O crime das multinacionais contra a saúde das pessoas

Por Agemiro Ferreira

NOVA YORK (EUA) - Desde janeiro os anúncios de um biscoito popular (com recheio de creme), Oreo, como outros produtos da Kraft Foods Inc, divisão do grupo Altria, maior fabricante de produtos alimentícios nos EUA e talvez no mundo, não são mais dirigidos a crianças - decisão adotada, segundo a explicação da companhia, para ajudar o esforço em favor de hábidos mais saudáveis de alimentação.

É um novo capítulo da hipocrisia da multinacional Altria - apenas um nome novo para nossa velha conhecida Philip Morris, que matou impunemente (e ainda mata) no mundo inteiro, fabricando e comercializando o único produto legal que, se consumido conforme a indicação, causa doença e morte. Hoje o mesmo grupo consegue a proeza de vender tanto o veneno velho como "produtos alimentícios".

A verdadeira razão da mudança de estratégica publicitária do Altria, que também inclui novos rótulos nos produtos atendendo a certos "critérios nutritivos", pode ser a sucessão de queixas e até processos - entre eles, uma ação judicial iniciada em 2003 contra a Kraft por um advogado de San Francisco, que reclamou a proibição da venda de Oreo na Califórnia.

Da fumaça mortal à obesidade

O principal argumento contra o Oreo é o fato de conter gorduras hidrogenadas, responsabilizadas por obesidade, colesterol alto e doenças cardíacas. A Kraft anunciou pela primeira vez o compromisso de mudar a comercialização desse e outros produtos em julho de 2003. E ganhou elogio do Centro sobre Distúrbios de Alimentação e Peso, da Universidade de Yale.

O risco de processos judiciais é hoje um pesadelo para o Altria, dado o seu passado como Philip Morris, alvo de milhares de processos que ainda lhe custam bilhões de dólares. Entre as mudanças prometidas pela Kraft há quase dois anos já estava a eliminação do marketing em escolas - o que a Philip Morris também foi forçada a fazer antes em relação à comercialização de cigarros.

Anúncios de Oreo e outros estão sendo eliminados de toda a programação publicitária de televisão, rádio e mídia impressa que têm como alvo crianças de menos de 12 anos. Mas vale lembrar um relatório de 248 páginas da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado em agosto do ano 2000. Ali fica claro como esta e outras multinacionais sabotaram os esforços do sistema da ONU.

O texto daquele relatório foi elaborado por especialistas independentes de vários países. E mostrou que as multinacionais de cigarro, entre elas a Philip Morris (que hoje se esconde sob o nome Altria), conspiraram com estratégias destinadas a subverter os esforços internacionais contra o fumo e causaram "prejuízo significativo" à atividade da OMS em favor da saúde.

Remexendo o passado criminoso

A Philip Morris, uma das mais duramente atacadas no relatório, s alegou em sua defesa que as acusações "remexem coisas velhas" e "não refletem o enfoque que teríamos hoje" em relação à OMS. Com a intenção bvia de sabotar o trabalho da organização pela saúde, tais companhias chegaram até a infiltrar seus consultores em postos da OMS, por considerá-la um de seus "principais inimigos".

Entre as técnicas de sabotagem atribuídas às poderosas transnacionais de cigarro estava o uso subterrâneo de outras agências do sistema da ONU para obter informação sobre as ações da OMS, além de esforço de "lobby" destinado a manipular delegados de países em desenvolvimento para se colocarem contra quaisquer resoluções contrárias aos interesses da indústria do fumo.

A equipe responsável pelo relatório foi integrada por quatro especialistas liderados pelo cientista suíço Thomas Zeltner. O grupo examinou muitos milhares dos 30 milhões de documentos internos de companhias de cigarro tornados públicos no julgamento, nos EUA, da ação de Minnesota contra a indústria, que resultou no pagamento de US$ 6,6 bilhões de compensações a esse estado americano.

Ação comparável à de mafiosos

Os documentos referiam-se à atividade da Philip Morris, British American Tobacco, R.J. Reynolds e Brown & Williamson, além do Council for Tobacco Research, conspícua organização não governamental criada e financiada às escondidas pela indústria para produzir falsos "estudos científicos" destinados a contestar publicamente as conclusões sérias de estudiosos independentes.

Ao encomendar o relatório, a OMS já estimava ser o cigarro a causa de mais de quatro milhões de mortes por ano e pretendia concluir acordo global até maio do ano 2003 para reduzir o consumo e as crescentes baixas fatais. Sem ação firme, segundo seus estudos, em 2030 o cigarro estaria matando 10 milhões de pessoas graças ao esforço da indústria para ampliar o consumo nos países em desenvolvimento.

Zeltner e a equipe responsável pelo estudo conclamaram países membros da OMS a investigarem tentativas da indústria de infiltrar sua gente nos organismos de saúde dos governos para sabotar qualquer ação contra o cigarro. Cético sobre a promessa das companhias de "ajudar" o esforço antifumo da OMS, devido à má conduta delas no passado, o cientista suíço sugeriu "rigoroso monitoramento" de todas.

fonte: Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, quinta-feira, 10 de março de 2005

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