo, ouvindo as opiniões dos diversos segmentos da sociedade.

> Estado - Não há provas científicas de que os transgênicos já disponíveis no
> mercado tenham feito ou possam fazer algum mal à saúde ou ao meio ambiente.
> Mas a resistência continua. Se todos os estudos já foram feitos e todas as
> precauções já foram tomadas, como espera convencer as pessoas de que os
> transgênicos são seguros?
> Greubel - A segurança dos transgênicos já disponíveis foi confirmada por
> órgãos regulatórios de diversos países, como Japão, União Européia, Canadá
e
> Estados Unidos, e órgãos internacionais, como a Organização Mundial da
Saúde
> (OMS) e a Organização para Alimentação e Saúde (FAO), da ONU. O governo
> brasileiro declarou que a soja geneticamente modificada é segura em duas
> ocasiões: em 1998, na aprovação pela CTNBio, e no recente certificado
> entregue às autoridades chinesas, visando a viabilizar as exportações.
>
> Estado - Um "medo" do qual se fala muito é o de um eventual monopólio da
> Monsanto sobre os estoques de comida, caso os transgênicos sejam
liberados -
> principalmente porque a soja é resistente a um herbicida produzido pela
> mesma empresa. Isso tem algum cabimento?
> Greubel - Ao contrário: é mais uma alternativa para os agricultores, que
> têm - e sempre terão - a liberdade de escolher a tecnologia. A
biotecnologia
> é mais uma alternativa. O agricultor saberá escolher e optará pela
> alternativa que for melhor para ele do ponto de vista econômico, do
manuseio
> e da segurança. A Monsanto vai dar acesso à sua tecnologia para
> multiplicadores, assim como o faz em outros países. Só nos EUA existem
hoje
> mais de 300 multiplicadores de sementes, ofertando seus produtos aos
> agricultores. No caso da soja tolerante a herbicida, vale esclarecer que a
> Monsanto não é a única fabricante no Brasil de herbicidas que podem ser
> usados nesse caso. Existem diversos produtos de outras empresas, nacionais
e
> multinacionais, além dos genéricos.
>
> Estado - Os transgênicos são, muitas vezes, anunciados como a "salvação
para
> a fome", o que acaba soando como uma espécie de propaganda enganosa. Até
que
> ponto essa é uma proposta realista?
> Greubel - Seria muito simplista dizer que a biotecnologia sozinha seria
> capaz de resolver o problema da fome. Porém, com uma população mundial
> crescente, a necessidade de alimentos aumenta e, nesse contexto, a
> biotecnologia pode ser considerada uma ferramenta de melhoria da
> agricultura. Alguns exemplos são o desenvolvimento de plantas resistentes
à
> seca para regiões áridas ou o incremento da produção de milho para ração
de
> aves e suínos, o que contribui para aumentar a oferta e baratear o preço.
> Temos consciência de que, sozinha, a biotecnologia não é capaz de resolver
o
> problema da fome, mas, aliada ao aumento da oferta de empregos e à
> distribuição de renda, não pode ser desprezada.
>
> Estado - Fala-se muito que o Brasil poderá cair no atraso tecnológico e
> perder competitividade na agricultura, caso não legalize os transgênicos.
Ao
> mesmo tempo, entretanto, a produção de grãos do País não pára de crescer
ano
> após ano. O Brasil precisa mesmo dos transgênicos?
> Greubel - A produção agrícola brasileira cresceu porque houve expansão da
> área plantada, principalmente nos cerrados, com conseqüente impacto
> ambiental. A biotecnologia é capaz de propiciar aumento da produção com
uma
> otimização dos recursos naturais existentes. Outro ponto é que o Brasil
está
> passando por um problema de falta de milho, cuja produtividade aqui é
muito
> baixa e vai ter de importar algodão. A biotecnologia poderia ser a solução
> para esses problemas.
>
> Estado - Quais serão as conseqüências para o Brasil caso mantenha seu
> "embargo" judicial aos transgênicos?
> Greubel - As conseqüências estão aí. Tem-se dito que 30% da produção
> nacional de soja é transgênica e, portanto, ilegal. Essa situação que
> estamos vivendo hoje já está nos causando problemas, como o recente caso
da
> necessidade de certificado da soja para a China. O Brasil fica em situação
> de perda de credibilidade, incapaz de atender às exigências de países
> compradores, correndo o risco de perder mercados e, no médio prazo,
aumentar
> o desemprego. Outros problemas são: dependência de importações, perda da
> competitividade e maior dependência de agrotóxicos.
>
> Estado - Fala-se muito também que o Brasil teria um nicho de mercado para
> soja não-transgênica na Europa. No entanto, o sr. diz que a União Européia
é
> a maior importadora de soja transgênica do mundo. A percepção, portanto,
> está errada? O aumento das exportações no Brasil e a queda das exportações
> nos EUA não estão relacionadas ao uso de transgênicos?
> Greubel - A percepção está errada. A soja Roundup Ready, da Monsanto, foi
> aprovada para importação e consumo na União Européia (UE) em 1996. No ano
> passado, por exemplo, a UE importou 15 milhões de toneladas de soja. O
> aumento das exportações de soja do Brasil para a UE e a queda das dos EUA
> são decorrência, respectivamente, do crescimento da demanda. Isso ocorreu
em
> função da substituição da proteína animal por vegetal para alimentar o
gado
> (por conta do "mal da vaca louca") e da seca nos EUA, que acarretou uma
> queda na produção desse país. Além disso, a Argentina, onde a soja
> transgênica já ocupa 98% da área de soja do país, passou a ocupar um lugar
> de destaque no mercado, com o crescimento de 125% de suas exportações de
> soja e derivados para a Europa nos últimos três anos. Vale ainda destacar
> que os sojicultores brasileiros não estão recebendo nenhum valor adicional
> por vender soja convencional. De acordo com as declarações do presidente
da
> Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), em
entrevista
> recente a este jornal, o mercado de não-transgênicos é muito pequeno no
> mundo.
>
> Estado - Sobre a situação da soja RR no Brasil, o que mais a Monsanto pode
> fazer? Uma das reivindicações dos ambientalistas é que seja feito o Estudo
> de Impacto Ambiental no País. Apesar de a CTNBio não ter considerado o
> estudo necessário, não seria mais fácil para a Monsanto fazê-lo de
qualquer
> maneira?
> Greubel - Fizemos diversos estudos ambientais no Brasil, assim como em
> diversas partes do mundo. A Monsanto atendeu a todas as exigências da
> legislação brasileira e a CTNBio, assim como todas as demais agências
> reguladoras do mundo, considerou a soja RR segura do ponto de vista
> ambiental, para o consumo humano e animal. Entretanto, a decisão sobre a
> necessidade ou não da realização do EIA-Rima será do Judiciário e não nos
> cabe comentar o processo, uma vez que o assunto está sub judice.
>
> Estado - Não é segredo para ninguém que produtores de soja brasileiros
estão
> plantando sementes transgênicas ilegalmente, pirateadas da Argentina e não
> propriamente adaptadas para as condições de solo e clima. Qual é o efeito
> disso para a discussão maior da legalização da tecnologia no Brasil?
> Greubel - A situação não é boa para ninguém. O País perde credibilidade no
> mercado internacional, os órgãos regulatórios ficam desacreditados, as
> empresas de sementes certificadas deixam de vender, os agricultores não
têm
> acesso a variedades desenvolvidas para as condições de suas regiões e o
> consumidor fica desinformado, com dúvidas sobre a origem e a qualidade dos
> alimentos. O Brasil precisa definir essa situação.
>
> Estado - Quais são os planos da Monsanto para o Brasil diante desse
impasse
> jurídico? Ainda vale a pena investir no País?
> Greubel - A Monsanto tem um compromisso com o Brasil há mais de 50 anos e
> vem investindo desde 1999, quando a polêmica em torno da aprovação da soja
> já existia no País. Esses investimentos levaram a uma substituição de US$
> 150 milhões anuais em importações pela Monsanto, que passou a exportar
neste
> ano US$ 165 milhões. Isso sem falar nos cerca de US$ 2 milhões que nossa
> empresa tem investido, no mesmo período, em projetos sociais e ambientais.
O
> que pode haver é um desencorajamento para investir em novas tecnologias, o
> que pode ter impacto negativo no futuro. Nosso compromisso com o Brasil é
> muito maior que a biotecnologia; nosso objetivo não é só ganhar, mas
> reinvestir no País e crescer juntos
>
>


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É um serviço de Cristiano Cardoso e L&C Soluções Socioambientais.

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