Biotecnologia Mesmo depois de aprovados, produtos só terão escala comercial em dois anos

Monsanto vai reinar no mercado de sementes transgênicas de soja

Raquel Landim, De São Paulo

Ao mesmo tempo em que a comissão interministerial formada pelo presidente Lula elabora o projeto de lei dos transgênicos - e cresce a pressão para a aprovação da tecnologia -, a Monsanto e o setor sementeiro aparam arestas para definir como será a comercialização da soja Roundup Ready, desenvolvida pela múlti americana, no mercado doméstico.

Nos últimos meses, a empresa fechou ou atualizou acordos comerciais com Embrapa, Fundação MT e Cooperativa Central Agropecuária de Desenvolvimento Tecnológico (Coodetec). Em conjunto com a Monsoy (subsidiária da própria Monsanto), essas empresas respondem por 80% das vendas de sementes de soja do país. Elas têm ao todo 45 variedades RR prontas para entrar no mercado - 20 da Embrapa, 19 da Monsoy, três da Fundação MT e três da Coodetec. Mesmo com os compromissos comerciais selados, os participantes desse novo mercado fazem mistério sobre qual será a fatia de cada um. Procurada pelo Valor, a Monsanto não deu entrevista. Mas fontes do setor adiantam que estará embutido no preço da semente, além da usual tarifa de royalty pela variedade das instituições de pesquisa, uma taxa pela patente do gene. O valor - superior aos US$ 49,83 por hectare cobrados dos argentinos e inferior aos US$ 67,45 pagos pelos americanos - será dividido entre Monsanto, instituições de pesquisa e sementeiros.

Se aprovados, os transgênicos serão adotados no Brasil como qualquer variedade de soja, tomando carona em um sistema já montado. A Monsanto será apenas o primeiro elo da cadeia. Isso começou a ser planejado em 1997, antes da soja RR ser proibida pela Justiça. Na época, a Monsanto licenciou o gene para que as instituições de pesquisa o introduzissem nas variedades. "É bom para os dois lados", afirma Alexandre José Cattelan, chefe de comunicação e negócios da Embrapa. "Para nós, é uma questão de não perder mercado. Já a Monsanto tem interesse em nosso banco genético de variedades adaptadas para o Brasil", diz.

A Monsanto, por enquanto, é a única empresa de biotecnologia que possui pesquisas avançadas em conjunto com as gigantes brasileiras do mercado sementes. O setor calcula que a multinacional será a principal detentora de patente de soja transgênica no país pelos próximos cinco a oito anos - tempo que demora o desenvolvimento de uma variedade. "O milho será um mercado mais competitivo", admite Glóverson Moro, gerente de pesquisa da Syngenta. A empresa, que tem variedades de milho transgênico adaptadas para o Brasil, vende variedades da soja RR da Monsanto nos EUA e já possui acordo de pesquisa no país.

Apesar do sistema estar montado, o produtor terá que esperar dois anos para ter acesso aos transgênicos na hipótese de o governo liberar a tecnologia. A lei brasileira atual não permite a multiplicação de sementes transgênicas. Quando receberem o sinal verde, os pesquisadores terão que plantar as sementes atuais e entregar a segunda geração aos sementeiros, para que elas sejam multiplicadas e vendidas ao agricultor. Isso significa um expressivo volume de sementes RR em 2005/06. "Se o mercado for favorável, será rápido", acredita Dario Hiromoto, superintendente da Fundação MT.

Segundo Ivo Carraro, diretor-executivo da Coodetec, o setor irá sugerir ao governo uma abertura gradual: primeiro para os sementeiros, depois para os agricultores. "É uma forma de combater a pirataria", afirma. A lei de cultivares brasileira permite que o agricultor produza sua própria semente, mas não autoriza a comercialização. Mesmo assim, o comércio ilegal já é forte no Rio Grande do Sul. Para se defender, a Monsanto também irá cobrar royalty dos exportadores que embarcarem grão sem o certificado que será fornecido na compra da semente.

Na Argentina, pirataria, royalty barato e excesso de ervas daninhas ajudaram a disseminar a tecnologia, que representa quase a totalidade da área plantada de soja no país. Nos EUA, a área chega a 85%. Os especialistas acreditam que a disseminação dos transgênicos no Brasil acontecerá num ritmo intermediário, já que o calor dificulta a produção de sementes no Centro-Oeste. "O agricultor tem que ir com calma, pois é preciso dominar a tecnologia", alerta Iwao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Valor Econômico, Quarta-feira, 18 de junho de 2003 - Ano 4 - Nº 782 - Agronegócios
http://www.valoronline.com.br

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