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Tentativa de controlar Aedes pode ter criado ‘supermosquito’ transgênico

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Artigo científico faz alerta sobre inseto modificado e liberado em testes em cinco cidades do país
Por Litza Mattos
24/09/19 - 06h00

A tentativa de criar mosquitos transgênicos para conter a população do Aedes aegypti e controlar a transmissão de dengue, febre amarela, zika e chikungunya pode ter fracassado no Brasil. Artigo publicado recentemente na revista especializada “Scientific Reports”, do grupo Nature Research, cogita a possibilidade de o cruzamento entre diferentes espécies ter criado um “supermosquito”. A publicação tem gerado polêmica no meio científico.

Entre junho de 2013 e setembro de 2015, um estudo feito pela empresa britânica Oxitec liberou cerca de 450 mil animais machos geneticamente modificados (OX513A), por semana, na cidade de Jacobina, na Bahia. Na época, o parecer técnico com a autorização foi emitido pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Os animais modificados, cuja tecnologia foi desenvolvida em 2002, no Reino Unido, foram projetados para que a primeira geração de mosquitos não alcançasse a fase adulta e não pudesse se reproduzir.

Com o experimento na Bahia, a expectativa era reduzir a população de mosquitos selvagens em 85%. Isso funcionou durante o teste de campo. Segundo o estudo da “Scientific Reports”, 18 meses após o fim do experimento, no entanto, a população de mosquitos voltou a crescer. Aparentemente, as alterações genéticas de mosquitos transgênicos foram transferidas para a população selvagem de insetos. Conforme o artigo, os testes em Jacobina podem ter criado uma geração de mosquitos mais resistentes.

O estudo mostrou que, mesmo em bairros onde não houve liberação do Aedes modificado, foram encontrados animais com genomas mistos. “Além disso, a introgressão (transmissão de genes entre espécies) pode introduzir outros genes relevantes, como a resistência a inseticidas (...). Os resultados demonstram a importância de se ter um programa de monitoramento genético durante a liberação de organismos transgênicos para detectar consequências imprevistas”, diz o artigo.

Tecnologia contestada. Segundo a médica sanitarista Lia Giraldo da Silva Augusto, pesquisadora de saúde ambiental e ex-membro da CTNBio, ainda em 2014, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) publicou nota técnica contestando a liberação comercial desses mosquitos. “Questões dessa natureza não podem ser tratadas como mercado”, diz.

A médica suspeita de formação de lobby para beneficiar a empresa britânica. “A Oxitec escolheu regiões muito pobres e fez o experimento por sua conta e risco numa associação direta com as prefeituras, objetivando o controle da dengue, que é uma doença com tantas características complexas”, afirma.

Ainda segundo Lia, os primeiros estudos tiveram como foco o mosquito, e não foi feito um monitoramento de longo prazo. “A empresa pegou os resultados de curto prazo e os usou para pressionar a liberação comercial do Aedes transgênico. Eu nunca vi na CTNBio um processo correr tão rápido”, complementa. Ela conta que estudos feitos com mosquitos testados pela Oxitec nas ilhas Cayman, território no Caribe pertencente à Inglaterra, mostram “falhas e complicações” dessa tecnologia.

Governo. Mosquitos modificados foram testados também em outros quatro municípios brasileiros: Juazeiro, na Bahia; Piracicaba e Indaiatuba, em São Paulo, e Juiz de Fora, em Minas Gerais.

Em nota, a equipe técnica da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora diz que analisa o estudo, “apesar de a cidade não ter sido citada”. A assessoria de imprensa informou que, em 2016, o município registrou o maior surto de dengue de sua história – 34.699 casos. Em 2017, a cidade aderiu à iniciativa da Oxitec. “A atuação ocorreu apenas nos primeiros meses de 2018, quando o contrato foi suspenso em função da crise econômica”, afirma.

Em nota da assessoria de imprensa, a CTNBio diz que o artigo está sendo avaliado pela presidência e pela vice-presidência do órgão, que consultaram “pesquisadores independentes”. Conforme avaliação inicial da CTNBio, o artigo revelou a ocorrência de um mosquito híbrido, mas não comprovou que ele é mais resistente a estratégias de controle e/ou capaz de causar qualquer dano. “Está na pauta da CTNBio, inclusive, o Relatório Final do Monitoramento Pós-Liberação Comercial do Mosquito, que será examinado em caráter de urgência nos dias 2 e 3 de outubro”.

"Mantenho a integridade científica desse artigo"
Uma semana após a publicação do artigo encabeçado pelo geneticista Jeffrey R. Powell, da Universidade de Yale (EUA) e com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a revista “Scientific Reports” publicou uma nota, no dia 17 de setembro, informando que “as conclusões estão sujeitas a críticas que estão sendo consideradas pelos editores”. Uma resposta editorial adicional ainda deverá ser publicada.

Coautora do artigo, a professora associada do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Margareth Capurro, alega que o texto publicado contém erros e está em processo de retratação (retirada dos anais da ciência) e de reedição para eventual republicação.

“A gente acabou mandando uma versão que não era a correta, estamos refazendo o artigo”, justifica Margareth. Ela reforça que o mosquito híbrido está desaparecendo, lembra que os testes já terminaram e que, provavelmente, essa linhagem não será mais usada, dando lugar a um “produto melhor”. “Inclusive hoje já se sabe que a Oxitec tem uma nova linhagem até melhor que a de 2013, que está sendo avaliada”, afirmou.

Por e-mail, Powell garantiu a idoneidade do artigo. “Mantenho a integridade científica desse artigo revisado por pares”, respondeu ao ser questionado.

A Oxitec do Brasil se defende, acusando que o artigo “é uma sequência de erros e especulações”. Em nota, a empresa informa que os resultados “foram devidamente revisados, aprovados e acompanhados pela CTNBio”.

https://www.otempo.com.br/interessa/tentativa-de-controlar-aedes-pode-ter-criado-supermosquito-transgenico-1.2240658

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