Milho transgênico invade o país


Exatamente como a soja, transnacionais contrabandeiam sementes da Argentina para o Rio Grande do Sul
Porto Alegre, RS – Da mesma maneira que aconteceu com a soja transgênica, há dez anos, o milho geneticamente modificado está entrando aos poucos no Rio Grande do Sul, e contrabandeado da Argentina. Na semana passada, um agricultor denunciou que uma empresa do município de Barão de Cotegipe, região Norte do Estado, estaria vendendo semente de milho transgênico aos produtores locais. O estabelecimento comercial se chama Agropecuária Campesato e pertence a Jânio Luciano Campesato, morador antigo da região.

Uma amostra deste milho foi encaminhada para análise no laboratório Alac, em Garibaldi, na Serra gaúcha. O resultado apontou que a semente possui 27,5% do gene GA21, resistente ao herbicida glifosato - mais conhecido pelo nome comercial Roundup, fabricado pela transnacional estadunidense Monsanto. Aquele gene é utilizado na variedade de milho transgênico RR GA21, da Monsanto, e é a que domina o mercado da semente geneticamente modificada na Argentina.

Abordagem

De acordo com informações do agricultor autor da denúncia, que preferiu não se identificar, Campesato vende a semente abertamente como sendo transgênica, sem se preocupar em omitir o fato, mesmo ciente de que o plantio e a comercialização do milho geneticamente modificado não é permitido no Brasil. O vendedor justifica, ainda, a pouca quantidade de semente que tem à venda justamente pelo fato de o milho modificado não ser legal. No entanto, os agricultores podem encomendar sementes, pois o carregamento é semanal. A comercialização é sem nota fiscal.

Cada quilo da semente transgênica custa R$ 15,00, enquanto a convencional fica entre R$ 3,00 e R$ 4,00. Campesato também avisa que dentro de poucos dias vai receber um tipo de milho transgênico ainda mais resistente, que custará entre R$ 20,00 e R$ 22,00 o quilo. O produto é trazido da Argentina por um comerciante não identificado, dono de uma importadora de grãos.

Para o agricultor denunciante, não há como ter uma dimensão exata da entrada da semente no Estado, mas ele acha que muitos produtores de Barão de Cotegipe e de municípios vizinhos como Sertão e Tapejara também estão plantando o milho modificado. Inclusive, existem suspeitas de que em 2004 já se produziu transgênico. “Há boatos de que um agricultor colheu 70 sacos desse milho no ano passado. Ele disse que não iria mais plantar semente transgênica, porque produz menos do que a convencional”, conta. Em 2004, o quilo da semente modificada estava sendo comercializado a R$ 8,00.

Ministério Público

Na quarta-feira, dia 11, o deputado estadual Frei Sérgio Görgen (PT-RS) denunciou o contrabando de milho transgênico ao Ministério Público. Para ele, a falta de atitudes mais enérgicas do governo federal em relação à soja transgênica serviu para abrir precedentes ao plantio ilegal de outras culturas geneticamente modificadas, como o algodão e, agora, o milho. “O governo federal é o responsável pela entrada dos transgênicos no país. Não tomou qualquer atitude para interromper a entrada da soja contrabandeada, servindo aos interesses das transnacionais”, argumenta.

Frei Sérgio critica, ainda, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio) que, em vez de regular os transgênicos, está à mercê das empresas. “O governo não respeita nem essa lei que fizeram à imagem e semelhança deles. Isso porque não tem qualquer respeito à nação brasileira.”

O deputado alerta para o fato de que o principal afetado será a economia do Rio Grande do Sul. “O cultivo do milho transgênico é uma ameaça à avicultura e à suinocultura gaúchas, já que a contaminação da carne de suínos e aves podem criar diversos problemas às exportações brasileiras.” Feita a denúncia no Ministério Público, a Polícia Federal investigará o caso.

A soja percorreu a mesma rota

Atualmente, mais de 90% do cultivo de soja no Rio Grande do Sul é transgênico. O início do plantio começou por volta de 1998, com o contrabando da soja Roundup Ready (RR), da Monsanto, trazida da Argentina sem nota fiscal - pois o plantio e comercialização do organismo geneticamente modificado (OGM) não era legalizado no Brasil. Muitos agricultores usaram a transgenia sem saber exatamente do que se tratava e, muito menos, dos seus impactos na natureza e na economia da pequena propriedade familiar. Importadores clandestinos iniciaram a venda da semente no Estado, distribuindo em locais estratégicos das regiões produtoras. Ainda houve casos de alguns agricultores que ganharam a semente de graça, e de outros que receberam dinheiro diretamente das transnacionais para cultivar a soja, para construir o “fato consumado”. A transgenia se espalhou de tal maneira que, em 2003, o governo federal emitiu a primeira Medida Provisória (MP) legalizando o plantio da semente, mas somente naquela safra. No entanto, a MP foi prorrogada também para a safra 2004/2005.

Exportação de aves e agricultura familiar, os grandes prejudicados

Na opinião do ambientalista Sebastião Pinheiro, os exportadores de aves serão um dos principais atingidos com a chegada do milho transgênico. “Vamos acabar perdendo o mercado de carne suína e de carne avícola porque os europeus não querem milho transgênico. Os estadunidenses estão atrolhados desse grão porque não têm mercado, ninguém quer comer esse milho”, afirma. “Nós temos condições de plantar milho convencional de muito boa qualidade. Mas optamos pelo que parece ser ‘mais fácil’, sem pensar nas conseqüências,” acrescenta.

Segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frango (Abef), o país é o segundo maior exportador mundial da ave, perdendo somente para os Estados Unidos. Em 2004, o Brasil vendeu no exterior cerca de 2,1 milhão de toneladas. O Rio Grande o Sul, o terceiro maior Estado exportador, com vendas externas de 25,4% da sua produção, emprega direta e indiretamente cerca de 2 milhões de pessoas. Isso dá uma idéia do estrago que faria a diminuição da compra de aves.

No entanto, não é somente a avicultura industrial que perde com a plantação do milho transgênico. Para o ambientalista, a agricultura familiar seria outra grande atingida, já que o milho, por servir de matéria-prima à alimentação humana e como ração aos animais, é fundamental na pequena propriedade.

Perigo à vista

“A briga não é no campo de pró-transgênico contra transgênico. A disputa é ‘com transgênico não há propriedade familiar em menos de dez anos’, porque ela desaparece por falta de alimento”, avisa Pinheiro.

A contaminação dos grãos convencionais de milho e a formação de outras plantas transgênicas são os grandes problemas ambientais apontados pelo especialista. “O milho é uma planta muito rara, que se cruza pelo ar, com os insetos, e também com outras gramíneas, como pastos e capins. No Rio Grande do Sul, encontramos muitas plantas que são ‘parentes’ do milho, mas que, na verdade, são pastagens”, explica.

Essa característica do grão, aliada à transgenia, pode abrir mais uma brecha para a cobrança de royalties pelas transnacionais. Na Justiça, existe o registro do caso internacional de um agricultor que não usava transgênicos, mas foi acusado de estar utilizando sementes modificadas. O agricultor foi condenado porque o gen o modificado estava dentro da semente que plantou.

Fonte: Brasil de Fato, por raquel Casiraghi em 16/11/2005


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