Organismos Geneticamente Modificados - Transgênicos

Noticias Publicadas em 21/01/2002

Soja transgênica invade os campos gaúchos

Perspectivas de ganhos maiores liquidam plano oficial de fazer do RS área livre de sementes geneticamente modificadas

CARLOS WAGNER E HUMBERTO TREZZI

Expansão: das 30 lavouras
visitadas aleatoriamente por Zero Hora em três regiões
diferentes do Estado, 28 cultivavam áreas com semente
transgênica – 12 delas pela primeira vez.
(foto José Doval/ZH)

Centenas – talvez milhares – de produtores de soja do Rio Grande do Sul estão sepultando no dia-a-dia os planos do Palácio Piratini de fazer do Estado uma área livre de transgênicos. Sem se importar com discursos oficiais e sem aguardar os resultados de pesquisas científicas, agricultores grandes, médios e pequenos driblaram a legislação e plantaram nesta safra milhares de hectares com soja transgênica contrabandeada.

É um levante em larga escala, silencioso e, por enquanto, clandestino nos campos gaúchos. Sem se identificar por medo de represálias, os produtores esperam faturar mais e trabalhar menos ao lançar ao solo as sementes geneticamente modificadas.

Para abastecer esse mercado sedento, há máfias organizadas no contrabando de sementes que fazem do Rio Grande do Sul a ponta-de-lança da invasão dos transgênicos no Brasil.

Cinco dias no norte do Estado foram suficientes para Zero Hora comprovar que as plantações de soja foram invadidas pela semente transgênica.

Escolhidas aleatoriamente, foram percorridas 30 propriedades localizadas nas regiões do Planalto Médio, Alto Uruguai e Missões.

Das três dezenas de plantações visitadas, 28 cultivavam áreas com semente transgênica – 12 delas pela primeira vez, segundo os seus responsáveis. Um dos agricultores só usa a tradicional, e o último já dispõe da semente, a qual pretende plantar na próxima safra.

Por estarem envolvidos em uma atividade ilícita, os produtores concordaram em falar desde que suas identidades fossem preservadas. Temem ser descobertos pelos agentes da Polícia Federal que estão investigando a expansão da semente transgênica de soja na região. As respostas dos agricultores variam pouco quando indagados sobre os motivos que os levaram a passar por cima da lei e cultivar a semente e como a conseguiram.

João, da região de Palmeiras das Missões, tem uma área de 40 hectares e plantou 10 com sementes transgênicas contrabandeadas.

– Segui o exemplo dos vizinhos. Na safra passada, muitos tiveram grandes lucros com a Maradona (apelido pelo qual a semente transgênica contrabandeada da Argentina é conhecida). Houve pessoas que economizaram até 50% na hora de fazer a roça. Daí, eu resolvi tentar – argumentou.

O agricultor conseguiu a semente com um amigo que trabalha no comércio de insumos agrícolas do município. Comprou 10 sacas de semente, pagou R$ 120 cada – o preço da semente tradicional fica em torno dos R$ 35. O alto custo da transgênica não chegou a aborrecê-lo, porque acredita que o lucro compensará os gastos iniciais.

Para um pequeno agricultor, comprar semente transgênica no comércio não é regra. Osmar, arrendatário de 30 hectares de terra, 15 plantados com transgênica nos arredores de Passo Fundo, diz que normalmente os pequenos fazem a própria semente. Chama de semente crioula – que consiste em guardar os melhores grãos da colheita para serem usados como sementes na próxima safra.

Geralmente, o dono da crioula não a usa na própria lavoura porque tem a crença que isso enfraquece a semente. Ele a troca com o vizinho. Há uma estimativa de que 45% das lavouras gaúchas sejam cultivadas com as sementes crioulas – sem qualquer controle oficial. Esta é a segunda safra de transgênica plantada pelo agricultor Osmar. Na primeira tentativa, houve problema de germinação. Ele acredita que tenha sido causada pela estiagem que assola a sua região.

Ao oeste da lavoura de Osmar, na região de Ijuí, um outro agricultor, Tadeu, dono de 80 hectares de terra, está de olho nos resultados da atual safra de sementes transgênicas.

O produtor diz que discutiu com os filhos, o pastor da sua igreja e os vizinhos, e resolveu que, dependendo do resultado dessa colheita, ele cultivará parte de sua área com a transgênica na próxima safra. Inclusive já deixou alinhavada a compra de seis sacas da semente Maradona.

Um traço comum entre os agricultores das 30 propriedades visitadas por Zero Hora: o cuidado de cultivar a semente ilegal em áreas afastadas da sede da propriedade.

– Na minha avaliação, nos sentimos culpados por estarmos pisoteando a lei ao plantar a Maradona. Fazemos isso obrigados pelos altos custos da lavoura tradicional. A Maradona evitou que muita gente, inclusive eu, quebrasse, tivesse de vender tudo e ir embora – justifica.

Pedro é dono de 700 hectares e arrenda outros 400, totalizando 1,1 mil. Desse total, ele planta com semente de soja transgênica 350 hectares. Diz que não cultiva mais porque a única variedade que há disponível no mercado ilegal da Maradona é de ciclo de germinação precoce.

Para evitar quebras causadas por problema climáticos, uma lavoura de soja é feita com sementes de ciclos de germinação de três tipos: precoce, médio e tardio. Os sementeiros ilegais estão prometendo que na próxima safra estarão disponíveis as variedades de ciclo médio e tardio.

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O QUE É

A soja transgênica é uma semente geneticamente modificada. A alteração celular é realizada a partir da inclusão de um determinado gen específico no DNA (ácido desoxirribonucléico, substância que compõe os genes) na planta. No caso da soja, houve a inserção do gen de uma bactéria resistente ao glifosato, princípio ativo presente em muitas marcas de herbicidas

COMO É A DISTRIBUIÇÃO

1 – Artesanal

• Os produtores trocam as sementes entre si.

2 – Profissional

• Um produtor de semente argentino pirateia a semente transgênica no seu país, onde o cultivo é livre.

• No Rio Grande do Sul, o pirata se alia a um ex-terceirizado de um produtor de sementes oficiais. Esse terceirizado é geralmente um médio ou grande agricultor que tem a tecnologia e as instalações apropriadas para a produção de semente. Ele é atraído para a ilegalidade pelo alto lucro. Por exemplo: ao produzir a semente legalizada, o seu ganho não passa de R$ 30 por saca. Na transgênica, os seus ganhos podem chegar até a R$ 100 por saca.

• A venda mais comum da semente é a chamada “boca da máquina” – o produto é vendido na lavoura, enquanto está sendo colhido pela máquina colheitadeira. Neste caso, a secagem do grão – colhido com umidade natural – e o armazenamento ficam por conta do comprador. A outra maneira é a venda no armazém da propriedade, onde o produto é colocado em sacas de marcas tradicionais de sementes para não despertar atenção.

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Menos veneno e mão-de-obra nas lavouras

A expansão das lavouras com sementes transgênicas de soja está mudando a rotina dos agricultores.

Em outras safras, nesta época do ano, era hora de combater o inço, plantas daninhas que nascem no meio da soja e precisam ser eliminadas para evitar prejuízos na lavoura. O combate era feito usando produtos químicos, aplicados por pulverizadores puxados por tratores ou por enxadas manuseadas por trabalhadores rurais.

Hoje, o vai-e-vem de pessoas e de máquinas está muito reduzido, porque uma única aplicação de veneno contra inço na transgênica, geralmente, é suficiente para manter a lavoura limpa. Resultado: é necessário andar bastante pelo interior para encontrar alguém.

Miguel Zeno Bonete e seus quatro filhos são trabalhadores rurais e tiravam a renda familiar da limpeza dos inços das lavouras em Coronel Bicaco, no noroeste do Estado.

Com a expansão dos transgênicos, os seus ganhos foram reduzidos. Sua esperança é recuperar o prejuízo durante a safra, porque acredita que a transgênica produz mais do que a soja tradicional. Portanto, conclui, haverá mais emprego temporário na colheita.

Enquanto isso, os proprietários rurais aguardam a soja crescer, sem maiores trabalhos de manuteção da lavoura. Raul – o nome é fictício –, agricultor em Victor Graeff, no Planalto, disse que ainda não assimilou muito a idéia de que não precisa limpar mais os inços na lavoura.

– Às vezes, dou uma passadinha pela roça só para dizer que estou fazendo alguma coisa – contou.

Este é o primeiro ano em que cultiva sementes de soja transgênica – plantou 20 dos 40 hectares de terra que tem. Homem de fortes raízes religiosas e ferrenho seguidor da lei, o fato de estar praticando uma ilegalidade tem lhe provocado insônia, confidenciou sua mulher.

Teme ser descoberto e ter a lavoura queimada pelas autoridades. Tenta se acalmar tomando chás e remédios, durante a noite, período em que fica mais agitado.

Quando deixa a propriedade e se reúne com amigos no fim de tarde, a preocupação aumenta. A semente transgênica, não poderia ser diferente, é o principal assunto.

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COMO A SEMENTE É CONHECIDA

A semente de soja transgênica tem vários apelidos entre os agricultores gaúchos:

• Maradona – É o apelido mais popular. Leva o nome do ex-craque de futebol argentino em razão da semente vir daquele país.

• Soja de chibeiro – No início, as sementes eram trazidas para o Rio Grande do Sul por pequenos contrabandistas da fronteira, conhecidos como chibeiros.

• Pêlo de Rato – Nome usado na região de Três Passos e de Tenente Portela. Pegou o apelido porque o fornecedor armazeva as sementes em um galpão infestado de ratos.

• Mercedes 70 – Na área de Palmeiras das Missões, as primeiras sementes contrabandeadas do território argentino eram distribuidas por um homem que tinha um velho caminhão Mercedes-Benz ano 1970, de cor azul.

• Jaguatirica – O apelido surgiu nesta safra porque houve muitas áreas em que a transgênica falhou por vários motivos, entre elas estar sendo usado a variedade inadequada. No linguajar do gaúcho, jaguatirica – animal pequeno e desejeitado – é alguma coisas acanhada, sem importância.

• Pirata – Nome mais conhecido entre policiais e advogados, porque a reprodução ilegal da semente transgênica não paga royalties.

• Bolsa Branca – Porque a embalagem não tem identificação.

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Sementes são trazidas da Argentina

As lavouras de sementes de soja geneticamente modificada, conhecidas como transgênicas e contrabandeadas da Argentina, alastraram-se de tal maneira nos últimos três anos no Rio Grande do Sul que se integraram ao cotidiano do gaúcho ao lado do churrasco e do chimarrão.

A previsão da Associação Brasileira de Produtores de Sementes (Abrasem) é de que as transgênicas representarão mais da metade da safra que começa em março e a maioria na seguinte. Ou seja, de cada duas sacas colhidas, uma será transgênica.

A explicação para a expansão das lavouras transgênicas é simples: a ilegalidade cresce porque os agricultores dizem economizar até 50% no plantio desse tipo de semente, conhecida como Maradona por vir da Argentina, em comparação com a tradicional.

O abastecimento é garantido por uma máfia de contrabandistas e sementeiros clandestinos que pirateiam a transgênica. É um grande negócio. Cada saca de 50 quilos é vendida a R$ 150, aproximadamente cinco vezes mais do que o preço da convencional. Embora seja mais cara, compensa porque o rendimento é maior e o custo de manutenção da lavoura pode ser menor.

– Temos conhecimento dessas plantações e nos preocupamos. Elas são contra a lei e podem trazer problemas para o agricultor – afirmou Amauri Miotto, integrante da diretoria da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag), entidade que representa 500 mil pequenos produtores.

O que preocupa Miotto e outros líderes do setor é o desrespeito à legislação brasileira de biossegurança. O artigo 8974/95, em linhas gerais, proíbe o uso desta semente em lavouras comerciais – liberando-o apenas para experimentos científicos. Os infratores podem ser punidos com a queima de suas roças e corte nos empréstimos, além de enfrentar vários processos criminais e cíveis.

A pedido do Ministério da Agricultura, a delegacia da Polícia Federal (PF) de Passo Fundo realiza, em sigilo, uma apuração sobre lavouras transgênicas. O silêncio também atinge a principal prejudicada pela fraude. A empresa multinacional Monsanto, dona da patente da transgênica, limita-se a distribuir notas à imprensa, avisando que o caso do contrabando está com a PF

Zero Hora, Porto Alegre, 20/01/2002

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