22/03/2006 - Transgênicos
Africanos rejeitam transgênicos, apesar de apoio dos grandes fazendeiros      

Os transgênicos ainda não estão disseminados pelo continente africano e enfrentam a rejeição da população local

Curitiba, PR - Os efeitos dos transgênicos na sociedade africana ainda não são profundamente sentidos, a exemplo do que ocorre em países da América Latina, pois a produção é feita em larga escala apenas na África do Sul. Há, no entanto, grande desinformação a respeito deles pela população do continente, mas, ao mesmo tempo, há uma crescente recusa por parte daqueles que tomam conhecimento dos OGMs e aceitação por parte de grandes fazendeiros, especialmente os sul-africanos.

“Quando as pessoas ficam sabendo o que são os OGMs, os consumidores rejeitam”, afirma Nnimo Bassey, da ONG Amigos da Terra, da Nigéria. “O problema é que a maioria na África não tem idéia do que eles sejam e muitos caem nas propagandas das empresas e do governo”. Por esse motivo, ele defende que haja leis e identificação rigorosa para os OGMs a fim de que as pessoas saibam o que estão comendo e possam optar se querem aquilo ou não.

Na África, grande parte da produção agrícola é feita ainda em moldes familiares e é destinada à subsistência. A grande exceção é a África do Sul, que cultiva para fins de exportação, onde os transgênicos têm encontrado espaço para a produção comercial, especialmente variedades de milho e algodão. “Lá eles sempre tiveram agricultura industrializada e plantam OGMs, que foram úteis para grandes fazendeiros que continuam mantendo o mesmo modelo”, explica Bassey. O país lida com transgênicos desde 1996. Contudo, há alguns anos houve uma tentativa de destinar o algodão modificado para pequenos agricultores da África do Sul, mas o modelo fracassou.

De acordo com Bassey, eles se endividaram muito para adquirir a nova tecnologia, o que acabou os empobrecendo ainda mais. A tecnologia dos transgênicos não é compensadora para quem planta em pequenas áreas, pois a produção é pouca e não consegue cobrir os gastos dos altos gastos requeridos para o investimento da biotecnologia.

Roger Mpande, da ONG Community Technology Development Trust, do Zimbábue, lembra que, em seu país, os moldes da produção transgênica é totalmente rejeitada pelos pequenos agricultores. Além disso, os transgênicos trazem um ônus ambiental muito sério. A maioria requer o uso de grandes quantidades de herbicidas e agentes químicos, porque as espécies modificadas acabaram trazendo novas doenças e pragas e ervas daninhas mais resistentes aos pesticidas tradicionais. “Eu ainda não vi nenhum acidente ambiental, não saberia dizer cientificamente se há efeitos negativos. O que ocorre é que com a plantação de OGMs, apesar de aumentar a fertilização, novas espécies de ervas daninhas estão aparecendo mais resistentes”, relata Chief Mdutshane, grande produtor sul-africano de milho transgênico.


Nova colonização

Além de problemas ambientais que as plantações transgênicas podem trazer, um outro ônus real apontado pelos especialistas se dá no âmbito político. O alto grau de dependência entre países africanos em relação às empresas de biotecnologia pode ameaçar a soberania desses países. “No mundo todo há apenas três companhias que produzem essas sementes [transgênicas]. Estamos prestes a ter a comunidade amarrada por essas companhias por dependência das sementes. Perde-se a independência e os fazendeiros, a autoridade”, explica Roger Mpande.

“Isso é pior do que uma nova colonização. É colonização cooperada”, afirma Nnimo Bassey. Ele explica que as empresas de biotecnologia estão na África com o consentimento do governo, pois muitos presidentes estão procurando investimentos estrangeiros. “Eles não querem perder a revolução tecnológica, pois os países africanos perderam as outras e não puderam se beneficiar com elas. Então os governos querem ter a certeza de que não vão perder a revolução dessa vez”, afirma.

Esse é o maior perigo para a África. As empresas de biotecnologia não estão paradas. Eventualmente a África vai ser colonizada novamente pelas empresas de biotecnologia, com alguns países por trás delas. Para submeter um país, não precisa mandar um exército, tudo de que se precisa é comida geneticamente modificada como uma forma de ser usada como arma biotecnológica”, relata Nnimo Bassey. “Quem controla a semente, controla a comida e controla o futuro”.

“O que está acontecendo aqui [no MOP3] é muito desapontador. O Protocolo de Cartagena deveria proteger o meio ambiente e a saúde humana. Em nível global, nós estamos perdendo a batalha”, lamenta Mpande.

Fonte: Agência Carta Maior

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