Transgênico pirata sofre mais com a seca

Quando a seca entrando praticamente no 50ª dia, o produtor de soja Luiz Carlos Alves, de Capão Grande (RS), notou que uma parte de suas lavouras estava menos viçosa e mais murcha que as das demais áreas. "Até mesmo os vizinhos notaram a diferença", explica. Justamente naquela área, ele tinha plantado alguns hectares de soja transgênica pirata.

"Como são sementes ilegais, que não estão adaptadas, elas estão sofrendo mais com a seca do que as sementes certificadas", diz. Ele calcula que a produtividade nessas áreas possa ser até 10% menor que a obtida em áreas plantadas com variedades certificadas. Acredita-se que, no Rio Grande do Sul, entre 70% e 90% das lavouras são de soja transgênica contrabandeada.

As perdas provocadas pela seca exclusivamente aos organismos geneticamente modificados, no entanto, não são mensuráveis, embora as estimativas de agricultores indiquem que a soja transgênica tenha tido desempenho de 10% a 25% inferior que a convencional certificada sob estresse climático.

Os números podem não ser oficiais, mas no interior do Rio Grande do Sul os produtores não falam de outra coisa. "Em Vacaria, por exemplo, vi lavouras de sementes certificadas com produtividade de 25 sacas por hectare, e vi plantações transgênicas com rendimento muito menor, de 18 sacas", diz Narciso Barison, presidente da Associação de Produtores e Comerciantes de Sementes e Mudas do Rio Grande do Sul (Apassul). "Como não são variedades aclimatadas, elas sofrem mais com a falta de umidade", acredita.

Para Iwao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), caso a Lei de Biossegurança não tivesse sido aprovada pela Câmara dos Deputados, o plantio de transgênicos piratas certamente recuaria no País. "A seca apenas relembrou aos agricultores que as transgênicas piratas não passaram por adaptação nem seleção, e por isso, em momentos de estresse climático, elas são menos resistentes".

A pirataria, diz Miyamoto, criou episódios "grotescos" na safra 2004/05. "Conheci produtores que compraram sementes que acreditavam ser transgênicas e, quando usaram o glifosato, não só as ervas daninhas, mas toda a soja morreu junto", diz. "Os multiplicadores de sementes ilegais trouxeram não só sementes contrabandeadas, mas também ervas daninhas que antes não existiam no Brasil".

No Paraguai também

Não só no Brasil, mas também no Paraguai os agricultores estão sofrendo com o mesmo problema. Também no país vizinho as lavouras estão sofrendo com a falta de chuvas. Em janeiro e fevereiro, as precipitações, de 100 milímetros, representaram apenas a metade da média histórica. Luis Enrique Arréllaga, vice-presidente da Associação dos Produtores de Sementes do Paraguai, diz que a área de transgênicos piratas, que chegou a 85% nesta safra, pode recuar para até 50% na próxima safra.

"A seca mostrou que em condições climáticas desfavoráveis as variedades convencionais certificadas têm produtividade e lucratividade melhor que a da transgênica pirata", afirma. "Aqueles que plantaram as piratas se arrependeram", afirma. O país, que pretendia colher 5 milhões de toneladas, deve produzir 4 milhões de toneladas. "O número pode cair ainda mais", diz.

Ele diz que os transgênicos piratas trouxeram de volta para o país doenças da soja já consideradas praticamente erradicadas. "O cancro da haste, que já tinha sido eliminado das variedades atuais, voltou a se manifestar nas lavouras.

Convencional sem ágio

Ao contrário do que muitos imaginam, o plantio certificado de soja convencional não tem trazido os lucros esperados pelos agricultores. "Nós produzimos soja convencional certificada desde 2001 e até hoje não conseguimos receber nenhum ágio em relação ao produto não certificado", diz Paulo Illich, diretor da Cooperativa Agrária Mista Entre Rios, de Guarapuava, no Paraná. "Descobri que o povo é contra os transgênicos, mas o consumidor não quer pagar mais caro". Illich diz que os compradores estrangeiros, sobretudo os europeus, dizem preferir a soja certificada. "Mas nenhum deles se dispõe a pagar mais", afirma.

Ele espera que a situação mude com a sanção da Lei de Biossegurança pelo presidente da República. Hoje, toda a produção certificada da cooperativa é vendida a preço de soja comum, embora seu custo seja maior. "Somente com a certificadora, gastamos cerca de R$ 100 mil por ano", diz. O custo de produção também é maior se comparado ao da transgênica. Illich calcula que, caso produzisse soja geneticamente modificada, o custo de produção seria R$ 200 por hectare menor. A Agrária prevê colher 170 mil toneladas de soja. Illich, no entanto, pretende insistir na certificação por mais "algum tempo". Com a Lei de Biossegurança, ele acha que dificilmente conseguirá convencer seus associados a continuarem no convencional.

fonte: Gazeta Mercantil, 10/03/2005

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