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Ambientalistas fazem alerta sobre novas tecnologias

Ciências como a genômica e a nanotecnologia prometem revolucionar os modos de produção nos próximos anos, mas todas as principais pesquisas nessas áreas estão sendo realizadas sob o estrito controle das grandes empresas transnacionais de biotecnologia.

Maurício Thuswohl

Florianópolis - A poucos meses da realização da oitava Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica da ONU (COP-8), organizações civis de diversos países se esforçam para chamar a atenção da sociedade para o surgimento de novas tecnologias que representam risco potencial para o meio ambiente e a saúde humana no futuro próximo. Não regulamentadas pela CDB, ciências como a genômica e a nanotecnologia prometem revolucionar os modos de produção nos próximos anos, mas todas as principais pesquisas nessas áreas estão sendo realizadas sob o estrito controle das grandes empresas transnacionais de biotecnologia. Cientes de que a questão será trazida à COP-8 pelos países desenvolvidos, os ambientalistas querem mobilizar a sociedade, pois temem que o controle do “mercado” sobre essas novas tecnologias possa também gerar o agravamento da crise social em todo o planeta.

O tema mais intrigante é o da nanotecnologia e suas possíveis implicações em nosso modo de vida nas próximas décadas. A nanotecnologia é um conjunto de técnicas desenvolvidas pelos cientistas que permite manipular a matéria na escala de átomos e moléculas. Refere-se somente à escala, e um nanômetro equivale a um bilionésimo do metro (para se ter uma idéia, um fio de cabelo humano tem em média 80 mil nanômetros). Tudo em nanoescala é invisível a olho nu e só pode ser detectado pelos mais desenvolvidos microscópios eletrônicos. O poder da nanotecnologia e seu potencial de influir decisivamente no futuro da humanidade residem no fato de que, em nanoescala, as propriedades de diversos materiais podem mudar drasticamente, descoberta que promete revolucionar a indústria mundial.

Sem ter sua substância alterada e apenas sofrendo uma redução de tamanho, alguns materiais exibem propriedades que não possuíam antes, como mudança de cor, condutividade elétrica, maior elasticidade, maior dureza e resistência ou maior reatividade química, entre outras. Um bom exemplo é o carbono na forma de grafite que, da maneira usada em um lápis, é maleável e se quebra facilmente, mas, se reduzido à nanoescala, torna-se mais resistente que o aço e seis vezes mais leve. Essa descoberta já bastaria para mudar sensivelmente a produção industrial de diversos produtos, mas, além disso, as pesquisas em nanotecnologia indicam a utilização de matérias que, em nanoescala, podem ajudar a esfriar a atmosfera, aumentar a propulsão e reduzir a necessidade de combustível para foguetes, limpar ambientes tóxicos ou interferir na fotossíntese das plantas, entre outras aplicações.

Mais ainda, a manipulação dos materiais em nanoescala pode permitir aos cientistas a criação e o desenvolvimento de materiais que não existiam antes. Uma vez que “os instrumentos de trabalho” da nanotecnologia são os elementos da Tabela Periódica, os cientistas podem manipular os blocos básicos de construção de tudo o que existe no planeta, seja animado ou inanimado, fazendo com que os processos nanotecnológicos possam ser aplicados em qualquer setor da indústria, criando novos produtos manufaturados e transformando radicalmente os que já existem. Várias empresas de todo o mundo divulgaram recentemente a realização de pesquisas nessa área visando a criação de computadores mais rápidos, aviões mais leves, novas drogas para tratamentos específicos e alimentos mais duráveis, entre outros produtos. Todo esse potencial fez com que a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos estimasse que o mercado da indústria nanotecnológica movimentará mais de US$ 1 trilhão nos próximos dez anos.

“A elite científica mundial gastou no ano passado US$ 10 bilhões em pesquisa básica em nanotecnologia. Nunca houve um gasto tão grande em pesquisa básica. Nos EUA, por exemplo, o custo de um ano de pesquisas em nanotecnologia significou mais dinheiro do que o gasto para as pesquisas da ida à Lua e do Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica, juntos”, disse o ambientalista canadense Pat Mooney, que é especialista no tema. Dirigente do Grupo ETC (Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração), Mooney esteve em Florianópolis no último final de semana, onde participou de um grupo de trabalho sobre os temas da COP-8 a convite de diversas organizações brasileiras.

Impacto sobre os trabalhadores
A preocupação dos ambientalistas, além dos possíveis impactos ambientais e sobre a saúde humana que a aplicação da nanotecnologia pode trazer, é que a construção da “indústria do futuro” está se dando sobre alicerces que ignoram a questão social e têm como objetivo apenas a conquista de mercados e a geração de lucros. A condução capitalista e neoliberal dada às pesquisas até agora e a evidência de que o desenvolvimento da indústria nanotecnológica pode tornar obsoletos setores inteiros em curto espaço de tempo indicam a iminência de um grande impacto social sobre os trabalhadores mais pobres e vulneráveis: “Se o novo modo de produção de uma commoditie for mais barato e rápido, as empresas vão abandonar o modo anterior, é para isso que elas estão pesquisando. Isso sem falar na possibilidade de criação de novas máquinas para substituir o homem na produção”, analisa Pat Mooney.

Alguns exemplos mostram que a ameaça aos trabalhadores é concreta. Produzido e lançado este ano no Brasil pelo Grupo ETC, o livro Nanotecnologia – Os riscos da tecnologia do futuro (Editora L&PM) afirma que a indústria automobilística já está projetando nanopartículas (elementos químicos ou compostos com tamanho menor do que 100 nanômetros) para criar um material que substitua a borracha e seja capaz de aumentar em muitas vezes a durabilidade de um pneu de automóvel. Se obtiver sucesso, a demanda por borracha natural certamente cairá vertiginosamente, o que significará um enorme impacto social para os milhões de seringueiros em países como a Tailândia, a Malásia, a Índia e a Indonésia, além do Brasil. Outro caso é o algodão. Pesquisas avançam na obtenção de nanopartículas que possibilitem a obtenção de uma fibra sintética similar a do algodão, mas muitas vezes mais resistente: “O que as fibras nanotecnológicas vão significar para as cem milhões de famílias envolvidas mundialmente com a produção de algodão?”, indaga o livro, lembrando que 35 dos 54 países africanos produzem algodão.

Um relatório feito em 2004 por uma empresa norte-americana de consultoria e análise industrial, a Lux Research, afirma que a nanotecnologia deve “deslocar fatias de mercado, cadeias de suprimento e postos de trabalho em praticamente todas as indústrias”. Em outro trecho, o relatório afirma que “assim como a Revolução Industrial inglesa nocauteou do mercado as fiações e tecelagens manuais, a nanotecnologia vai arrebentar com uma grande quantidade de companhias e indústrias hoje bilionárias”. A velocidade com que as inovações vêm acontecendo sem serem bem compreendidas ou sequer acompanhadas pela sociedade preocupa ambientalistas, humanistas e militantes de esquerda em todo o mundo. Para Pat Mooney, no entanto, ainda há tempo para a reação: “É fundamental que essa discussão seja multiplicada e que estejamos preparados para ela na COP-8, ocasião em que os países ricos vão querer incluir à sua maneira a questão da nanotecnologia na CDB”.

Empresas investem US$ 8,6 bi

Aparentemente alheias às preocupações sociais, as empresas apostam seu futuro nas pesquisas em nanotecnologia. Em 2004, o investimento no setor foi estimado em US$ 8,6 bilhões. Dele participaram praticamente todas as maiores empresas do mundo, além de 35 países (liderados por EUA, União Européia e Japão). Empresas como as transnacionais de biotecnologia Syngenta e Monsanto estudam a criação de inseticidas feitos por nanopartículas. A BASF já pediu autorização para pesquisas com nanopartículas no setor de alimentação, os laboratórios Pfizer e GlaxoSmithKline fizeram o mesmo para pesquisas no setor veterinário.Estão em andamento também pesquisas feitas pela Boeing (criação de uma asa de avião a partir de nanopartículas), pela IBM (novo tipo de armazenamento de memória para computadores), pela Renault (materiais mais resistentes para automóveis) e pela Toyota (pneus mais duradouros), entre outras. Empresas como Novartis, Dupont e Nestlé também desenvolvem pesquisas e, como no caso da fabricante do Nescau no Brasil, as vezes mantém seus estudos sob absoluto sigilo.

Apenas no setor de alimentação e agricultura, cerca de 260 empresas admitem estar trabalhando com nanotecnologia. A “corrida do ouro” nanotecnológica tem provocado nos últimos dois anos uma frenética busca pela obtenção de patentes: “Os pedidos de patente hoje falam de aplicações da nanotecnologia nos campos mais diversos, com tecnologias que envolvem coisas vivas e não vivas. Um terço da tabela periódica já está patenteado”, alerta Mooney. Segundo estimativa do Grupo ETC, cerca de 475 produtos contendo nanopartículas invisíveis, não-regulamentadas e não-rotuladas, já estão sendo comercializadas em países como o Brasil. As nanopartículas já fariam parte de produtos alimentícios, agrotóxicos, cosméticos, protetores solares, fraldas e absorventes íntimos: “Parece coisa de filme de ficção-científica. Mas é verdade e talvez seja a batalha mais dura que travamos até agora”, avalia Mooney.

Fonte:Carta Maior, 24/10/2005

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