Transgênicos - Organismos Geneticamente Modificados

 

A revolução silenciosa da agricultura
 
Embrapa acelera estudos de mecanização controlada por satélite e computadores para o gerenciamento das lavouras

MARCELO AMBROSIO

Uma nova onda tecnológica começa a varrer o interior do Brasil. A agropecuária, que emprega 27 milhões de pessoas e movimenta em torno de US$ 240 bilhões por ano - mais ou menos 40% do Produto Interno Bruto nacional - corre contra o relógio para ingressar no seleto clube dos países de cultivos quase robotizados - máquinas, dirigidas por satélite, capazes de gerenciar milimetricamente insumos aplicados na lavoura. Desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, o projeto da Agricultura de Precisão em pouco mais de um ano reduziu consideravelmente uma dianteira que Estados Unidos, França, Inglaterra e Japão, por exemplo, haviam alcançado em duas décadas. Ao lado das pesquisas em biotecnologia, é a maior aposta da empresa para o futuro.

"Estamos no nível de aprendizado, inicialmente na área de milho e soja do Centro-Oeste. É a fase de adaptação das tecnologias à realidade nacional", explica o coordenador do projeto, o engenheiro agrônomo Evandro Mantovani, da Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas (MG). É lá que se encontra um dos plantios experimentais de empresa, em uma área de 38 hectares de milho com irrigação por pivôs centrais. O programa pode diferenciar a quantidade de água e fertilizantes aspergida na lavoura em variações de centímetros, dependendo da necessidade.

Orçado em R$ 700 mil em três anos, o programa de Agricultura de Precisão depende de fatores essenciais: o primeiro é o localizador por satélite, o popular GPS, que faz a máquina agrícola trabalhar por coordenadas - altitude, latitude e longitude - marcadas no computador. Um mapeamento detalhado e digitalizado do solo para a agricultura também teve que ser feito. O terceiro ponto, nevrálgico, é onde a Embrapa começou a atuar como centro de excelência: a fusão dessas interfaces em um programa brasileiro, aplicável nos quatro cantos do país.

Passo - "Estamos juntando navegação e mapas de solo com os conhecimentos dos especialistas em cada cultura. É um trabalho muito detalhado", explica Mantovani. O custo do pacote tecnológico ainda é alto por aqui, em torno de US$ 15 mil. "Para se ter uma idéia do que ainda temos que caminhar, nos EUA, o produtor paga US$ 7 mil pelo sistema nas suas máquinas", conta Mantovani. Mesmo no Mercosul, o Brasil precisa apressar o passo: "a Argentina já tem 150 máquinas operando assim. Aqui são só 30", completa o pesquisador.

A finalidade da agricultura de precisão é, evidentemente, racionalizar custos. "E aumentar a produtividade sem danos ao meio-ambiente", acrescenta o agrônomo. Usando a quantidade exata de insumos em cada local, o produtor gasta menos e preserva a terra. Mas o programa também pode ser corretivo. 
"Em Indiana, nos EUA, visitamos plantações onde se descobriu que havia uso de menos de adubos. Com correção, a terra produziu mais", conta. Segundo ele, foram os americanos que popularizaram a tecnologia - mas não o cruzamento das informações - a partir de 1998.

A equipe da Embrapa também procura abrir o leque de usos do programa. 
"Podemos dar ao produtor a quantidade de calcário que ele tem que jogar para corrigir a acidez do solo. Ou mapear as pragas para aplicar a quantidade exata de defensivos. Ou ainda usar sensores que medem a deficiência de nitrogênio, ligado à fertilidade", diz. O alvo número 1 é o cerrado. "É a única fronteira mundial de agricultura da atualidade. São 225 milhões de hectares, que precisam e podem ser usados com inteligência", afirma.

Fábrica de economia

A atuação da Embrapa em todos os setores do campo é traduzida por um indicador impressionante. "Nossas pesquisas trouxeram lucro social de R$ 6,2 bilhões só no ano passado", calcula o presidente da empresa, o agrônomo Alberto Duque Portugal. O valor, segundo ele, reúne somas que deixaram de ser gastas com importações de alimentos, defensivos e sementes, além dos ganhos econômicos, sociais e ambientais distribuídos na cadeia produtiva por 3.360 novos produtos, processos e tecnologias.

Segundo Portugal, o novo ciclo do algodão exprime bem a situação. "Há cinco anos, importávamos 700 mil toneladas/ano. Agora, não chega a 200 mil depois que criamos uma variedade para o nordeste", explica. O novo algodão, que resgata uma tradição cultural e social, foi obtido em laboratório, é muito resistente à seca e tem qualidade. "É um híbrido que fica três anos no campo com menos de 200 milímetros de chuva anuais", esclarece. Há três anos, eram 15 mil os hectares plantados no Ceará. Hoje são mais de 100 mil.

Com orçamento em 2000 de R$ 560 milhões e algo semelhante para 2001, a Embrapa tem, entre os mais de 8 mil funcionários, 2.063 pesquisadores, dos quais 43% com doutorado e 52% com mestrado, em 39 unidades. Do orçamento, 90%, segundo ele, vêm do governo federal. Os outros dez são captados em parcerias brasileiras e estrangeiras, com royalties, consultorias e vendas de sementes.

"Temos 1.500 contratos e convênios, fora 270 projetos com 250 instituições de 70 países", completa. A verba é suficiente? "Pelo tamanho do país e pela velocidade com que a tecnologia anda seria preciso mais do que os atuais 1,2% do PIB em ciência. O retorno é rápido, de 30 a 40% ao ano", diz.

A Embrapa é responsável pelo crescimento do agronegócio no país, nos últimos vinte anos, em taxas três vezes maiores que a população. Em grãos, a tonelagem retirada passou de 35 milhões para mais de 80, sem aumento na área plantada. Na pecuária, a oferta de carnes cresceu 4,5 vezes e a de leite passou de 7,9 milhões de litros por ano para 20,3 milhões de litros.

Genomas seguros

Ao lado da agricultura de precisão, outros dois programas aparecem como alvos importantes na Embrapa: o de biotecnologia (estudo de genomas) e o de irradiação de alimentos - para conservação e exportação. "A biotecnologia é o desafio do século, trabalhar organismos vivos que produzam alimentos de melhor qualidade, obviamente com todos os cuidados com a bioseegurança", analisa Alberto Portugal, referindo-se à polêmica em torno dos alimentos transgênicos.

"Nossa filosofia é buscar a competência nacional para isolar genes de interesse comercial para o Brasil. Não vale investir muito em milho e algodão quando há empresas que têm pesquisas adiantadas. Temos que pesquisar arroz, feijão, mandioca, frutas e rebanhos que são partes da cesta básica", completa o presidente da Embrapa, que recebeu orçamento de R$ 14 milhões para tocar os 128 projetos de melhoramento genético em andamento.

Para o presidente da Embrapa, a discussão em torno dos produtos transgênicos é mais comercial que técnica. "Essa resistência está associada à disputas entre Europa e Estados Unidos. O Brasil tem a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia), que nós endossamos, para decidir, produto por produto. Podemos avaliar se a soja modificada contamina o meio-ambiente. Mas é a sociedade, informada, que decide se a quer ou não", pondera Portugal, que vê espaços para todos os tipos de produtos. "A humanidade não tem como prescindir disso muito menos o Brasil numa área estratégica como a agricultura", completa.

A referência à soja não é casual. Uma das questão mais discutidas atualmente diz respeito à associação entre a Embrapa multinacionais da biotecnologia como Monsanto, Aventis (milho) e Cyanamid (soja). A Monsanto produz a soja resistente ao herbicida Roundup - que também fabrica. "Mas ele é a base de Glifosato, um princípio químico de domínio público. É um conhecimento mais disseminado. Já para o genoma do mamão, produto da cesta básica do brasileiro, investimos mais nos associando à universidade de Cornell, nos EUA", explica Alberto Portugal.
 
Jornal do Brasil, Domingo, 15 de outubro de 2000

CNTBIO libera dois transgênicos
 
Débora Xavier

Brasília, 15/10/2000 (Agência Brasil - ABr) - A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio), ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, liberou dois produtos transgênicos - um tipo de soja para consumo humano e a importação de milho para ração animal - após ter dado mais de 40 pareceres desfavoráveis a experimentos com alimentos geneticamente modificados.

A presidente da CNTBio, Leila Oda, em entrevista à Radiobrás, explica a aparente contradição afirmando que, "no caso do milho geneticamente modificado, foi dado um parecer desfavorável para o consumo humano devido às exigências da CNTBio, de outros testes, que na ocasião, ainda não estavam concluídos".

Observou, porém, que a liberação da importação desse produto para alimentação animal foi possível após a constatação de que não existe a possibilidade de transferência de qualquer efeito do animal para o homem. 
"Isto quer dizer que: comer a carne do frango que consome ração com este milho não oferece risco algum para a saúde humana", acredita Leila Oda.

A técnica acrescentou que o trabalho da comissão é baseado na Lei de Biossegurança que "nos auxilia a separar o joio do trigo".

Ela explicou que a CNTBio é composta de 36 membros, dos quais 20 são representantes da comunidade científica. "São pesquisadores do mais alto nível que temos no País".

Essas pessoas fazem o trabalho de avaliação de cada Organismo Geneticamente Modificado (OGM) para verificar se existe algum risco para a saúde humana ou para o meio-ambiente.

O único alimento para consumo humano liberado até agora foi a soja com um gen de tolerância a um herbicida. Segundo Leila Oda, essa espécie de soja já vem sendo usada há mais de cinco anos em vários países, como a Argentina, Canadá, EUA e China.

Informou ainda que a China, especialmente, tem se utilizado das ONGs, os chamados transgênicos, em vários setores. Segundo Leila Oda, no ano passado, em cerca de duzentas províncias chinesas que plantaram um milhão de hectares de algodão geneticamente modificado, o uso de agrotóxicos foi oito vezes menor.

"Isso demonstra que se a tecnologia genética for bem aplicada, pode trazer benefícios reais para o homem e o meio ambiente e, dessa forma, contribuir para um desenvolvimento sustentável", aposta a presidente da CNTBio.
 

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