Transgênicos enchem os cofres da Monsanto

Empresa lucra com demanda crescente por alimentos

Os lucros da Monsanto estão aumentando aceleradamente. A produtora de sementes geneticamente modificadas tem sido a principal beneficiária da crescente demanda por alimentos e fontes alternativas de combustível. Agricultores do mundo inteiro, principalmente dos Estados Unidos, Argentina e Brasil, estão plantando mais sementes da Monsanto, a maioria delas transgênicas para resistirem a herbicidas e repelirem insetos.

Os rendimentos da empresa no primeiro trimestre quase triplicaram, indo de US$ 90 milhões para US$ 256 milhões, graças em parte aos fortes resultados da temporada de plantio dos mercados latino-americanos. As vendas nesse período subiram 36%, chegando a US$ 2,1 bilhões. Os números ultrapassaram as estimativas de um grupo bastante otimista de analistas de Wall Street, e a Monsanto ultrapassou sua meta para o ano inteiro. As ações deram um salto de mais de 8% em comercialização em 3 de janeiro, fechando em US$ 120. E isso foi depois que os investidores já tinham desfrutado de grandes alegrias, pois, em 2007, a Monsanto foi um dos membros de melhor desempenho no índice de ações das 500 maiores empresas da Standard & Poor, com uma alta de 115%.

Provavelmente não constitui surpresa que a Monsanto, uma gigantesca participante do mercado de sementes, tenha se saído tão bem no momento em que o preço das safras atinge a estratosfera. Numa videoconferência com analistas na manhã de 3 de janeiro, o diretor-presidente da Monsanto, Hugh Grant, disse que “a necessidade por grandes plantações em fileiras (milho, soja e trigo) é a maior de todos os tempos”. Os estoques de tais safras se aproximam da sua maior baixa em 30 anos, e a demanda por cereais está crescendo, especialmente por parte da China, disse.

Mas, o mais curioso, da perspectiva do investidor, é que os ganhos com ações da Monsanto vêm sendo correlacionados com um súbito aumento de outra commodity - o petróleo. No decorrer do ano passado, o preço da ação da Monsanto teve uma correlação com o petróleo bruto de 0,94 (a mais alta correlação possível é 1). Comparativamente, no decorrer do mesmo período, as ações de uma titã de energia como a ExxonMobil registram uma correlação de somente 0,84 com os preços do petróleo bruto. Mais ainda, a correlação das ações da Monsanto com o preço do milho é de escassos 0,17.

Isso explica dias de comercialização como 12 de novembro último, quando as ações da Monsanto caíram mais de 7%. A queda poderia ter sido o resultado de uma realização de lucros. As ações tinham recebido um impulso no pregão anterior. Mas as ações do petróleo também caíram naquele dia, quando a Opep pensou em aumentar o suprimento.

O que está acontecendo? Evidentemente, a demanda por etanol tem feito soprar um vento a favor das empresas agrícolas e é uma razão importante pela qual os suprimentos de milho e outros cereais estão minguando. Quanto mais cereais são usados para fazer biocombustíveis, menos sobra para a produção de alimentos. Isso tende a elevar os preços. “Certamente, o que tem mantido o setor de agronegócio a todo o vapor é o etanol extraído do milho”, disse Charlie Rentschler, analista da Wall Street Access. Mas seu índice de compra deriva dos mercados-núcleo da empresa, e ele acha que a relação com o petróleo é um “desvio”.

De fato, alguns analistas estão inclinados a ver a correlação entre as ações da Monsanto e as do petróleo bruto como um acaso estatístico. “Provavelmente, é um acaso feliz”, diz Mark Gulley, analista da Soleil-Gulley & Associates. “Muitos dos mesmos fatores têm impulsionado os preços de todos os tipos de commodities.” Talvez os biocombustíveis venham desempenhando um papel maior no preço das ações da Monsanto do que se pensava antes. Os executivos da empresa ressaltam que suas ações não se movimentam em harmonia com outras commodities agrícolas. “Não queremos ser a jogada agrícola cíclica - não temos sido”, disse em outubro o vice-presidente da Monsanto, Carl Casale. Ele está certo. Mas poderia a Monsanto ser uma jogada cíclica do petróleo? Afinal, com o preço do barril passando dos US$ 100, essa não é uma posição tão ruim assim para se estar.

?Fonte:Jornal  Estado de São Paulo, 18 janeiro 2008

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